Colômbia e Venezuela abordaram nesta quarta-feira, em Cartagena, a crise provocada pela deportação de cerca de mil cidadãos colombianos, enquanto na fronteiriça cidade de Cúcuta, albergues estavam superlotados e os expulsos protegiam cuidadosamente seus pertences, resgatados de suas casas do outro lado da fronteira.
Ao lado da cachorrinha prenhe, a colombiana Olinda Prado era uma das que cuidava dos poucos pertences que pôde levar consigo ao cruzar o rio Táchira - fronteira natural entre os dois países - depois de ser expulsa da Venezuela, onde vivia há dez anos.
"Realmente não temos aonde levar a mudança (...) Ontem à noite choveu e todos os colchões ficaram molhados", contou Prado à AFP a respeito de seus poucos bens, enquanto aguardava que caminhões do exército ou a polícia colombiana a ajudassem a levá-los.
Prado faz parte dos mais de mil colombianos deportados pelo governo de Nicolás Maduro, depois de ter decretado na sexta-feira estado de exceção por 60 dias em várias áreas do estado de Táchira, vizinhas à Colômbia.
A medida, que inclui o fechamento de passagens de fronteira, foi tomada após um ataque, há uma semana, no qual três militares e um civil venezuelanos ficaram feridos na cidade de San Antonio de Táchira, diante da colombiana Cúcuta, durante uma operação de combate ao contrabando.
O fato, que Maduro atribuiu a "paramilitares colombianos", motivou a deportação em massa dos colombianos, que supostamente viviam irregularmente na Venezuela e que, segundo o último boletim oficial, chegavam a 1.088 pessoas, entre elas 244 crianças.
Para dialogar sobre a crítica situação humanitária provocada e sobre o contrabando e a atividade de grupos armados ilegais que castigam a fronteira, estão reunidas na cidade caribenha de Cartagena as chanceleres de Colômbia, Maria Ángela Holguín, e de Venezuela, Delcy Rodríguez.
Uma declaração é aguardada para o final do encontro, no qual a Colômbia apresentaria seu protesto "pela forma como foram maltratados" seus cidadãos, anunciou o próprio presidente Juan Manuel Santos.
Santos na fronteira
O presidente colombiano, que negou em um fórum em Bogotá que os problemas com a Venezuela tenham sido provocados pela Colômbia, como diz Maduro ao afirmar que a escassez que assola seu país é provocada pelo contrabando, visitou nesta tarde Cúcuta, onde os deportados recebiam apoio e ajuda humanitária em vários albergues.
Em um dos abrigos, Luisa Olaya, de 26 anos, contou à AFP, depois de relatar sua história a Santos, que foi tirada junto com a família do bairro Mi Pequeña Bariñas por militares venezuelanos às 5 da manhã.
"Derrubaram as casas, foi um susto ver essa gente armada", disse Olaya, declarando ao presidente que não deseja voltar à cidade onde nasceu, Medellin (noroeste), depois de mais de um ano morando na Venezuela com seu marido e seus sogros, todos colombianos.
Olaya, que carregava seu bebê nos braços, era uma das dezenas de mães deste albergue que tinham estampada a preocupação no rosto.
A Defensoria do Povo (estatal) reportou até agora 451 queixas formais de cidadãos colombianos desde o início da crise.
Os afetados denunciam, sobretudo, os maus-tratos da militarizada Guarda Nacional Bolivariana da Venezuela, que os expulsou "com a roupa do corpo", principalmente de comunidades nos arredores de San Antonio de Táchira, depois de marcar suas casas humildes com a letra "D" de deportados.
Apelo da Unasul
Em meio à crise, o secretário-geral da União de Nações Sul-americanas (Unasul), Ernesto Samper, pediu nesta quarta-feira à Venezuela que suspenda de forma "imediata" a onda de deportações de colombianos e ofereceu a mediação deste organismo ante o pedido dos dois governos e assim que acabem as expulsões.
Além disso, o secretário e ex-presidente colombiano (1994-1998) propôs "a criação de um mecanismo institucional para a defesa dos direitos dos deportados", segundo comunicado divulgado em Quito, onde funciona a sede da Unasul.
Antes da difusão deste comunicado, o também ex-presidente César Gaviria (1990-1994) tinha pedido, em Bogotá, a saída da Colômbia da Unasul porque, segundo ele, a entidade está "entregue" ao governo da Venezuela.
Considerado pela ONU o segundo país com maior índice de homicídios do mundo, a Venezuela enfrenta uma crise econômica com alta inflação, desvalorização do bolívar e escassez de dois terços dos produtos básicos, enquanto os preços do petróleo, do qual o país é altamente dependente, desabam.
Colômbia e Venezuela compartilham uma fronteira de 2.219 quilômetros, na qual ambos denunciam a presença de grupos ilegais que lucram com o contrabando de combustível e outros produtos fortemente subsidiados pelo governo da Venezuela.
