
O primeira alto funcionário do governo de Barack Obama a falar abertamente sobre o uso de drones (aviões não tripulados), John Brennan, indicado para dirigir a CIA (agência de inteligência), foi ontem novamente porta-voz da controversa política de contraterrorismo, raramente tratada em público. O conselheiro para assuntos de segurança nacional, considerado o arquiteto do programa de drones na administração democrata, precisou dar exaustivas explicações sobre o tema em uma tumultuada sabatina na Comissão de Inteligência do Senado. O assuntou virou foco das críticas de congressistas governistas e de oposição depois que um memorando secreto do Departamento de Justiça, vazado à imprensa, dava cobertura legal ao uso das aeronaves contra suspeitos de terrorismo, mesmo que sejam cidadãos americanos.
Brennan foi cobrado sobre ataques feitos com drones e defendeu a prática em caso de alvos ligados a redes terroristas, mas fez questão de ressaltar que a orientação preferencial é de que os suspeitos sejam detidos, e não mortos. Ele se comprometeu a fornecer documentos e informações sobre o programa à comissão. Na noite de quarta-feira, Obama tinha comunicado aos senadores que fornecerá a eles "documentos secretos" sobre o programa, algo que o governo tem sido relutante em fazer.
Funcionário de carreira da CIA há 25 anos e fluente em árabe, o atual conselheiro, de 57 anos, destacou-se como especialista em Oriente Médio e terrorismo. Na sabatina de ontem, Brennan precisou também responder várias questões sobre técnicas de interrogatório usadas no passado, mas hoje banidas como prática de tortura – por exemplo, o afogamento. Desde que o presidente o indicou para dirigir a CIA, Brennan tem sido cobrado sobre o tema. Ele chegou a escrever uma carta a Obama dizendo que se opôs a várias políticas da administração George W. Bush, entre elas a tortura de detentos.
DIVULGAÇÃO Como o Partido Democrata (governista) tem maioria no Senado, a indicação deve ser aprovada, apesar das últimas controvérsias. Como explicou o diretor político da organização americana Just Foreign Policy, Robert Naiman, as críticas ao programa de drones são sérias, mas não há indicações de que isso mudará, em geral, a política de contraterrorismo do governo Obama. "O que estamos mais propensos a ver, a curto prazo, é a administração divulgando mais informações", afirmou Naiman, cuja organização trabalha pela reforma da política externa dos EUA. O uso de aviões não tripulados não costuma ser tratado abertamente pelo governo, mas a divulgação do memorando e a informação de que os EUA estariam usando uma base de lançamento na Arábia Saudita obrigaram Washington a falar sobre o assunto.
Na avaliação de Max Abrahms, especialista em terrorismo e segurança internacional da Johns Hopkins University, a associação com os drones pode na verdade ajudar a confirmação de Brennan na CIA, ao invés de representar um obstáculo. "Historicamente, as posições democratas sobre segurança nacional são criticadas por serem consideradas muito brandas. O fato de Brennan ser tão fortemente associado com o programa de drones o distanciará desse tipo de objeção."
