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Estado de Minas

Bispos brasileiros não fogem à análise crítica dos rumos da Igreja

"Ou a Igreja Católica muda ou perde todos os fiéis. Ela precisa ser útil à sociedade" - Dom Waldyr Calheiros Novaes, bispo emérito de Barra do Piraí-Volta Redonda, no Rio de Janeiro.l Em 29 de julho fará 90 anos


postado em 03/03/2013 08:29 / atualizado em 03/03/2013 11:06

(foto: Gustavo Moreno/CB/DA Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/DA Press)
A temperatura média em Roma, no mês de outubro, é de 22 graus durante o dia e 12 graus à noite – com chuvas de, no máximo, 90 mm. Na manhã do dia 11 de outubro de 1962, não chovia e nem estava frio quando bispos, padres e leigos reuniram-se para dar início ao Concílio Vaticano II, o mais importante encontro da Igreja Católica desde a reunião de Trento (1545 a 1563). Hoje, há no mundo 5.204 bispos católicos atuantes – 71 dos que participaram do evento estão vivos, segundo levantamento do professor Fernando Altemeyer Júnior, do Departamento de Ciências da Religião da PUC de São Paulo. Nove deles (um se afastou da Igreja) são brasileiros. A reportagem do Estado de Minas conversou com seis. Todos estão na faixa etária dos 90 anos. Ocuparam cargos e papéis importantes ao longo dessas décadas. Uns vivem em abrigos religiosos. Um se escondeu no interior do país e detesta aparecer. Outro mora num apartamento de classe média, num bairro de alto padrão. Há um que é marcado pela cor da pele – marcado pelo orgulho, diga-se.

Todos são dedicados à Igreja Católica e manifestam fortes – ninguém titubeia um segundo sequer – opiniões sobre o que tem ocorrido na instituição depois da renúncia de Bento XVI. Dom Waldir Calheiros, por exemplo, critica postura supostamente apolítica da Igreja. “Toda posição tem sua conotação política – e ela não pode fugir disso”, diz. Dom José Maria Pires, de 94 anos, arcebispo emérito de João Pessoa, diz que a Igreja se afastou do povo. “O papa deveria comprar uma casa numa favela e morar lá”, propõe. Conheça, a seguir, quem são os sobreviventes da geração conciliar Vaticano II, um conjunto de quatro sessões organizadas pelos lendários papas João XXIII e Paulo VI. Joseph Ratzinger, agora papa emérito Bento XVI, nem era bispo. À época participou como perito-auxiliar, mas se destacou como um precoce líder e talentoso intelectual.

Waldyr Calheiros Novaes marcou a história política de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, embora seja alagoano. Defendeu os oprimidos da ditadura e participou, no Concílio Vaticano II, em Roma, dos debates para a renovação da Igreja. Quando reacende lembranças, nada pode calá-lo. Nem o rangido da cadeira de balanço nem o ronco do caminhão que passa conseguem se sobrepor à voz calma e firme do homem. Depois do descanso da sesta, o bispo emérito de Barra do Piraí e Volta Redonda, municípios no sul do Rio, seleciona as palavras ao recordar acontecimentos dos últimos 50  anos – principalmente do Vaticano II, em que foi decidido, por exemplo, que as missas não seriam mais celebradas em latim e, sim, na língua local.

As mudanças foram positivas, segundo o religioso. A principal delas foi abandonar o modelo hierárquico– aquele no qual o papa manda no bispo, que manda no padre, que manda nos fiéis – para adotar um sistema circular, em que as paróquias são mais independentes. Com o tempo, as transformações foram perdendo força, tanto que até no papado de Bento XVI “não havia muita esperança de que houvesse novidades”. Entretanto, a inesperada renúncia do líder pode ser um pontapé para modificações, diz o bispo. Agora, a expectativa é de que o novo dirigente retome os ideais de comunhão da Igreja e a proximidade com os fiéis, propostos no Concílio.

Em um suspiro longo, ele admite que há muito oque transformar. Acaricia a aliança com Deus no dedo anelar, apoia as costas no encosto de sua cadeira de madeira e diz, em tom categórico: “Ou a Igreja muda ou perde todos os fiéis. Ela precisa ser útil à sociedade”. A preocupação tem fundamento. O Brasil ainda é o país com mais católicos no mundo, com 123 milhões em uma população de 200 milhões. Entretanto, o último censo mostra que eles podem deixar de ser maioria em breve. Em 10 anos, o percentual caiu de 74% para 64,6%. Um em cada quatro abandonaram a religião da década de 1970 até 2010.

Dom Waldyr justifica a declaração no desejo de que o catolicismo se atente mais às dores e sofrimentos do povo e diz acreditar que em muitos lugares as paróquias ainda não são tão comprometidas com a comunidade. As pessoas se afastaram da igreja nos últimos anos, segundo dom Waldyr, porque os religiosos e os próprios pais batizavam as crianças e não cuidavam de evangelizá-las para que se firmassem na religião. “Tentou-se por meio da primeira comunhão ainda prender a criança… Mas daí para frente o adolescente começa um mundo novo que a igreja não disse nada a ele”, diz.

E mais: atento a essas transformações do mundo, dom Waldyr também critica o fato de algumas paróquias só batizarem os pequenos se os pais forem casados. “Isso é do século passado”, ironiza. Há, ainda, mais revoltas reprimidas na opinião do bispo. A cobrança de taxas por sacramentos, por exemplo, como matrimônio e batizado, é injusta. “Eu meto o pau nisso. Sabe por quê? E os pobres que não podem pagar? É uma desigualdade que a gente não pode aceitar com tranquilidade.” Pelo período em que foi vigário na Igreja de São Francisco Xavier, na Tijuca, tirou a cobrança de todas as celebrações.

REFLEXOS DO PASSADO
Dom Waldyr ficou conhecido no período da ditadura como um dos “bispos vermelhos”. A conotação da cor, dada pelo governo à época, faz referência ao comunismo. Ao tocar nesse assunto, ele ri e balança a cabeça com a enxurrada de lembranças que o sobressaltam. “Naquela época era normal acusar de comunista quem defendia as pessoas”, justifica. E foi o que ele mais fez. Ganhou o apelido porque acolhia os maltratados ou perseguidos pelo sistema opressor e, inclusive, ajudava-os a fugir para o Paraguai e o Uruguai. Revoltado com outrora, lamenta: “Assistimos a uma carnificina: de jogar gente dentro do Rio Paraíba, desaparecer pessoas… ”.

Ameaças? Sim. Dom Waldyr sabia que estava sendo perseguido. “O medo é difícil de me pegar, sabe?”, diz, sério. Ele quer que sua missão permaneça mesmo quando não for mais o bispo da diocese, exige que todos os fracos sejam defendidos, como um mandamento do evangelho, e que qualquer perseguido politicamente que procure a Igreja deva ser acolhido. Mesmo que para isso tenha que defender a mais polêmica das suas opiniões: a legitimidade da luta armada em casos de defesa de humilhados. “Quando existe uma opressão grande e imposta pela força, esses oprimidos podem se levantar para se livrar disso. Com armas? "Tem que ser. Nessas situações, é legítimo.”

No Centro de Volta Redonda há um monumento desenhado por Oscar Niemeyer que faz parte da história de dom Waldyr Calheiros. O concreto lembra a morte de três operários, em 9 de julho de 1988, durante uma greve na Companhia Siderúrgica Nacional. Os trabalhadores, que reivindicavam reajuste salarial, foram agredidos pelo Exército e pela Polícia Militar. Resultado: três mortes. O velório foi seguido por uma multidão revoltada e o bispo tomou o microfone para dizer palavras de conforto em cima de um caminhão, enquanto ministrava o rito religioso. O monumento foi bombardeado em seguida por desconhecidos e o estrago da dinamite ainda está lá, 20 anos depois. Ao rever as fotos desse dia, dom Waldyr silencia. Depois, resmunga. "É... foi uma coisa louca.” Os dedos percorrem a fotografia na tentativa de reconhecer algumas pessoas perto dele na imagem. Aponta para o caixão: “Aqui foi o Barroso”, diz, com intimidade. “A família me disse que ele criava em casa um sabiá e todo dia falava com o animal ao ir e voltar do trabalho. Na manhã seguinte à morte dele, o sabiá também morreu. Como é que até os passarinhos entendem, não é?”, intriga-se.


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