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Estado de Minas

Vulneráveis, mas solidários: como a maior favela de MG enfrenta a COVID-19

Lideranças do Aglomerado da Serra, em BH, onde vivem 50 mil pessoas, se desdobram para proteger a saúde da comunidade e ajudar os moradores a superar efeitos da pandemia do coronavírus


postado em 26/03/2020 06:00 / atualizado em 26/03/2020 15:04

Kika e Kdu participaram da organização de uma série de ações para conscientizar a população sobre o coronavírus e buscar doações para os que necessitam de ajuda no aglomerado, onde isolamento é mais difícil (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Kika e Kdu participaram da organização de uma série de ações para conscientizar a população sobre o coronavírus e buscar doações para os que necessitam de ajuda no aglomerado, onde isolamento é mais difícil (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Classificada como a maior favela de Minas Gerais e a terceira maior do Brasil – ficando atrás apenas da Rocinha, do Rio de Janeiro, e da Favela do Sol, no Distrito Federal –, o Aglomerado da Serra abriga cerca de 50 mil moradores. Castigados pela pobreza e carentes de serviços de saúde de qualidade, os moradores dessas áreas estão na lista dos mais vulneráveis à contaminação do novo coronavírus. Por isso, líderes da própria comunidade se reúnem e tomam medidas para conscientizar, ajudar e proteger a população.
 
Esse é o caso de Cristiane Pereira (Kika) e Kdu dos Anjos. Os dois são responsáveis por uma série de ações feitas em conjunto para evitar que a COVID-19 se alastre pelas ruas e becos do Aglomerado da Serra, que fica no limite entre as regiões Centro-Sul e Leste de Belo Horizonte.
 
“As pessoas não entendem, muita gente não quer enxergar, acha que é exagero. Aqui tem casa em que moram 10 pessoas em dois cômodos e não podem parar de trabalhar. E aí, como faz? É complicado, porque a gente precisa de ajuda do poder público, mas o governo não ajuda a gente”, diz Kika, líder da Associação de Moradores.
 
Em meio à pandemia de coronavírus, ela e outras lideranças resolveram contratar um veículo de som para conscientizar a comunidade. Nas mensagens, as máximas que vêm sendo repetidas por autoridades de saúde do mundo inteiro: fiquem em casa, cuidem dos idosos, lavem as mãos e sigam à risca as recomendações das autoridades. Pedidos que ecoam durante todo o dia pelas ruas da favela. “Salve, Serrão, salve, comunidade, muito cuidado com o coronavírus. Ele mata. Então, pega a visão: quarentena não é férias. Vamos ficar em casa.”
 
O Ministério da Saúde recomenda que as pessoas suspeitas de estar infectadas devem se manter isoladas em um cômodo distante dos outros membros da família. No caso dos aglomerados, se a casa tiver apenas um cômodo, a orientação é de que quem tiver sintomas fique a pelo menos um metro de distância dos demais moradores.
 
“A gente está tentando ajudar essas famílias que não têm nem como comer. São pessoas que trabalham como autônomos e com a pandemia não conseguem colocar comida na mesa. É preciso ter um olhar para essa gente. Fico muito aflita, porque não temos muitas respostas”, conta Kika.
 

A líder é também uma das responsáveis pelo grupo Serra Resiste, organização comunitária. Ela conta, que apesar de ter sido criado há um ano para outras reivindicações, o movimento, inicialmente organizado pelo WhatsApp, “tomou força” depois da pandemia da COVID-19. Eles são responsáveis pelo recolhimento de doações e a distribuição de mensagens pelas mídias sociais da campanha de prevenção contra a contaminação pelo coronavírus.

Alta densidade populacional e falta de espaço e ventilação nas casas aumentam os riscos de transmissão do vírus na favela(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Alta densidade populacional e falta de espaço e ventilação nas casas aumentam os riscos de transmissão do vírus na favela (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

 
Kdu dos Anjos, líder do centro cultural Lá da Favelinha, também está lutando contra a proliferação do vírus. O grupo, que originalmente foi criado com a intenção de promover projetos culturais, tomou a frente da conscientização e começou a promover vídeos sobre o assunto. O primeiro foi o Coronga News e teve a participação de vários nomes importantes da comunidade, como o rapper Djonga,  Welleton Carlos, Talmon Lima, Negotinho Rima, o próprio Kdu e a líder comunitária Kika.
 
O grupo está promovendo também aulas de funk e empreendedorismo on-line. “Essa iniciativa é para mantermos nossa sustentabilidade e incentivar as atividades físicas, durante a pandemia de coronavírus”, diz página no Instagram. Kdu enfatiza a importância da conscientização neste momento. “A gente vê os pontos de ônibus cheios. As crianças brincando nas ruas. Eu morro de dó de ter que falar para elas ficarem em casa. É complicado”, conta.

Risco maior


Para além da alta densidade populacional, as condições sanitárias também trazem desafios nas favelas. "Nas comunidades, temos transmissão muito grande de doenças respiratórias, como é o caso da tuberculose. Você tem casas muito fechadas, com pouca ventilação, locais onde não chega a luz do sol, com muitas pessoas morando por cômodo", explica a pneumologista Patrícia Canto. “As medidas podem parecer duras num primeiro momento, mas elas são fundamentais para proteger as pessoas de maior vulnerabilidade", incluindo os idosos, ressalta a especialista. "Isso inclui as pessoas com vulnerabilidade social", acrescenta.

Multidão


No Brasil, aproximadamente 13,6 milhões de pessoas moram em favelas, e destas, 97% mudaram sua rotina por causa do novo coronavírus. É o que mostra a pesquisa feita pelo Data Favela em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) e o Instituto Locomotiva em 20 e 23 de março. Foram entrevistados mais de 1.200 moradores em 262 favelas de todo o Brasil.
 
A pesquisa mostra que sete em cada 10 famílias tiveram a renda reduzida após a pandemia. Isso porque 47% dos moradores vivem como autônomos, e apenas 19% têm carteira assinada. Deste total, dois em três já tiveram o pagamento das contas comprometido. Ainda de acordo com o levantamento, 53% dos moradores têm filhos – média é de 2,7. Segundo os dados, 86% deixaram de ir para a escola. Por isso, os gastos aumentaram 84% entre as famílias entrevistadas. *Estagiária sob supervisão da subeditora Rachel Botelho


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