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Estado de Minas

Exercício da leveza

Jornalista mineira relata o medo de enfrentar as ruas de Avignon, no Sul da França, com o filho doente e, ao mesmo tempo, a felicidade por ter uma vizinha médica


postado em 29/03/2020 04:00 / atualizado em 29/03/2020 21:21

Especial para o EM 

 

(foto: Marcelo Lelis)
(foto: Marcelo Lelis)
 

Confinados desde o dia 16 em nosso apartamento em Avignon (cidade da região da Provença, no Sul da França), fui obrigada no quinto dia dessa experiência a afrontar uma cidade vazia e o medo de por ela transitar. Sair de casa é se por “face a face” com um inimigo invisível. Tive que levar meu filho de 6 anos ao médico para tratar uma otite. Fosse eu sozinha, iria a pé numa meia hora de caminhada. Mas com ele não se sentindo bem, preferimos pegar o ônibus. Na rua, um ou outro e seus carrinhos de compra. Ao ver duas pessoas no ponto e prevendo um certo movimento no ônibus dado o horário (9h), pus logo as máscaras.

Nesses tempos sombrios, solidariedade também é arma contra o medo. Uma vizinha médica passou nos apartamentos para se certificar da quantidade de moradores, idades, condições de saúde e deixar uma máscara para cada um. Não posso explicar a felicidade de saber que tenho uma vizinha médica que, além de tudo, deixou o número de celular no papel afixado na portaria. Nele, muitos dos que aqui moram escreveram seu telefone, se prontificando a ajudar – seja cuidando do filho de alguém ou fazendo compras para quem não pode. Pois foi com essas máscaras que nos armamos, seguindo orientação médica (iria pegar ônibus, com uma criança doente).

 

"Saí de casa com meu salvo-conduto. A carta a portar é um modelo único expedido pelo governo, a imprimir ou redigir de próprio punho. Nela, pomos nome, endereço e assinalamos um dos cinco motivos de saída permitidos pelo decreto, sob pena de multa de 135 euros diante da falta do papel ou sem justificativa válida. Assina e data %u201Csur l%u2019honneur%u201D, sob a honra %u2013 e por aqui a palavra vale"

Júnia Oliveira

 


Só se entra nos coletivos pela porta do meio, destinada normalmente à saída. Uma fita de isolamento separa a dianteira do restante do ônibus. O ônibus está gratuito. Não há como pagar, uma vez que, mesmo tendo um tíquete, a validação dos bilhetes é feita nas máquinas localizadas ao lado do motorista. Havia poucas pessoas, que evitam ficar próximas umas das outras. Fizemos ainda correspondência com o tramway, igualmente vazio, para um trajeto de menos de 1 quilômetro.

Com medo da demora do transporte público, acabamos por nos adiantar. Na porta do imóvel do consultório, o aviso em letras garrafais: “Espere fora ou dentro do carro. Suba para a sala de espera faltando apenas 1 minuto para a consulta”. Ficamos num pequeno jardim com o sol morno da manhã. Voltei pra casa aliviada, mas nervosa. Cheguei sem paciência, louca para lavar as mãos. Feliz de reencontrar o conforto de casa, pronta para ver a vida parada da janela e pela porta da varanda neste início de primavera tão lúgubre, apesar dos 4 minutos de sol que ganhamos todos os dias. Sim, 7h já não é mais noite e o dia está durando mais.

Como disse há alguns dias o presidente francês, Emmanuel Macron, estamos vivendo uma guerra. E nessa guerra contra um vírus, me coloquei pela primeira vez na vida na pele daqueles que já viveram ou vivem as guerras das quais temos notícia. Saí de casa com meu salvo-conduto. A carta a portar é um modelo único expedido pelo governo, a imprimir ou redigir de próprio punho. Nela, pomos nome, endereço, horário de saída (máximo de 1 hora fora) e assinalamos um dos cinco motivos de saída permitidos pelo decreto, sob pena de multa de 1.500 euros diante da falta do papel ou sem justificativa válida.


Estranho ver o charme de uma Avignon sem o movimento dos carros nos bulevares que contornam suas muralhas centenárias. Estou morando aqui há três meses e, pela primeira, ouço o sino das igrejas igualmente antigas, testemunhas de tantas histórias e, atualmente, guardando seus fiéis a distância. Estranho ver como tudo mudou em tão pouco tempo.

 Há 25 dias, perguntava a uma amiga, subeditora do Estado de Minas, se ela manteria sua viagem para o Reino Unido, marcada para o mês que vem. Na mensagem, eu dizia: “Não é nem pelo coronavírus, que está tranquilo lá. Mas, pela libra que está astronômica”. Pois 25 dias depois, não só o Reino Unido também se fechou como a França vive algo inimaginável. Há 15 dias, escrevi uma matéria neste jornal sobre os mineiros na Europa. Neste momento, achávamos que a Itália, com seu 10 mil casos, estava um caos e a França também com suas 1,7 mil contaminações e 33 mortes. Há duas semana, fiquei apreensiva quando o presidente francês determinou o fechamento das escolas. Hoje, não sabemos o que será da Itália e, como outros países, a França dá sinais de esgotamento com seus mais de 40 mil casos e 2,6mil mortos. Há cerca de 20 dias, o Brasil começava a contabilizar seus primeiros casos e, rapidamente, mostrou um descontrole com a circulação livre do vírus em tão pouco tempo.

Eu me tornei professora dos meus filhos com as aulas por e-mail e plataformas on-line para o 1º período e o 1º ano do ensino fundamental. Não sei o que faria se não dominasse a língua. Tenho que ajudar o mais velho com a gramática, interpretação de textos, literatura, a escrita, soma, subtração, início da multiplicação e geometria. Uma aula completa, equivalente ao período das 8h30 às 16h30. Um conteúdo que tem me deixado “de cabelo em pé”, num nível bem diferente do que somos acostumados no Brasil.

Na rua, um ou outro e seus carrinhos de compra. Ao ver duas pessoas no ponto e prevendo um certo movimento no ônibus dado o horário (9h), pus logo as máscaras.


Decidi levar sem pressão. Não os acordo na hora habitual da escola. É um momento particular e já duro demais. Se dormem até mais tarde, começamos mais tarde, deixando claro que tudo voltará ao normal, inclusive esse tipo de responsabilidade. Estava inquieta com minha postura, mas me tranquilizei depois de ver uma psicopedagoga aqui abordando o tema.

A vida está entre parênteses. Não sabemos mais nada. Nem até quando. Tudo ocorrendo numa velocidade jamais vista nem imaginada. Sorte que nosso prédio tem um pátio e um jardim, o que permite às crianças sair, brincar, tomar um ar em meio a uma variedade de flores e cores, não tem ninguém. Nosso programa preferido tem sido fazer um lanche na mesinha da varanda ou simplesmente observar, sentados, pernas esticadas, a extrema calmaria. É o exercício da leveza. Difícil, mas necessário.

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