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Estado de Minas

Paquistaneses veem Malala como símbolo de coragem

Extremistas islâmicos impõem política machista e repressora no país


postado em 13/10/2013 00:12 / atualizado em 13/10/2013 09:19

Rodrigo Craveiro

 

(foto: TOPSHOTS/AFP PHOTO/Mandel NGAN )
(foto: TOPSHOTS/AFP PHOTO/Mandel NGAN )

Brasília – Distrito de Swat, província de Khyber-Pakhtunkhwa, noroeste do Paquistão. Em 2010, cerca de mil escolas fecharam as portas e 120 mil garotas tiveram que abandonar a sala de aula. Entre 2001 e 2009, 401 instituições de ensino foram destruídas pelos milicianos do Talibã. Em uma das regiões mais perigosas do mundo para as mulheres, a força de uma jovem estudante desafia a tirania e o fanatismo cego de um islã deturpado nas madrassas (escolas do Corão) mais radicais. Aos 16 anos, Malala Yousafzai – a paquistanesa baleada na cabeça por um extremista talibã ao retornar da escola – tornou-se celebridade mundial e esteve perto de ganhar o Prêmio Nobel da Paz, anteontem. Ativistas paquistaneses afirmaram ao Estado de Minas que a adolescente representa um símbolo de esperança num país onde muitas mulheres são reféns de uma sociedade patriarcal dominadora e de uma mistura de tradições locais com dogmas islâmicos.

“Malala é uma missão, uma ideologia, um símbolo de bravura. Ela pode se tornar a voz pelos direitos humanos em todo o mundo. Por meio da janela da educação, Malala vai fortalecer o movimento em defesa das garotas”, admite Gulalai Ismail, fundadora da ONG Aware Girls, que luta para estabelecer uma plataforma de liderança entre as meninas de Khyber-Pakhtunkhwa. Ela acusa o Talibã de proibir a educação feminina e de restringir a mobilidade das mulheres. “Elas não têm permissão de ter um emprego, e muitas famílias são forçadas a casar as adolescentes o mais rápido possível”, comenta. De acordo com Gulalai, o Talibã reconhece que a educação leva a uma maior influência das mulheres, as capacita a pensar como seres humanos e a seguir uma carreira. “Os talibãs querem que sejamos propriedades dos homens. Acham que nosso empoderamento é a destruição da sociedade. Têm medo de mulheres iluminadas e corajosas”, acrescenta.

Moradora de Karachi, a estudante de arquitetura e ativista Andaleeb Rizvi reconhece que Malala foi uma das mais jovens a levantar-se em defesa dos direitos femininos. Mas alerta que muito precisa ser feito para que o Paquistão se torne um país seguro para as mulheres. “Nas áreas rurais, há costumes arcaicos, como o karo-kari, em que a mulher que escolhe o homem para se casar é morta; e o swara/vani, no qual uma criança é oferecida em casamento como compensação por seu feudo sanguíneo”, explica. Por sua vez, Syed Mahmood Kazmi, voluntário da campanha “Um mundo seguro para as mulheres”, enumera histórias devastadoras envolvendo o Talibã. “São ataques com ácidos, estupros cometidos por gangues e crimes de honra. Há casos de bebês do sexo feminino lançados em rios e mulheres enterradas vivas”, diz o ativista, baseado na Caxemira paquistanesa. Kazmi lembra que os talibãs pretendem influenciar o país com a agenda de ódio. “Em Khyber-Pakhtunkhwa e no Território Federal das Áreas Tribas (Fata), os extremistas impedem as mulheres de sair ou de participar de atividades rotineiras.”

Ainda segundo Kazmi, o Talibã costuma ameaçar pais para que impeçam as filhas de estudar, bombardeiam escolas para meninas e sequestram professores. “Os milicianos acham que, se as mulheres forem educadas, exigirão seus direitos. Gerações inteiras serão orientadas a se opor aos princípios dos talibãs”, diz o voluntário. Professor da Universidade do Punjab, em Lahore, Hasan Askari-Rizvi crê que Malala, de etnia pashtun, represente um desafio ao movimento fundamentalista. “Ela é símbolo de coragem e se tornou modelo para garotas que insistem em receber educação. O Talibã segue uma interpretação estrita do islã, associada a velhas tradições tribais, que restringe o papel das mulheres. Em uma sociedade dominada pelos homens, os direitos delas são violados em áreas rurais, onde a cultura tradicional é forte. Às vezes, o Estado é incapaz de protegê-las”, observa Askari-Rizvi.

Para Hera Hussain, fundadora do site Chayn.org, o que Malala conquistou até o momento é algo sem precedentes. “No Paquistão, as ativistas estão mais distantes das posições influentes na sociedade. Isso foi transformado por Mukhtara Mai, a moradora de um vilarejo que foi estuprada, depois de um julgamento tribal, como pena por um crime cometido pelo irmão caçula”, lembra. “Agora, Malala redefiniu o que uma garota paquistanesa pode alcançar. Alunas de cidades e de vilarejos se inspiram nela, enquanto meninos as consultam. Ela tem mostrado grande coragem face à enorme adversidade”, admite a ativista, que hoje mora em Londres.


Os extremistas têm medo de livros e de canetas. O poder da educação os assusta. Eles têm medo das mulheres. O poder da voz das mulheres os apavora - Malala Yousafzai, estudante paquistanesa


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