Desde que o presidente da Federação descreveu a situação como a pior crise do futebol inglês, o escândalo dos abusos sexuais contra jovens jogadores não parou de crescer e já ameaça os grandes clubes.
A polícia anunciou nesta quinta-feira que 350 pessoas denunciaram ter sofrido abusos sexuais em clubes de futebol britânicos quando eram crianças, depois do testemunho de um antigo profissional que trouxe o problema à tona.
"Trabalhamos estreitamente com a Federação de Futebol (FA) em resposta a este número significativo e crescente de vítimas, em todos os níveis do futebol", afirmou o chefe da polícia, Simon Baley.
Uma linha telefônica criada para aqueles que foram abusados quando crianças por treinadores, olheiros e outros funcionários de clubes recebeu 50 ligações nas duas primeiras horas e 860 em sua primeira semana, anunciou a Sociedade para a Prevenção da Crueldade contra as Crianças (NSPCC), que a administra.
Trata-se de um número três vezes superior em comparação com as chamadas recebidas no maior escândalo de pedofilia que o país se lembra, o de Jimmy Savile, o apresentador da BBC já falecido que abusou de centenas de menores em todos os lugares imagináveis, incluindo em atos beneficentes em hospitais.
Um ex-jogador profissional chamado Andy Woodward, que jogou pelo Sheffield United, trouxe este assunto à tona ao explicar os abusos cometidos contra ele por Barry Bennell, ex-técnico das categorias de base do Manchester City, do Crewe Alexandra e Stoke City.
"Vimos o caso de Jimmy Savile e a coragem das pessoas (ao denunciá-lo). É muito mais difícil denunciar no mundo do futebol. É agora, aos 43 anos, que sinto que posso viver sem este segredo e esta carga enorme, horrível. Quero tirar isso de mim e dar a oportunidade para que outros façam o mesmo", disse Woodward ao The Guardian.
Seu desejo foi cumprido, e mais de 20 antigos pupilos de Bennell procuraram a polícia. Na terça-feira, as primeiras investigações deram frutos e o ex-treinador foi indiciado pelo estupro de um menor de 14 anos.
Este ex-treinador de 62 anos já cumpriu três penas de prisão por abusos sexuais contra menores, e agora volta a ficar nas mãos da polícia.
O último a se pronunciar, nesta quinta-feira, foi David Eatock, de 40 anos, ex-jogador do Newcastle, que disse ter sido vítima de George Ormond, um respeitado treinador de categorias de base condenado a 6 anos de prisão em 2002 por crimes deste tipo.
Para Eatock, estamos diante da ponta do iceberg: "há muitos outros que não telefonaram" para a linha voltada às vítimas, disse na BBC.
Três clubes da Premier League foram citados no escândalo: o Chelsea, o Manchester City e o Stoke City. Assim como outros clubes históricos, como o Crewe Alexandra, o Newcastle, o Leeds United, o Blackpool, o Peterborough United e o Cambridge United.
- "Nojento" -
O Chelsea anunciou na quarta-feira que contratou um escritório de advocacia para que investigue se um de seus funcionários nos anos 1970, hoje falecido, abusou sexualmente de jogadores jovens, depois que a imprensa revelou a existência de um acordo econômico substancial para que não fossem julgadas as acusações contra um antigo olheiro do clube, Eddie Heath, que trabalhou ali de 1968 a 1979.
Nesta quinta-feira, o The Times afirmou que um ex-jogador de categorias inferiores pede uma indenização milionária ao Manchester City alegando que os abuso destruíram sua carreira.
"No passado, as instituições tentavam se proteger fechando portas e janelas e se calando. Isso não é mais aceitável hoje em dia", declarou o presidente da FA, Greg Clarke, eleito em agosto. Segundo a BBC, a FA abandonou em 2003 um programa de proteção à criança.
"Moralmente, acho isso nojento que pessoas possam ter acobertado crimes contras crianças para proteger suas reputações. Se alguém se comportou mal, ele será responsabilizado e os nomes serão divulgados", completou Clarke, adiantando que a Federação Inglesa indenizaria as vítimas caso a investigação prove envolvimento da entidade e que os clubes serão punidos "pouco importando seu tamanho".
O deputado Damian Collins, presidente da comissão parlamentar encarregada de esporte, afirmou que "ao que tudo indica, as pessoas no futebol não se encarregaram de resolver o problema e simplesmente viraram a cara".
"O que me preocupa é que a investigação da FA possa se concentrar somente nas acusações, e não no problema como um todo", disse o deputado à AFP. "O que me preocupa é que os clubes vão fazer suas investigações individuais e ninguém vai examinar o problema cultural que faz com que agressores possam sair impunes e que evitemos de fazer as perguntas difíceis".
