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Estado de Minas COVID-19

Motoristas de ambulâncias da Fhemig trabalham sem ter sido vacinados

À reportagem do EM, fundação hospitalar de Minas Gerais alega que embora à frente do combate ao vírus, condutores são lotados em setor administrativo


18/03/2021 17:28 - atualizado 19/03/2021 14:01

Antônio Moisés Ávila já recebeu as duas doses da vacina contra a COVID-19, mas não se descuida dos equipamentos de segurança(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )
Antônio Moisés Ávila já recebeu as duas doses da vacina contra a COVID-19, mas não se descuida dos equipamentos de segurança (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )
Expostos dia após dia aos riscos da contaminação pelo coronavírus, no pior momento dos indicadores da pandemia em Minas Gerais, como no Brasil, motoristas de ambulância da Fundação Hospitalar do Estado (Fhemig) trabalham sem ter sido vacinados contra a COVID-19. O desrespeito à prioridade para imunização desses profissionais que atuam na linha de frente do combate à doença respiratória ocorre enquanto se avolumam as denúncias de fura-filas na vacinação, inclusive envolvendo servidores que estariam em regime remoto, no chamado home office. 
 
Com o colapso nos hospitais, onde faltam leitos e há escassez de oxigênio e medicamentos, a rotina desses socorristas do transporte ficou mais difícil e perigosa, como mostra a reportagem do Estado de Minas. À espera de vagas, os pacientes têm permanecido dentro dos veículos de emergência por até 40 minutos.  

A Fhemig confirmou à reportagem do Estado de Minas que 18 condutores de ambulância trabalham sem ter recebido a vacina e culpa o fato de esses profissionais estarem lotados como setor administrativo da fundação. Isso a despeito de atuarem na linha de frente do combate à COVID-19, condição que estabelece a prioridade das campanhas de imunização contra o coronavírus. A fundação afirmou também que são 18 motoristas sem vacina.

“Já foram solicitadas à Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte as doses de vacina para os profissionais que atuam como motoristas das ambulâncias da Fhemig. A imunização contra COVID-19 teve prioridade para aqueles que atuam na linha de frente e esses profissionais são lotados em setor administrativo. Porém, desde o início foi identificada essa necessidade, dada a rotina de trabalho dos motoristas. Aguardamos a resposta da PBH para inclusão no calendário de vacinação”, informou a fundação.
 
Na quinta-feira passada a Assembleia Legislativa  de Minas Gerais criou Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a vacinação de centenas de servidores da Secretaria de Estado da Sáude (SES-MG), denunciados por terem furado a fila, já que não fazem parte dos grupos prioritários da campanha.

O caso levou à queda do ex-secretário Carlos Eduardo Amaral. Agora, outra lista, de 1,8 mil trabalhadores da área no interior de Minas, também levanta suspeita de vacinação irregular e será investigada. Neste último caso, teriam sido vacinadas pessoas que estão trabalhando em casa.  

Responsáveis pelo transporte de pacientes com a doença, muitas vezes em estado grave, os condutores e equpe médica de ambulâncias enfrentam mais perigo em meio ao colapso nos hospitais. A permanência prolongada de doentes com o novo coronavírus (Sars-CoV-2) nos veículos de urgência e emergência devido à escassez de leitos hospitalares e de cilindros de oxigênio expõem cada vez mais os socorristas de transporte de pacientes no estado e na capital, como mostra a reportagem do EM, que ouviu esses profissionais. 

O condutor de ambulância da Fhemig Itamar Antônio Samora, de 63 anos, não tomou nem sequer a primeira dose de imunizante contra o coronavírus. “Não tomei ainda nem uma dose de vacina e transporto todos os dias pacientes com a COVID-19 para a Fhemig do Hospital (de Pronto-Socorro) João XXIII. Hoje (ontem) daqui a pouco vou levar uma paciente para o (Hospital) Eduardo de Menezes”, protesta.

Itamar Samora disse se sentir desprezado, principalmente por saber que parte do pessoal administrativo do governo estadual já foi imunizado e é investigado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no caso dos fura-filas. “Para mim, disseram: (você) vai ter que esperar. Não chegou a nossa vez ainda”, conta. Ele afirma usar capotes, luvas, máscaras e todo equipamento de proteção, mas isso não impede o medo de se contaminar.

“Não me sinto seguro. Tem pacientes graves, geralmente da faixa de 60 ano. Anteontem, carreguei um de 46 anos e a paciente de hoje tem na faixa de 60. Minha família fica preocupada, sabe que está tendo alta contaminação”, desabafa o motorista. 

Thiago Santana Evangelista, de 35 anos, que opera ambulâncias para a Santa Casa de Misericórdia, Hospital das Clínicas, Ipsemg, Hospital Militar e Unimed(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )
Thiago Santana Evangelista, de 35 anos, que opera ambulâncias para a Santa Casa de Misericórdia, Hospital das Clínicas, Ipsemg, Hospital Militar e Unimed (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )

Nervos no lugar

A escassez de vacinas não está apenas na rede pública. “Por enquanto, tomei só a primeira dose. A segunda, está marcada para abril. A gente fica preocupado enquanto isso, transportando cada vez mais doentes e ficando mais com eles dentro da ambulância. Há dificuldade de vagas. A empresa nos dá todo equipamento de proteção individual, nunca faltou nada. Mas a preocupação existe e nos faz ter sempre mais cuidado e foco”, afirma Thiago Santana Evangelista, de 35 anos, que opera ambulâncias para a Santa Casa de Misericórdia, Hospital das Clínicas, Ipsemg, Hospital Militar e  Unimed.
 
Por meio dos relatos das equipes de ambulâncias, a reportagem do EM percorreu as instituições que cuidam de doentes infectados pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) na região hospitalar da capital mineira para verificar o impacto dessa nova fase da doença, que abarrota os hospitais e faz vítimas cada vez mais jovens. Os riscos aos quais essas equipes estão expostas, nem todas completamente vacinadas, demandam atenção e nervos no lugar, já que as vidas dos pacientes estão em suas mãos a caminho dos hospitais. Além dos motoristas, tripulam as ambulâncias, enfermeiros e médicos em caso de pacientes mais graves.
 

Longa espera 

Toda vez em que a ambulância é chamada para atender a um paciente com COVID-19, Thiago leva 10 minutos para preparar todo o aparato de proteção. É preciso colocar a máscara N95, vestir o macacão vedado, capote, usar várias luvas, óculos e face shield (escudo acrílico para o rosto). “Só que tem tido tantos pacientes, que a gente fica cada vez mais tempo com eles dentro da ambulância. Cada minuto a mais, aumenta o risco de exposição e de contaminação. Mas é assim que as coisas estão hoje, porque a gente precisa esperar que seja feita a triagem, que surja uma vaga. Não é culpa dos hospitais. Os leitos estão saturados em BH”, disse Thiago.
 
Com dois pacientes contaminados na ambulância, em fila, atrás de outros três veículos de emergência com mais três doentes, na entrada da Santa Casa de Misericórdia de BH, a situação na terça-feira estava tensa para Antônio Moisés de Ávila, de 43 anos, condutor do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU) de BH. Ele conta que nesta fase da pandemia tem sido frequente esperar até 40 minutos e tentar mais de uma vez vagas em hospitais diferentes por causa da alta demanda por leitos. 
 
“Além disso, o volume de transportes aumentou mais de 50%. Há poucos dias fomos levar um paciente para a UPA Pampulha, mas lá não tinha ponto de oxigênio para ele. Por isso não pudemos retirar o paciente do oxigênio da ambulância. Até a central nos indicar o atendimento mais próximo ficamos com ele mais 40 minutos. O volume está muito grande”, constata o profissional.

Para dar ideia do impacto da COVID-19, apenas entre profissionais de saúde de BH, em 31 de dezembro de 2020 eram 1.639 casos positivos. O número cresceu 32,7%, passando para 2.175 até o dia 16 deste mês, segundo o boletim epidemiológico da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) e no Samu os cuidados têm dado certo, uma vez que o crescimento foi menor, de 21,1%, passando de 123 para 149 no mesmo período.

Antônio Moisés Ávila já recebeu as duas doses da vacina contra a COVID-19, mas não se descuida dos equipamentos de segurança. Ele afirma vestir três luvas descartáveis em cada mão, capote no peito, óculos, touca, uma máscara N95 (que é utilizada dentro de centros cirúrgicos e comprovadamente evitar a penetração de partículas pequenas como vírus) e uma máscara cirúrgica por cima.
 
“Minha família ficou apavorada quando soube que eu trataria de doentes de COVID-19. Tenho duas filhas de 11 e de 18 anos. O que faço, além de tudo, é manter minha atenção o tempo todo. Evito coçar os olhos, a boca, nariz e ouvidos por mais que esteja precisando até que terminemos o atendimento e possamos nos lavar muito bem. Outra pessoa higieniza a ambulância e já começamos mais um atendimento”, conta.

Responsabilidade e drama diário


O isolamento e a incerteza dos doentes de COVID-19 começam quando se abrem as portas das ambulâncias. “Nós somos a primeira e algumas das vezes a única equipe para quem uma filha, um neto ou uma esposa vão confiar o seu doente, antes da cura ou do pior. Isso nos marca todos os dias.
 
São cada vez mais pacientes, mais famílias, mais jovens sem saber quando serão internados e por quanto tempo estarão sozinhos”. O desabafo de Antônio Moisés de Ávila, de 43 anos, condutor de uma ambulância do SAMU de Belo Horizonte, traz em comum a responsabilidade, além dos desafios crescentes das equipes de ambulâncias mineiras diante do agravamento da pandemia da COVID-19, em meio ao estrangulamento progressivo de leitos e até à falta de oxigênio para os pacientes.
 
“Os pacientes ficam sozinhos depois que entram na nossa ambulância. Não podemos levar acompanhantes, porque os doentes ficam em uma ala separada de COVID-19”, conta o condutor do SAMU. Esse primeiro isolamento pode ser a última vez em que o parente vê o doente com vida, como relata Thiago Santana Evangelista, de 35 anos, que opera ambulâncias para a Santa Casa de Misericórdia, hospitais das Clínicas, Militar e Unimed. “As pessoas parecem ainda não terem entendido como a doença é facilmente transmitida e leva embora nossos parentes”, alerta.

Thiago Evangelista conta que há alguns dias a equipe da qual faz parte foi chamada para atender um idoso intubado com suspeita de infecção pelo novo coronavírus. “Os parentes diziam que não sabiam se ele tinha a COVID-19, mas nós já tínhamos quase certeza. Falaram que estavam em uma festa e que ele acabou dormindo no chão. Acharam que pegou friagem e poderia estar com pneumonia. Mas ele caiu e dormiu no chão já por dificuldades respiratórias da infecção”, lembra.
 
Antes de levar o doente, o socorrista se recorda de que a família tentava se organizar para acompanhar o doente, “provavelmente mais alguém ali, que participou da festa deve ter se infectado e passado a doença. O senhor, nenhum deles mais viu com vida. Morreu poucos dias depois de COVID-19, sozinho no hospital”, disse.


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