Brasília – O presidente Vladimir Putin assinou ontem as leis que sacramentam a integração da Crimeia à Federação Russa, menos de uma semana depois de os eleitores da península ucraniana terem aprovado a mudança, e aproveitou a solenidade para minimizar a importância das sanções impostas ao país pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE). Enquanto a maioria russa na Crimeia assistia por telão e festejava com fogos de artifício, Putin fez ironia com as medidas adotadas contra auxiliares próximos, mas o mercado, em Moscou, dava sinais de inquietação com a perspectiva de dificuldades nas transações financeiras com o exterior. Desde ontem, as operadoras de cartões de crédito Visa e Mastercar cancelaram, sem aviso prévio, o serviço prestado a diversos bancos russos.
Putin chegou a ser sarcástico quando se referiu às restrições impostas a personagens do círculo mais íntimo do Kremlin, que tiveram bens congelados e não terão visto para viajar aos EUA ou à Europa. “Deveríamos nos distanciar deles”, zombou o presidente, em declaração feita para parlamentares e transmitida pela tevê. “Eles nos comprometem”, acrescentou. Para o professor de direito internacional Amos Guiora, da Universidade de Utah, as sanções ocidentais mostram uma “posição impenetrável do presidente russo em relação a Barack Obama e ao Ocidente”. Guiora destaca que Putin “parece desconsiderar Obama”: “Está claro que ele se dispõe a testar os limites do Ocidente”.
Enquanto a anexação da Crimeia se consumava, o primeiro-ministro da Ucrânia, Arseniy Yatseniuk, assinou a parte política do acordo de integração com a UE. O documento abre caminho para que Kiev se torne membro do bloco, mas não garante que a associação seja concluída a curto prazo. O acordo foi rejeitado pelo presidente deposto, Viktor Yanukovich, que em novembro anunciou uma pausa no processo, provocando a onda de protestos que culminou na sua fuga para a Rússia. No início do mês, a UE prometeu a Kiev uma ajuda de 11 bilhões de euros, dos quais 1,6 bilhão poderá ser desbloqueado em breve.
A notícia coincidiu com o alerta do premiê russo, Dmitri Medvedev, que lembrou à Ucrânia uma dívida de US$ 16 bilhões para com Moscou – e disse que o valor não será ignorado. Yatseniuk argumentou que o prejuízo de Kiev com a anexação supera largamente o que é cobrado pela Rússia. Segundo a agência Interfax, o premiê estima que a perda da península custará “centenas de bilhões de dólares” aos cofres públicos ucranianos, por causa das nacionalizações.
Novas instalações militares da Ucrânia foram tomadas por forças russas, deixando soldados e oficiais desnorteados. O porta-voz do Ministério da Defesa ucraniano na Crimeia, Vladislav Seleznev, lamentou a falta de apoio. “Por três semanas, mantivemos a defesa, mas, sem a ajuda da Ucrânia, praticamente todas as bases foram tomadas”. Segundo Seleznev, apesar de o governo ter anunciado o recolhimento de suas forças, não há “nenhuma orientação específica de Kiev para a retirada”.
