Publicidade

Estado de Minas

Um clube de futebol põe a intolerância de lado em Jerusalém


postado em 09/04/2018 15:30

Em Jerusalém, cidade que sobrevive em meio a conflitos armados, o modesto clube de futebol Hapoel Katamon encontrou seu lugar entre os grandes, promovendo valores de tolerância e mesclando jogadores judeus e árabes israelenses desde a infância.

"O que nos caracteriza são nossos valores, que são a base do clube tanto para os jogadores como para os torcedores", explica um dos fundadores do Hapoel Katamon, Shay Aaron, ex-jogador profissional e hoje diretor esportivo do clube.

"Pregamos contra a violência, contra o racismo, por dar tudo de si e pelo vínculo entre os diferentes setores da população", explica.

"Para nós, a nacionalidade, a etnia ou a religião dos jogadores não têm qualquer importância", continua, fazendo alusão ao maior clube de Jerusalém, o Beitar, que se nega a contratar jogadores árabes. Os árabes israelenses são descendentes dos palestinos que conseguiram permanecer em sua terra após a criação de Israel.

Mahmud Awiset, 19 anos, morador de Jaber Mukaber, um bairro árabe de Jerusalém de onde saíram vários autores de ataques contra judeus israelenses, não encontrou qualquer problema para assinar com o Katamon.

"A principio, meus vizinhos não entendiam minha decisão, mas agora está tudo bem porque o Hapoel Katamon é um clube diferente", afirma o jovem.

- 'Antítese da violência' -

"Hoje, me sinto como se estivesse em casa quando estou no Katamon, longe das tensões da cidade", completa o jogador.

Jerusalém está no centro do conflito entre Israel e Palestina. Desde a vitória na guerra de 1967, o Estado hebreu ocupa Jerusalém Oriental, a parte palestina da cidade, que foi anexada. A ONU condenou esta anexação. Os palestinos querem que Jerusalém Oriental se torne a capital de seu futuro Estado.

A Cidade Santa é regularmente cenário de manifestações palestinas contra a ocupação e alvo de ataques anti-israelenses. Há tensões diárias entre as comunidades.

Fundado há cerca de 10 anos, o Hapoel Katamon é, antes de tudo, uma tentativa de criar "a antítese da violência diária de Jerusalém", definiu seu diretor esportivo.

"Para nós, o futebol não é só um esporte, mas também uma identidade comunitária", afirma Aaron.

Para desenvolver esses valores, o clube organiza a cada mês, com o apoio financeiro de doações e da prefeitura da cidade, torneios de bairro para crianças e jovens.

Estes torneios, nos quais também participam meninas, reúnem dentro de campo alunos de 52 escolas judias e árabes de Jerusalém e arredores.

"Queremos dar oportunidades aos jovens dos bairros judeus e árabes de se conhecerem com o objetivo de que todos se aceitem sem distinção de fé, de sexo ou de prática religiosa", explica Dafna Goldschmidt-Cohen, porta-voz do clube.

A jovem, que é uma das responsáveis pelo torneio mensal, destaca a diversidade das equipes juvenis de crianças.

"Qualquer que seja o bairro, judeus e árabes são rivais, mas unicamente dentro de campo", afirma.

- Vontade de viver juntos -

Nesse dia, a final colocou frente a frente as meninas do Ein Nakuba, um vilarejo árabe próximo a Jerusalém, e as de Szold, uma escola judia da parte ocidental da cidade e que terminaria se proclamando campeã.

Dois técnicos são responsáveis pelo torneio, um judeu e outro árabe.

"O objetivo é dar às crianças vontade de viver como bons vizinhos, de criar vínculos entre comunidades diversas que formam todas parte da mesma comunidade, a de Jerusalém", explica Mohamed Basha, um dos técnicos.

Este professor de educação física organiza também encontros linguísticos entre judeus e árabes.

"Frequentemente há tensões em Jerusalém e nem sempre é fácil continuar nossas atividades, mas nunca cancelamos um treino ou um jogo nos seis anos de existência deste torneio", comemora como orgulho.

No âmbito profissional, o clube, que ocupa a quarta colocação da segunda divisão, tem o objetivo de subir à elite do futebol israelense.

"Acredito que os valores do clube podem se unir à experiência no campo e dentro de dois ou três anos seremos um clube que precisará ser levado em consideração", prevê Shay Aaron.

Para alcançar este objetivo, o Hapoel Katamon apostou também em jogadores estrangeiros, como um brasileiro e um holandês, mas também em Aviram Baruchyan, ex-capitão do rival Beitar.

Baruchyan, de 33 anos e que vestiu a camisa da seleção de Israel dez vezes, é um símbolo para os torcedores do clube.

O jogador não quis comentar, mas, para muitos torcedores, uma partida Beitar-Katamon seria um sonho.

Contudo, Dafna, porta-voz do clube, lembra: "Os resultados esportivos são importantes, mas o que é primordial para nós é construir um futuro diferente para Jerusalém".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade