Caracas – O chefe da Assembleia da Venezuela, Diosdado Cabello, disse ontem que poderia ser adiada a posse do presidente Hugo Chávez, de 58 anos, que está em Cuba se recuperando de uma cirurgia complexa de câncer, porque a vontade do povo é mais importante do que uma data especificada na Constituição. Chávez está há mais de uma semana no hospital, após uma cirurgia, e contraiu uma infecção respiratória que já foi controlada, segundo o governo. Cabello disse que a data de 10 de janeiro, que de acordo com a Constituição é o dia em que Chávez deve assumir um novo mandato de seis anos, “não está escrita em pedra”, e “o que vale é a vontade de 8 milhões de pessoas”. Ele, contudo, afirmou que caberia ao Supremo Tribunal de Justiça fazer esclarecimentos.
Chávez está há 14 anos à frente do poder na potência petrolífera e, nesse período, conduziu o país a um modelo socialista montado quase exclusivamente sobre sua enorme popularidade. Em 2011, ele foi diagnosticado com câncer na região pélvica e desde então tem estado dentro e fora da arena pública. Cabello disse que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) ainda não fez um pedido de adiamento do dia da posse, na esperança de ver Chávez voltar ao país logo. O presidente, antes de ir a Cuba para a quarta cirurgia, entregou as rédeas do governo ao seu vice, Nicolás Maduro.
A Constituição venezuelana, alterada em 2009 para permitir a reeleição contínua do presidente e governadores, assegura que se um candidato eleito não puder assumir novas eleições devem ser realizadas em um prazo de 30 dias. Mas também determina que “se por qualquer motivo ocorrido o presidente da República não puder tomar posse perante a Assembleia Nacional, o fará perante o Supremo Tribunal de Justiça”, o que de acordo com alguns juristas permitiria que Chávez fizesse o juramento na Embaixada da Venezuela em Havana, na presença de juízes.
INÓCUO José Rafael Marquina, médico venezuelano, garante ter informações privilegiadas sobre o prontuário de Hugo Chávez. Segundo ele, além da infecção respiratória, o presidente vem apresentando febre desde a cirurgia. “Inicialmente, imaginava-se que o foco da infecção era o enxerto na coluna – os médicos colocaram vários parafusos nessa área. Até o último sábado, ele também estava respirando por aparelhos. Os cirurgiões lhe removeram o tubo da traqueia. Muito provavelmente a infecção foi causada por alguns fatores: o sistema imunológico de Chávez está bastante comprometido pelo câncer ou pelos altíssimos níveis de medicamentos e ele esteve entubado por quatro dias. Esse tipo de infecção é mais difícil de tratar, porque adquire resistência e requer mais antibióticos.”
Marquina assegura que existem 50% de probabilidade de Chávez se recuperar da cirurgia. Mas a expectativa de sobrevida ao câncer, a partir de agora, é de cerca de três meses. “Tanto a quimioterapia quanto a radioterapia falharam. Ele já fez quatro cirurgias, que tampouco funcionaram. As condições de saúde dele continuarão piorando. Não existe nenhum tipo de reversibilidade. O tumor de Chávez começou no músculo psoa, na altura da pélvis. Já tem invasão no fígado, na glândula suprarrenal e na coluna lombar.” O médico garante que todos os tratamentos a que o presidente se submeteu, em Cuba, foram totalmente inócuos. “Chávez foi operado e recebeu quimioterapia e radioterapia em abril passado. Três meses depois, houve a recorrência do câncer, muito mais agressivo. Em qualquer outro hospital, como o Sírio-Libanês, em São Paulo, ele teria um tratamento muito melhor. Cuba não tem experiência para manejar esse tipo de doença.”
