As forças do presidente marfiniano reconhecido pela comunidade internacional, Alassane Ouattara, fracassaram, nesta quarta-feira, em Abidjan, na tentativa de se apoderar do bunker onde está entrincheirado o chefe de Estado Laurent Gbagbo. Ao mesmo tempo, este, aferra-se ao poder, recusando-se a não se render, apesar do desmoronamento de seu governo. Quando o ataque começou, no alvorecer, o otimismo estava presente: "vamos tirar Laurent Gbagbo de sua toca e colocá-lo à disposição do presidente da República", havia anunciado à AFP Sidiki Konaté, porta-voz de Guillaume Soro, primeiro-ministro de Ouattara.
Mas às 12h (locais e GMT), tiros de armas pesadas cessaram perto do palácio e da residência, mergulhando o local e os bairros próximos numa calma incomum. No final da tarde, um morador contava que os combatentes pró-Ouattara tiveram que recuar diante da residência. "Houve uma pausa nos combates", disse ele. "As Forças republicanas (pró-Ouattara) chegaram a 150 metros do portão mas não entraram", disse ele. Foram obrigadas a "recuar", acrescentou. O ataque acontece no dia seguinte a intensas mas infrutíferas negociações, durante as quais Gbagbo recusou-se a se demitir, apesar das pressões. Nos últimos dias, a televisão de Ouattara divulgava extratos do filme "A Queda", as últimas horas de Hitler, antes de seu suicídio num bunker de Berlim, cercado pelas tropas soviéticas. "Mas eu não sou um camicaze, gosto da vida", afirmou Gbagbo na terça-feira a um jornalista francês. "Minha voz não é uma voz de mártir, não procuro a morte; mas quando ela chega, chega". Ouattara pediu várias vezes a suas tropas garantir "a integridade física" de seu rival. O assalto lançado pelos combatentes pró-Ouattara "é uma tentativa de assassinato do presidente Gbagbo", considerou o porta-voz de seu governo, Ahoua Don Mello, acusando a força francesa Licorne de ter fornecido "apoio aéreo e terrestre". "Nem a Onuci nem a força Licorne participam dos combates que acontecem fora do campo da resolução 1975" da ONU, que exige a neutralização das armas pesadas, declarou o chefe da diplomacia francesa Alain Juppé. Em seguida ao fracasso das forças pró-Ouattara, o ministro francês da Defesa, Gérard Longuet, afirmou que Paris não intervirá na Costa do Marfim, mesmo se Ouattara pedir para ajudar a tirar definitivamente Laurent Gbagbo de seu bunker. Se a França recusar ajuda militar a Ouattara, seu rival pode ainda se prevalecer de um apoio: Angola, que possui um dos exércitos mais potentes do continente, e considera Gbagbo o "presidente eleito", segundo o porta-voz do ministério. Nas eleições presidenciais de 28 de novembro, que mergulhou o país francófono mais rico da África do Oeste numa quase guerra civil, Laurent Gbagbo não reconheceu jamais a vitória de Alassane Ouattara, ao final de um processo eleitoral certificado pela ONU. Seu governo desmoronou, os chefes de seu exército pediram o cessar-fogo, os ataques da ONU e da França destruíram grande parte de seu armamemento pesado, militares desertaram, mas ele se recusa obstinadamente a se demitir. Além da residência e do palácio, os últimos partidários de Gbagbo controlam o campo militar de Agban, o mais importante do país, perto do qual foram ouvidas fortes detonações. Em Abidjan, os moradores traumatizados pelos recentes combates permanecem aterrorizados em casa. Em alguns bairros, as ruas quase desertas foram abandonadas a saqueadores, a água e a eletricidade foram cortadas, a compra de alimentos torna-se mais difícil. Em outros, começa a ser observado o início de uma volta à normalidade. Os confrontos em Abidjan fizeram, segundo a ONU, dezenas de mortos e a situação humanitária tornou-se "dramática"; a maior parte dos hospitais não funcionam. No total, 440 cidadãos estrangeiros, entre eles franceses, deixaram Abidjan, e 410 deverão fazê-lo agora à noite, segundo a força francesa Licorne.
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Abidjan: combatentes de Ouattara "tropeçam" no bunker de Gbagbo
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