A Cidade do México será, neste sábado, o epicentro de uma grande manifestação pelo primeiro aniversário do desaparecimento e suposto massacre dos 43 estudantes de Ayotzinapa - um crime ainda sem explicação, que manchou a imagem do governo de Enrique Peña Nieto.
Os pais dos estudantes organizaram a "Marcha da Indignação Nacional", que começa às 14h (de Brasília) e sai do palácio presidencial de Los Pinos, onde esperam manifestar seu repúdio à versão oficial sobre este crime perpetrado em Guerrero (sul) por policiais envolvidos com traficantes.
"Caminharemos com toda energia, não podemos descansar em nossa busca", garantiu à AFP Felipe de la Cruz, porta-voz dos familiares das vítimas.
Os pais dos estudantes chegaram à capital mexicana há dois dias para realizar uma vigília de 43 horas em homenagem a seus filhos. Eles também se reuniram na última quinta-feira com o presidente Peña Nieto.
Na reunião, a segunda do presidente com os pais desde que o crime ocorreu, Peña Nieto garantiu que a investigação continua aberta e anunciou a criação de uma procuradoria especializada para localizar os mais de 20.000 desaparecidos que existem no país.
Mas os pais criticaram a "mentira histórica" sobre o que ocorreu naquele fatídico 26 de setembro de 2014, e exigem a supervisão internacional das investigações.
Mas os investigadores independentes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) derrubaram as conclusões do governo sobre o caso, reavivando o mistério sobre o que pode ter ocorrido com os jovens e atiçando a ira dos pais - que há um ano lideram protestos massivos.
Na sexta-feira, o escritório das Nações Unidas no México pediu que a investigação oficial seja "inteiramente repensada" e o esclarecimento de suas irregularidades, que incluem "informações sobre o uso da tortura para conseguir confissões e alteração de provas".
O triste aniversário do crime foi lembrado desde a sexta-feira em Guerrero, com uma manifestação com mais de 2.000 indígenas em Chilapa e a tomada de duas emissoras de rádio em Chilpancingo (capital do estado) por cerca de 50 estudantes de Ayotzinapa.
- Mais perguntas que respostas -
A versão oficial da procuradoria diz ter uma "verdade histórica", e diz que os estudantes da escola para professores rurais de Ayotzinapa foram atacados por policiais municipais de Iguala e do município vizinho de Cocula.
Três estudantes foram assassinados quando os policiais dispararam contra seus ônibus enquanto três outras pessoas morreram quando também foi atacado o veículo no qual viajava um time de futebol.
Depois, os 43 estudantes sobreviventes foram entregues a traficantes de drogas locais, que os mataram e incineraram em um depósito de lixo nas proximidades, por suspeita de que os jovens seriam membros de um cartel rival.
Mas os especialistas da CIDH concluíram que "não há qualquer evidência" de que os jovens tenham sido queimados no lixão e criticaram que a versão oficial não explore a hipótese de que os estudantes tenham sido atacados por terem tomado, por engano, um ônibus que transportava heroína.
"Estamos em uma situação sem saída porque não haverá uma versão aceita por todos", avaliou José Antonio Crespo, analista político do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas.
As autoridades mexicanas enviaram 17 fragmentos ósseos em novembro passado para um laboratório em Innsbruck, na Áustria, com os quais foi identificado apenas um dos 43 estudantes desaparecidos e um de maneira parcial.
Na sexta-feira, a procuradoria informou que está analisando cerca de 60.000 restos ósseos para enviar novas amostras ao laboratório austríaco.
O desempenho das autoridades mexicanas neste caso foi muito criticado por organismos internacionais e ONGs estrangeiras, levando a pique a imagem de Peña Nieto.
Até o final do mandato presidencial em 2018, o caso Ayotzinapa "vai ficar como uma marca negativa do governo, como foi (a chacina dos estudantes em) 68 para o governo
Neste sábado, Peña Nieto vai a Nova York assistir à assembleia geral das Nações Unidas, uma viagem que gerou polêmica, já que meses atrás o chefe de Estado evitou suspender outras viagens ao exterior em um momento de alta sensibilidade pelo crime.
