Em meio à escalada de violência nos protestos contra o governo, o primeiro-ministro da Ucrânia, Mykola Azarov, disse nesta segunda-feira que as manifestações "se parecem com um golpe de Estado" e acusou a oposição de "utilizar métodos ilegais".
"O que está acontecendo apresenta todos os sinais de um golpe de Estado. É muito sério", disse Azarov.
"Os políticos que se uniram a estas ações radicalizaram a situação (...) que ficou incontrolável", acrescentou Azarov durante um encontro com os embaixadores europeus em Kiev.
"Métodos ilegais estão sendo utilizados. Eles enviam pessoas para invadir os prédios do governo", acrescentou o premier, citado pelas agências de notícias ucranianas.
As manifestações da oposição (pró-europeia) ao governo eclodiram depois da recusa do presidente Viktor Yanukovich em assinar um acordo de associação comercial do país com a União Europeia (UE).
"Sabemos que há um plano sendo preparado para invadir o Parlamento", disse ele aos diplomatas presentes, sem dar maiores explicações.
"Eu digo aos embaixadores: Façam todo o possível para pedir que os opositores não recorram à violência contra os representantes das forças de ordem, desistam dos ultimatos e sentem-se à mesa de negociações", continuou.
Reagindo a essas declarações, o governo americano descartou nesta segunda que o movimento opositor seja um golpe de Estado e classificou de "inaceitável" a repressão policial aos protestos.
"Desde já, não consideramos que manifestações pacíficas sejam um golpe de Estado", disse o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.
No domingo, os manifestantes ocuparam a Prefeitura de Kiev e a Casa dos Sindicatos, outro edifício oficial no centro da cidade.
Os confrontos com a polícia deixaram vários feridos durante um protesto que teve a participação de mais de 100.000 pessoas.
Os opositores, pró-europeus, bloquearam os acessos à sede do governo, com a intenção de obrigá-lo a sair do poder.
As atuais mobilizações são as maiores desde a Revolução Laranja de 2004, que derrubou o governo e levou políticos pró-ocidentais ao poder.
O presidente russo, Vladimir Putin, declarou em Erevan, capital da Armênia, que as manifestações contra o governo na Ucrânia se parecem mais com "um progrom do que com uma revolução", referindo-se ao termo histórico usado para descrever atos de violência em massa contra judeus.
"Isso não tem muito a ver com as relações da Ucrânia com a União Europeia", acrescentou.
"Estas ações vieram de fora. Nós vemos como grupos bem organizados estão envolvidos", afirmou. "É uma tentativa de desestabilizar o governo legítimo", prosseguiu Putin.
O presidente russo considerou que as manifestações estão ligadas a disputas políticas internas na Ucrânia, e considerou que se trata de "um mau começo" para a eleição presidencial de 2015.
Em um gesto de conciliação, o presidente do Parlamento, Volodymyr Rybak, disse que na terça incluirá na agenda a possível moção de censura ao governo, como quer a oposição.
"Vou submeter esta questão à Rada", afirmou Rybak, que é próximo ao presidente Yanukovich, após se reunir com líderes opositores. Apesar disso, ele deu a entender que o Partido das Regiões, ao qual pertence, não apoia essa iniciativa.
Já Yanukovich reconheceu em uma entrevista concedida à televisão que as forças de ordem "foram longe demais" ao usar a força contra os manifestantes. "Isso não é justificável. Mas, entendemos que foram provocadas", ressaltou.
Em outra tentativa de acalmar a situação, o chefe da Polícia de Kiev foi destituído de suas funções nesta segunda.
Além disso, Yanukovich tomou a iniciativa de ligar para o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, para prometer que vai ser realizada "uma investigação sobre o uso da força por parte da polícia".
Também deu a entender que a integração com a Europa continua sendo estudada, e pediu a Barroso que receba uma delegação de seu país para discutir "alguns aspectos da associação" que Kiev se negou a assinar na semana passada.
Em Vilnius, as autoridades lituanas, que exercem a Presidência semestral da UE, convocaram o embaixador ucraniano para pedir que a repressão aos protestos seja investigada.
Em um comunicado divulgado em Nova York, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu calma aos ucranianos, e fez um apelo para que o governo respeite a liberdade de expressão dos manifestantes.
Em várias regiões do oeste nacionalista e pró-ocidental foram feitas convocações por uma greve geral.
Em Kiev cerca de 10.000 pessoas ainda protestavam na Praça da Independência.
Entre os líderes do movimento está Vitali Klitschko, líder do partido Udar (Golpe), campeão mundial de boxe da categoria super-pesados - chamado "Sr. Punhos de Aço" -, que prometeu nocautear o poder atual.
Yanukovich quer aumentar o apoio que recebe da Rússia e vai a Moscou depois de uma visita à China nesta semana, em uma viagem "de cooperação".
