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Estado de Minas PANDEMIA

Time de infectologistas conta como é a guerra de BH contra a COVID-19

Ouvir a ciência e iniciar o isolamento rapidamente foi a decisão mais acertada de Kalil, avaliam infectologistas que orientam as ações do prefeito


postado em 24/05/2020 04:00 / atualizado em 24/05/2020 09:41

Estevão Urbano, o secretário Jackson Machado, Carlos Starling e Unaí Tupinambás: time experiente em campo para combater o coronavírus em Belo Horizonte (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Estevão Urbano, o secretário Jackson Machado, Carlos Starling e Unaí Tupinambás: time experiente em campo para combater o coronavírus em Belo Horizonte (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
A ciência está no centro do debate sobre qual a melhor maneira de enfrentar o novo coronavírus (Sars-Cov-2) para sair da maior crise sanitária,  de saúde, econômica e política do século. Além da dificuldade de entender e tratar a epidemia, o Brasil ainda enfrenta uma politização sobre quais medidas devem ser tomadas no que se refere ao isolamento social e ao tratamento dos doentes. No meio desse debate, o prefeito Alexandre Kalil se colocou como defensor da ciência e escalou um comitê formado por infectologistas para aconselhá-lo. O comitê conta com a experiência e o conhecimento de infectologistas com mais de 20 anos no exercício da especialidade: Carlos Starling, Estevão Urbano e Unaí Tupinambás. Com a coordenação do secretário municipal de Saúde, Jackson Machado Pinto, o grupo de notáveis se reúne uma vez por semana com o prefeito Alexandre Kalil e o secretariado. No entanto, eles se mantêm 24 horas em contato para propor formas de barrar o avanço do vírus. Um indicativo de que o comitê tem tomado decisões acertadas é que a capital mineira, entre as do Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo), registra menor número de mortes. O Estado de Minas traça o perfil desses três médicos. Em entrevistas concedidas à reportagem antes da decisão de iniciar a flexibilização das atividades na cidade, anunciada na sexta-feira, eles fazem um balanço do que foi feito até agora e o rumo que deve seguido pela capital em seu “novo normal”. Para todos, ouvir a ciência e apostar no isolamento foram essenciais.


entrevista

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Carlos Starling
Infectologista e epidemiologista hospitalar

“A tranquilidade é a forma madura
de se lidar com problema inusitado”

No Dia de São Sebastião – 20 de janeiro –, no ano de 1958, nascia em Belo Horizonte Carlos Ernesto Ferreira Starling. Casado com Joana Andrés, é pai de quatro mulheres: Bárbara, de 34 anos, Maria Eduarda, de 17, Sophia, de 11, e Rafaela, de 6.  Formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Starling decidiu ser infectologista depois que fazer residência em medicina preventiva.

Foi quando se viu diante de um campo importante de atuação da medicina, a epidemiologia. “Desde o segundo período na Faculdade de Medicina atuo na área de infectologia, uma vez que ganhei uma bolsa de iniciação científica do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq, hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para trabalhar com esquistossomose. Trabalhei no grupo interdepartamental de estudos sobre esquistossomose no Instituto de Ciências Biológicas”, recorda-se.

A iniciação científica o guiou por todo o curso e o colocou em contato com infectologistas pesquisadores, mestres e doutores como Dirceu Greco e José Roberto Lambertucci, grandes mestres da Faculdade de Medicina que o influenciaram. “A decisão pela infectologia quase que foi natural na minha vida.” Além de médico, infectologista e especialista em medicina preventiva e epidemiologia, Carlos tem como paixão o ciclismo, a literatura e a culinária. “Com ciclismo, subo as montanhas; com a literatura, eu as acaricio; e, com a culinária, saboreio as nossas Minas Gerais.”


É mais difícil atuar como infectologista em países em desenvolvimento, como o Brasil? Por que sofremos ainda com dengue, malária e outras doenças infecciosas controladas em outros países?

Atuar como infectologista no Brasil é um desafio enorme. Temos grandes endemias – dengue, malária, infecções hospitalares, bactérias multirresistentes. Essa foi área a que me dediquei muito ao longo dos últimos 30 anos. O desafio é motivante. Todas as vezes que temos algo a ser superado, isso gera uma motivação diferente. Trabalhar com o controle de infecções hospitalares, que eu comecei em 1985, foi um enorme desafio. Não existia praticamente nada. Implantamos programa de controle de infecções, que hoje tem legislação própria no país; praticamente, todos os hospitais têm seus núcleos de controle de infecções, comissões e serviços funcionando melhor ou pior, mas, de qualquer forma, foi um desafio. Hoje, olhando para trás, posso dizer que valeu muito a pena. Dá enorme satisfação ver o resultado daquilo que ajudei construir.

Como atua o comitê de especialistas em BH? 

O comitê foi montado pelo prefeito Alexandre Kalil, que nos chamou e foi de uma sinceridade absurda. Pegou a cadeira dele e disse: ‘Agora vocês se sentem aí – eu, mais dois colegas infectologistas e o secretário municipal de Saúde – e me digam o que tenho que fazer. Sou engenheiro, não entendo nada de vírus e, portanto, vocês definem e eu me comprometo a executar o que vocês orientarem.’ O prefeito foi de uma abertura e honestidade muito grandes. O comitê se reúne toda semana oficialmente. Tem o encontro das segundas-feiras,  com o prefeito e o secretariado. Ficamos praticamente 12 horas por dia em contato, trabalhando com os dados, que são postados a cada hora. No WhatsApp, temos um grupo de trabalho que fica o tempo todo analisando as informações que são produzidas pelo corpo técnico da Prefeitura de Belo Horizonte, seja pelo Planejamento, Secretaria da Fazenda e, principalmente, pela Secretaria Municipal de Saúde. Existe corpo técnico muito bom e ativo, que nos municia de informações para que as decisões sejam tomadas de maneira colegiada. O tempo todo estamos ligados nessas informações, avaliando os dados e sugerindo ações de controle, pesquisas que são necessárias, sejam testes amostrais, sejam as barreiras que estão sendo colocadas para evitar que pessoas venham de fora infectadas e não sejam minimamente orientadas. Então,  esse tem sido o maior desafio que estamos enfrentando em nossa vida profissional.

Qual foi a decisão mais acertada do prefeito Alexandre Kalil?

A decisão mais acertada foi o momento de estabelecer regras de isolamento social, de distanciamento social. Então, foram inúmeras as decisões muito acertadas, com firmeza e seguindo exatamente o que temos orientado. Ele tomou várias decisões importantes, mas, certamente, a mais importante foi o início. Foi assumir o isolamento social logo nos primeiros dias, quando percebemos que havia transmissão comunitária sustentada. Esse foi o momento. Se esperar passar uma semana, você perde o momento de ouro de controle da epidemia, exatamente o princípio dela. Depois que ela acelera, com muitos casos, é praticamente impossível conter a situação. Certamente, vai haver momentos muito importantes, em que ele vai ter que tomar decisões sérias, como a questão da flexibilização ou mesmo a não flexibilização. Essas são decisões difíceis. Espero que a população de Belo Horizonte entenda que tudo está sendo feito no sentido de preservar o maior número de vidas, preservar empregos, preservar a capacidade de as instituições atenderem os pacientes. Erros podem ser cometidos. É uma situação inusitada, mas, com certeza, a intenção é acertar mais do que errar.

Pode apontar uma falha no processo de enfrentamento em BH? 

Temos várias falhas. Mas, certamente, a principal não é uma questão nossa. É uma questão de disponibilidade de testes. Poderíamos estar testando, há mais tempo, um número maior de pessoas. Entretanto, esse é um problema internacional. Não é um problema da região de Belo Horizonte. É um problema mundial de disponibilidade de insumos para realização desses testes. Felizmente, agora estão chegando. Vamos começar as pesquisas amostrais na população de BH para poder acompanhar qual tem sido a velocidade de dispersão do vírus na comunidade, seja em casos sintomáticos ou assintomáticos. Isso é importantíssimo para entender a dinâmica da epidemia na cidade.

Qual a sua opinião em relação aos que atacam as medidas de isolamento social?

As pessoas que atacam as medidas de isolamento social não têm outra opção. Se apresentarem medida mais segura que não transforme Belo Horizonte no que estamos vendo no Rio, em São Paulo, em Salvador, em Recife e Fortaleza... Aquele não é o cenário,  tenho certeza de que ninguém quer. Estamos propondo o que a ciência estabeleceu como mais efetivo no controle da epidemia. A prova disso é Belo Horizonte. Isso não significa que não vamos defender o emprego das pessoas. Estamos preocupados. Tem sido feito um plano de flexibilização com muita responsabilidade. É compreensível quem combate o isolamento social. As pessoas ficam apavoradas, numa situação em que muita gente perdeu o emprego, e isso gera angústia grande. O isolamento e a permanência em casa para pessoas que estão confinadas há mais de 50 dias são penosos. Dá uma vontade enorme de voltar à normalidade. Entretanto, isso tem que ser feito com responsabilidade, com cuidado, com base em princípios científicos e não no desespero. O desespero e o caos não ajudam nesse momento. Pelo contrário. A tranquilidade é a forma madura de se lidar com problema inusitado. Permite-nos vislumbrar sucesso em futuro breve.

Quando as atividades poderão ser totalmente retomadas em BH?

As atividades produtivas, segundo a Secretaria de Planejamento, estão em funcionamento em mais de 65% a 70%. A cidade não está parada. A cidade está em funcionamento. Alguns setores, algumas atividades estão restritas, aqueles que geram acúmulo de pessoas em determinados espaços. Por exemplo, atividades em shopping center, cinema, teatro, grandes eventos culturais, shows, futebol, bares. Isso está tudo parado,  onde se concentram pessoas. Não tem como fazer isso neste momento. Foi feito planejamento e, se os dados epidemiológicos, ao longo das próximas semanas, permitirem, faremos o processo de flexibilização (que se inicia amanhã), que chamamos de flexibilização intermitente. Flexibiliza uma série de atividades, observa-se o resultado, se não tiver impacto grande no setor saúde, em mortalidade, prosseguiremos. Se tudo correr bem, vamos flexibilizar,  a cada 14 dias, uma área, podendo haver retrocesso dependendo dos dados epidemiológicos. É importantíssimo que a população entenda que flexibilização é flexível. É flexibilização intermitente, pode ir para frente ou para trás. Não é flexibilização que só tem um sentido. Tudo depende dos dados epidemiológicos. Esse período de isolamento social foi fundamental para o sistema de saúde se equipar, para que as pessoas adquirissem mais experiência na lida com pacientes graves, para que os mecanismos fisiopatológicos da doença fossem descortinados e, com isso, permitir atuação eficiente, principalmente diante de pacientes graves. Esse tempo de isolamento social foi fundamental para o que vem daqui pra frente.

entrevista

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Unaí Tupinambás
infectologista, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG

“Trabalhando nessa união, podemos 
mudar o curso da pandemia na capital”

Quando entrou para a Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí Tupinambás tinha o sonho de trabalhar com os indígenas na Amazônia, no meio da floresta. "As doenças infecciosas me despertaram e me fizeram optar por ser infectologista. Quando me formei, estava começando a pandemia do HIV e fui empurrado pra lá. Os primeiros pacientes na residência tiveram e faleceram com Aids. A partir daí, e specializei-me e não tive dúvida de que seria infectologista", conta.

Unaí, que nasceu em 13 de fevereiro de 1962, em Itaúna, é pai de Júlia, que seguiu os mesmos passos na medicina. O exemplo paterno também foi determinante para que Unaí escolhesse a profissão. “Meu pai era médico em Itaúna e lembro-me de quando ele enfrentou a epidemia de meningite nos anos 1970. No inconsciente, ficou cena dele trabalhando e, ao chegar em casa, um cheiro adocicado de éter. Isso deve ter me influenciado.”

Professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí contribui com a formação de médicos na maior universidade pública do estado. Também se destaca como pesquisador, com inúmeras publicações em revistas científicas. Sonha com um mundo novo que pode se apresentar após a pandemia. “Estou doido para acabar o isolamento e podermos construir um outro normal. Com menos desigualdade, homofobia, racismo, concentração de renda, onde possamos respeitar a natureza e os povos da floresta. E acabar de vez com este neoliberalismo, que começou com  (Margaret) Thatcher e (Ronald) Reagan nos anos 1980... Quem sabe não construamos um novo ciclo, uma nova forma de viver?”

É mais difícil atuar como infectologista em países em desenvolvimento como o Brasil? Por que sofremos ainda com dengue, malária e outras doenças infecciosas controladas em outros países?

No Brasil, tem mais diversidade de infecções. Não temos rotina. Zika, ebola, febre amarela, febre maculosa, chikungunya e agora vem a COVID-19. E lembrando que continuam acometendo as pessoas o HIV, sífilis e tuberculose. Não é nem um pouquinho monótono. Mas os outros países têm as infecções hospitalares. O campo de atuação, de pesquisa especificamente, é muito rico num país como o Brasil, tão desigual. Tem muito campo para pesquisa. Não tem nenhum infectologista que teanha tédio no dia a dia. É sempre uma coisa nova, um desafio a cada verão.

Como atua o comitê de especialistas em BH? 

Composto pelo secretário Jackson, Starling, Estêvão e eu, o comitê é para ajudar na tomada das decisões. Lembro que a Secretaria de Saúde é muito forte. Os técnicos da secretaria são muito comprometidos e competentes. A gente ajuda na tomada de decisões, lemos dados oficiais, atualizamos, a cada dia, os artigos científicos, principalmente em relação à pandemia, como controlar e como mitigar. O comitê atua como apêndice da Secretaria Municipal de Saúde. O SUS de Belo Horizonte é exemplar, um dos melhores SUS de capitais do Brasil. Construído desde a década de 1990, ele está bem estruturado, com equipe bem capacitada, trabalhando junto há muitos anos. Isso facilita muito, inclusive, teve impacto na pandemia. Não é à toa que Kalil teve a ideia de ter esse comitê para mostrar o quão o SUS de Belo Horizonte é potente. É forte. Trabalhando nessa união podemos mudar o curso da pandemia na capital.

Qual foi a decisão mais acertada do prefeito Alexandre Kalil?

A decisão mais acertada de Kalil… Ele estava com ideia de fechar, orientado pela Secretaria Municipal de Saúde, então criou o comitê para ter o respaldo. A ação mais acertada do prefeito Kalil vai ser isso. Ele está se destacando como grande liderança em Minas Gerais. Não temos um líder que possa fazer um consenso, indicar um caminho mais correto. Kalil vem ocupando esse espaço de forma bem interessante, mostrando-se ciente do seu papel. Ele fala o tempo todo que tem sido guiado pela ciência. Recebeu apoio dos professores da UFMG e de outras universidades, com mais de 900 assinaturas, referendando as medidas que ele vem preconizando em Belo Horizonte. A medida acertada dele foi fazer o isolamento social e agora estamos colhendo os frutos.

Pode apontar uma falha no processo de enfrentamento em BH? 

A falha que pode estar ocorrendo em Belo Horizonte não é uma falha da cidade, seria do Ministério da Saúde, de não propor a testagem em massa da população, o exame RT-PCR. Esse erro não é específico da capital. É um erro de gerenciamento do Ministério da Saúde. Não temos testagem em massa para enfrentar essa epidemia. A prefeitura tem tentado correr por fora. Montou um laboratório específico para fazer o RT-PCR, mas dependemos do suporte do Ministério da Saúde. Começamos a fazer o inquérito sorológico da prefeitura para ver como anda a disseminação do vírus em Belo Horizonte.

Qual a sua opinião em relação aos que atacam as medidas de isolamento social?

Infelizmente, estamos em ambiente de tanto esgarçamento, de tanto dissenso, ainda mais incentivado pelo governo federal. São idiotas, usando as palavras do prefeito Kalil. Eles não sabem o que estão fazendo. Estão seguindo o negacionismo, o terraplanismo. São contra a vacina, contra a ciência. Vai ser interessante, porque eles vão dar com os burros n'água. Vão ser desmascarados de forma tão rápida e, de maneira tão categórica, que vão ficar desmoralizados.

Quando as atividades poderão ser totalmente retomadas em BH?

Em relação à flexibilização do isolamento, colocamos três parâmetros para começar. Um dos parâmetros é a taxa de transmissão, R0, que tem que estar abaixo de 1,19; (os outros são) ocupação de leitos de CTIs e enfermarias. Se todos os três parâmetros tiverem um sinal verde ou um amarelo, vamos começar a soltar de forma bem lenta aquelas atividades com menos riscos sanitários e avaliar a cada semana. A flexibilização será em ondas. Se esses parâmetros epidemiológicos piorarem, aumentar o nível de transmissão, a gente volta tudo à estaca zero. Daqui pra frente, vai ser uma gangorra, vai e vem. Libera, entra em quarentena. Libera, entra em quarentena. Talvez vá ser essa a prática nossa nos próximos anos.

entrevista

(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

Estevão Urbano
presidente da Sociedade Mineira de Infectologia

“Precisamos atingir melhor o coração e
a consciência das pessoas na periferia”

Estevão Urbano Silva, de 54 anos, nasceu em Belo Horizonte. Formou-se em medicina em 1989 pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. “Costumo dizer que resolvi fazer infectologia, no jargão do futebol, aos 47 minutos do segundo tempo, ou seja, na prorrogação”, conta. Estevão fazia residência em clínica médica e, no último trimestre na formação em clínica médica, antes de fazer prova para cardiologia, percebeu que seu caminho seria outro. Ele fazia estágio na CTI no Hospital João XXIII, quando passou a observar muitas infecções. “Apaixonei-me por aquilo. Quase no fim da minha residência em clínica médica, tive que deixar a cardiologia, porque me apaixonei pela infectologia. Foi muito bom. É a especialidade que eu amo e me faz sair todo dia de casa”, argumenta.

Como presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), é uma liderança importante entre os médicos e referência na especialidade. Com senso de justiça, doa parte do seu tempo para ampliar o conhecimento no campo que abraçou para atuar profissionalmente. “Ser presidente para mim é uma honra, responsabilidade muito grande. Tenho ajuda muito grande das pessoas que estão lá comigo. Temos grandes infectologistas em Belo Horizonte, que nos apoiam e, exatamente por isso, a responsabilidade é muito grande”, afirma.

Estevão considera um misto de honra e responsabilidade ocupar tal cargo. “Toda a sociedade médica tem papel de assessorar a ciência, e trazê-la para a comunidade, realmente, faz com que seja extremamente prazeroso, mas, ao mesmo tempo, é responsabilidade enorme. Temos o papel de defender a cidadania, defender os cidadãos através da ciência.”


É mais difícil atuar como infectologista em países em desenvolvimento como o Brasil? Por que sofremos ainda com dengue, malária e outras doenças infecciosas controladas em outros países?

Quando há menos recursos, seja para a parte de pesquisa, seja para prevenção e tratamento, no caso da especialidade em que atuo, das infecções, é mais difícil do que é em países desenvolvidos, onde há recursos suficientes para pagar bem as pessoas para fazer pesquisas. Naqueles países, a área de prevenção é mais valorizada, então há menos epidemias. Com certeza é mais difícil (aqui). Abre-se um parêntese que, por outro lado, você, como infectologista, tem tanta prática, vê tantos casos, que, eventualmente, torna-se um médico mais completo. Então, há prós e contras. Infelizmente, esse contra atinge a população, que adoece mais e morre mais. Acredito que o baixo investimento na prevenção das enfermidades e na educação das pessoas é o que faz com que tenhamos mais doenças tropicais, como a dengue, que se tornou endêmica e, a cada ano, volta com força total. Embora os países tropicais quentes também favoreçam essas epidemias, já tivemos várias décadas sem dengue no país, por exemplo.

Como atua o comitê de especialistas em BH? 

O comitê atua em sinergismos. A gente nunca toma decisões isoladas. Discutimos todos os dias, por várias horas, as novidades que são postadas no nosso grupo de WhatsApp, mas temos uma reunião presencial semanal com o prefeito e dois ou três encontros em lives por semana. Fora das reuniões formais, temos contatos praticamente todas as horas. Todas as decisões que temos que tomar são feitas em consenso, depois de muito debate. O material que a gente usa é científico. Exploramos pesquisas em toda a literatura internacional e também através de contato de nossos amigos em outros países, em outros estados, que nos dão informações a partir da experiência. Juntamos tudo isso, levamos para as reuniões e tomamos as decisões. Existem as nossas divergências, mas prevalece, no final, o consenso. E quantas e quantas noites temos passado estudando, pegando artigos e relatos médicos para levar no dia seguinte para discussão. Está sendo muito bacana, acima de tudo temos um relacionamento excelente. Não existe vaidade ou qualquer coisa parecida. É a ciência acima de tudo.

Qual foi a decisão mais acertada do prefeito Alexandre Kalil?

É difícil saber qual a decisão mais acertada do prefeito, mas diria que, se pudesse resumir em uma única, foi a de seguir todas as decisões pelo que fala a ciência. Kalil é uma pessoa humilde nesse aspecto, diz que não entende dessas coisas e deixa as pessoas técnicas, cientistas sugerirem as intervenções. Ele é um sujeito que respeita 100% o que a ciência fala. Essa é a decisão mais correta.

Pode apontar uma falha no processo de enfrentamento em BH? 

A gente está sempre procurando acertar, mas, em tema tão desconhecido, é óbvio que há erros. Vamos continuar errando. A ideia sempre é acertar mais do que errar. Estamos fazendo o possível e o impossível para errar menos. Não diria que seria um erro, porque muitas ações foram feitas. Precisamos infiltrar mais (as informações sobre prevenção) no coração, na alma, na consciência das pessoas em bairros mais periféricos. A gente tem notado que a adesão às medidas, seja de isolamento, seja do uso de máscaras, é menor nas periferias e aglomerados, onde há grande risco de dispersão rápida do vírus. Precisamos saber melhor como tocar mais essas pessoas, embora o trabalho seja constante com os líderes comunitários. Não é que tenha sido um erro, mas precisamos atingir melhor o coração e a consciência dessas pessoas na periferia, onde o risco é maior de uma pandemia, um número maior de casos.

Qual a sua opinião em relação aos que atacam as medidas de isolamento social?

Classifico em vários níveis as pessoas que atacam o distanciamento. Primeiro, são pessoas ignorantes, que não sabem a importância das medidas. Podem ter ouvido falar na televisão, mas olhando para o lado não veem grandes problemas. É o caso de Belo Horizonte, acham que isso é desnecessário. Não conseguem entender, do ponto de vista científico, como esse vírus se distribui e infecta as pessoas, por questões intelectuais, capacidade de absorver os conhecimentos. Segundo, é que às vezes, essas pessoas não têm uma ação cidadã. Não foram educadas para ser cidadãs, então não se preocupam consigo mesmas, mas se esquecem que não é só com elas que deveriam se preocupar. Que o próximo está inserido nesse contexto. Não foram treinadas para exercer a cidadania, não se preocupam consigo e também não se preocupam com o próximo. Terceiro: aquelas pessoas que preferem acreditar que atividade econômica não pode cair. Elas estão com medo de ter sérios problemas financeiros e resolvem ignorar medidas que são salvadoras da vida, em prol do comércio, da atividade econômica. Classificam-se na categoria das pessoas que valorizam menos a vida e mais a questão financeira. São pessoas que costumam ser egocêntricas, egoístas, que não olham o próximo, que procuram olhar para si mesmas e o resto que se exploda, por assim dizer. São pessoas que têm problemas com o conceito de humanidade. Elas entendem como o vírus se propaga, sabem que podem infectar outros, mas preferem manter a atividade econômica a salvar vidas. Óbvio que a gente entende que algumas dessas pessoas não têm de onde tirar dinheiro. Essas a gente pode até classificar de outra forma. Aquelas que têm condições de se sustentar por um tempo e ainda assim não querem perder dinheiro são pessoas completamente desprovidas de responsabilidade social. Um quarto tipo de pessoas são as que politizaram, que defendem posições não pela ciência, não pela vida, posições que, independentemente de serem corretas ou não, são politizadas. Defendem um líder, uma posição política, independentemente se aquela posição é correta ou não. Pessoas nessa categoria são muito egoístas, chegam ao grau do fanatismo, de colocar a ciência de lado, a proteção das pessoas de lado, para defender posições políticas.

Quando as atividades poderão ser retomadas em BH?

Temos indicadores que precisam ser seguidos, que se piorarem inviabilizarão a reabertura, mas, neste momento, ainda estamos em debate, não há uma definição exata de quais setores serão flexibilizados. Todas as atividades que tiverem grandes aglomerações não serão flexibilizadas – eventos, esportes, etc. Outras, como comércio, poderão entrar nessa flexibilização com regras muito rígidas.
 
 

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