Brasília – Há quase um ano no poder, o presidente do Egito, Mohamed Morsi, iniciou ontem uma visita de dois dias ao Brasil – a primeira de um chefe de Estado egípcio à América Latina. Eleito como fruto da Primavera Árabe, que tirou de cena regimes autoritários no Norte da África, Morsi apontou o processo de democratização brasileiro, iniciado nos anos 1980, como um modelo para seu país. "Tenho convicção que no Egito, assim como no Brasil, os ventos da redemocratização vão ser precursores de um projeto econômico renovado", retribuiu a presidente Dilma Rousseff que assinou com o colega uma série de acordos de cooperação. Os dois governantes mostraram sintonia em assuntos internacionais, em especial a crise na Síria e a aspiração dos palestinos por um Estado soberano, e defenderam mais diálogo e negociações para buscar a paz no Oriente Médio.
Na declaração conjunta feita à imprensa, Dilma pediu um cessar-fogo imediato para deter o conflito sírio, que se arrasta há mais de dois anos, com saldo de mais de 70 mil mortos. Morsi reafirmou a posição de que a situação não será resolvida enquanto o presidente Bashar al-Assad continuar no poder, mas pediu apoio aos países amigos e aos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas para pôr fim ao banho de sangue. O visitante também agradeceu o apoio do governo brasileiro à independência da Palestina, reiterado ontem por Dilma, que apontou a questão como "chave" para a pacificação do Oriente Médio. Como um dos países mais influentes da região, e um dos dois que assinaram a paz com Israel (ao lado da Jordânia), o Egito tem sido interlocutor frequente nesse conflito. Morsi, ligado à Irmandade Muçulmana, aprofundou o alinhamento com a causa palestina.
APROXIMAÇÃO A decisão de fazer a visita inédita ao Brasil é parte da estratégia do presidente para enfrentar os acentuados problemas econômicos do Egito, como escassez de alimentos, carestia e baixo crescimento. A mídia egípcia chegou a abordar a possibilidade de um dia o país ser aceito no Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países que se destacam entre as nações em desenvolvimento. Em pronunciamento à imprensa, o presidente deixou clara a intenção conquistar novos apoios na América do Sul, o que foi comemorado por Dilma. "O presidente Morsi e eu concordamos que a cooperação sul-sul é estratégica para que se estabeleça, de fato, a multipolaridade no mundo", afirmou. Morsi havia anunciado a intenção de vir ao Brasil por duas vezes e chegou a cancelar uma visita marcada para setembro último, devido à turbulência política no Egito.
O comércio bilateral está em alta na última década, desde que o governo Lula passou a apostar nas relações com a África e o mundo árabe. Entre 2002 e 2012, o total das transações passou de US$ 410 milhões para US$ 2,96 bilhões, de acordo com o Itamaraty. O Egito é o maior mercado consumidor do mundo árabe e o principal importador de produtos brasileiros na África. Em 2010, o país firmou um acordo de livre comércio com o Mercosul, ainda em fase inicial de ratificação. "Acreditamos que há possibilidade de uma cooperação sólida", disse Morsy. O presidente manifestou interesse de receber investimentos brasileiros e pretende avançar com as negociações hoje, em São Paulo, onde se encontra com representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e com integrantes da comunidade egípcia, membros da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Depois de almoçar com Dilma, Morsi assistiu a apresentações sobre programas sociais brasileiros, como o Bolsa Família e outros projetos de combate à pobreza. Antes de embarcar para São Paulo, ele se reuniu por 45 minutos com o ex-presidente Lula, que o convidou para um seminário que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) promoverá em junho, na Etiópia, para discutir a erradicação da fome na África.
