
Aviões israelenses atacaram ontem áreas no interior e ao redor de Damasco. A incursão, a segunda em três dias, sinaliza uma grande intensificação do envolvimento de Israel na guerra civil síria. Meios de comunicação estatais sírios informaram que mísseis israelenses atingiram um centro de pesquisas militar e científico perto da capital e fizeram vítimas. O alvo eram mísseis Fateh-110, que têm sistemas de precisão melhores que aqueles que o Hezbollah tem em seu arsenal. Israel teme que o grupo xiita libanês se aproveite do caos na Síria para tentar levar armas avançadas para o Líbano, entre elas mísseis antiaéreos, que poderiam prejudicar a capacidade de Israel de operar no espaço aéreo do país vizinho, e mísseis avançados Yakhont, que são usados para atacar navios a partir da costa. O governo sírio advertiu ontem que, se Israel continuar seus “atos de agressão”, pode levar a região a “uma guerra ampla”.
Os ataques aéreos ocorrem no momento em que Washington estuda como vai responder às indicações de que o regime sírio pode ter usado armas químicas durante a guerra civil. O presidente Barack Obama descreveu o uso de tais armas como uma “linha vermelha”. O governo avalia as ações que podem ser tomadas, entre elas uma possível ação militar. O Irã, aliado próximo do governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, condenou os ataques, mas não deu indícios de uma resposta mais forte. Israel tem dito que quer ficar fora da guerra na Síria, mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já declarou várias vezes que seu país está preparado para agir militarmente para evitar que armas sofisticadas sigam do vizinho para o Hezbollah ou para outros grupos extremistas que operam na região.
A agência de notícias síria Sana informou que em decorrência das explosões muitas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. O ativista Maath al-Shami, que mora em Damasco, disse que os ataques começaram por volta das 3h. “Damasco tremeu. As explosões foram muito, muito fortes”, relatou, acrescentando que um dos ataques ocorreu perto da Montanha Qasioun, nos arredores da capital síria. Segundo ele, esse ataque teve como alvo posições militares das Guardas Republicanas, que protegem a cidade onde está o presidente Al-Assad. Mohammed Saeed, outro ativista que vive no subúrbio de Douma, perto de Damasco, disse que “as explosões foram tão fortes que a terra tremeu abaixo de nós”. Segundo ele, o cheiro de queimado do ataque aéreo podia ser sentido a quilômetros de distância.
TENSÃO O Ministério de Relações Exteriores da Síria condenou os ataques, afirmando que foram uma “flagrante agressão israelense com o objetivo de dar apoio militar direto a grupos terroristas” que lutam contra o governo. A Síria se refere aos rebeldes que tentam derrubar Assad como “terroristas”. Em cartas enviadas à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao Conselho de Segurança da organização, o ministério informou que os ataques de Israel mataram e feriram várias pessoas e “causaram grande destruição”. O governo sírio afirmou ontem que o ataque israelense torna a situação regional mais perigosa e abre a porta para todas as opções. “A comunidade internacional deve saber que a situação complexa na região se tornou mais perigosa após essa agressão”, disse o ministro da Informação, Omran al-Zohbi. Ontem mesmo, a Síria posicionou baterias de mísseis em direção a Israel.
Embora o governo tente usar os ataques para manchar a imagem dos rebeldes, ligando-os a Israel, eles representam um dilema para o regime de Assad. Se não responder aos ataques, pode parecer fraco e abrir as portas para que tais ações se tornem comuns. Mas uma retaliação militar contra Israel pode trazer o país e seu poderoso Exército para o conflito. Ontem, Israel instalou duas baterias de seu sistema de defesa, conhecido como Domo de Ferro, no Norte do país, região cujo espaço aéreo foi fechado para voos civis por tempo indeterminado.
