Renata Tranches
Brasília – O tiroteio na Escola Primária, em que 20 crianças foram assassinadas, completa hoje 15 dias consolidando-se como um marco nas discussões sobre o delicado tema do direito de portar armas nos Estados Unidos. Duas pesquisas mostraram nessa quinta-feira um aumento entre aqueles que passaram a apoiar medidas mais duras contra essa prerrogativa. Em todo o país, o debate está cada vez mais explosivo. Veículos de comunicação protagonizaram diversas polêmicas envolvendo o tema.
A consulta do jornal USA Today e do Instituto Gallup mostrou que a maioria dos americanos – 58% – é a favor de leis mais restritivas sobre a venda de armas. O número representa um salto em relação a outubro de 2011, quando apenas 43% apoiavam a ideia. Especificamente, a maior parte dos entrevistados disse apoiar as duas propostas do presidente Barack Obama: a proibição dos carregadores de grande capacidade (62%) e a verificação dos registros criminais na entrada de lojas de armas (92%).
A proibição de fuzis de assalto, também defendida pelo presidente, não teve o mesmo apoio: 44% se disseram favoráveis contra 51% se opuseram. Esse tipo de armamento foi vetado nos EUA entre 1994 e 2004, quando a lei expirou e não foi renovada. Obama disse apoiar a proposta da senadora democrata Dianne Feinstein para retomar a proibição.
O massacre de Newtown provocou uma reação sem precedentes na opinião pública e na imprensa americana e pode ser considerado um divisor de águas sobre o tema, como opinou o especialista britânico Conor Foley, da Human Rights Law Centre, ligado à Universidade de Nottingham. Para ele, é preciso considerar o momento histórico vivido pelos EUA, com o segundo mandato de Obama e o isolamento dos republicanos e do poderoso lobby das armas, liderado pela Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês). "As pessoas que apoiam maior controle de armamento têm mais coragem neste momento", afirmou em entrevista.
DEPORTAÇÃO
Defensores do porte de armas nos EUA se dizem respaldados pela Segunda Emenda da Constituição. Mas desde que o jovem Adam Lanza matou a própria mãe com armas registradas no nome dela, invadiu uma escola e assassinou 20 crianças de 6 e 7 anos, além de seis de seus professores, o assunto tem permanecido no centro de recorrentes polêmicas. O âncora britânico da rede de tevê americana CNN Piers Morgan viu passar de 84 mil o número de pessoas a apoiarem um abaixo-assinado on-line pedindo sua deportação. Morgan criticou um convidado pró-armas em seu programa e chegou a chamá-lo de "idiota". A polícia de Nova York cobrou explicações de outro canal, o NBC, depois que o apresentador David Gregory exibiu um pente de munição descarregado no programa Meet the press, algo proibido por lei.
Ao mesmo tempo, o Journal News of White Plains, também de Nova York, precisou lidar com a fúria de proprietários de armas registradas que tiveram seus nomes e endereços divulgados pelo jornal. O texto, com o título "Meu vizinho, o portador de armas", foi publicado no início da semana com 33 mil nomes de moradores de Westchester e de Rockland, no estado de Nova York. A decisão provocou um grande debate nas redes sociais sobre a violação da privacidade. O jornal, por sua vez, argumentou ter obtido os dados de forma legal, com base na lei de liberdade de informação, e que seus leitores tinham o direito de saber se os vizinhos possuem armas.
