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Estado de Minas RE-NASCIMENTO

Belo Horizonte expõe presépio de papel com inspiração ecológica

Artista usa mais de 200 quilos de jornal e 320 garrafas PET para recriar a cena sagrada tradicional no Natal. Com figuras de até 1,60m, obra será exibida até 6 de janeiro


postado em 14/11/2019 06:00 / atualizado em 14/11/2019 08:08

Oceano Cavalcante entre as peças produzidas por ele, depois de ter sido 'tocado por um anjo', instaladas no Centro de Arte Popular, na Praça da Liberdade(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Oceano Cavalcante entre as peças produzidas por ele, depois de ter sido 'tocado por um anjo', instaladas no Centro de Arte Popular, na Praça da Liberdade (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Faltam 41 dias para o Natal e a recriação do nascimento de Jesus já dá o ar da graça. Na tarde de ontem, foi aberto ao público, na capital, um presépio todo feito em papel pelas mãos do artista plástico Oceano Cavalcante, paraibano residente há quatro décadas em Belo Horizonte. Logo na entrada do Centro de Arte Popular (CAP), na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul, estão 16 figuras variando entre 1,30 metro e 1,60m de altura e mais as bênçãos de São Francisco de Assis, o primeiro a montar a cena sagrada, em 1223, ideia que se perpetuou e virou tradição nas casas mineiras, ganhando até circuito especial em algumas cidades.

Enfermeiro de profissão e atualmente cursando o segundo período de licenciatura em artes na Escola Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), Oceano, de 59 anos, conta que fez a estrutura das figuras da exposição do presépio Re-nascimento (assim mesmo, com hífen) com 320 garrafas PET e usou mais de 200 quilos de jornal para criar a Sagrada Família (José, Maria e o Menino Jesus), os três reis magos, três camelos com os baús, a vaca, o burro e o carneirinho, o pastor, a estrela-guia, o galo e o anjo, a peça maior do conjunto. Para dar o efeito monocromático, no tom da terra, o artista se valeu de sacos de cimento, pregando fios de sisal no dorso dos animais, como se fossem a crina e a lã.

Um boneco quebrado encontrado na rua se transformou no Menino Jesus
Um boneco quebrado encontrado na rua se transformou no Menino Jesus


Quem vê o conjunto da obra fica imaginando: quantos meses são necessários para trabalho tão singelo e caprichado, que parece de madeira e não de papel? Diante das peças, Oceano responde que gastou apenas um mês. E mais uma surpresa para o visitante: o artista, natural de Areia (PB), teve o seu despertar artístico em 2007, num momento em que foi “tocado por um anjo”. O anjo, no caso, era um senhor de 99 anos, Luiz Carlos de Portilho, de quem Oceano era cuidador e falecido há 10 anos. “Ele me falava muito sobre ecologia, destacava a importância do meio ambiente e, assim, comecei a pensar em aproveitar material reciclável.”

De imediato, Oceano fez um Dom Quixote, o “cavaleiro da triste figura” criado pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). “Sempre que faço um trabalho, procuro estudar muito antes. Por isso, li o livro Dom Quixote de la Mancha”, revela Oceano, que tem um ateliê no Bairro Santa Efigênia, na capital, e conta com ajuda dos vizinhos na hora de reunir a matéria-prima de sua arte. O contato com Portilho e a conscientização ecológica provocaram outras mudanças na vida do artista, casado e pai de Diego, de 28, e Luciana, de 19. “Diego cursa engenharia ambiental. E resolvi prestar vestibular acompanhando a Luciana, que faz pedagogia.”

Primeiro a montar um presépio, São Francisco de Assis compõe o trabalho
Primeiro a montar um presépio, São Francisco de Assis compõe o trabalho


Beleza


Ao apresentar seu presépio, Oceano explica que a primeira peça “esculpida” é sempre a Nossa Senhora. Depois vai modelando os homens, que são o pai adotivo de Jesus, José, o pastor e os reis magos. Nesta criação, houve um achado: “Encontrei, na rua, um boneco quebrado, e pensei que seria ideal para fazer o Menino. Restaurei e o coloquei na manjedoura. E gostei do resultado”, afirma o homem, que, com bom humor, credita a escolha do seu nome ao amor que os pais tinham pelo mar. “Mas minha cidade não fica no litoral, e sim numa região entre a zona da mata e o sertão nordestino”.

A coordenadora do CAP, vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, Angelina Gonçalves, explica que a ideia de convidar Oceano Cavalcante partiu do assessor do local, o arqueólogo e historiador Fabiano Lopes de Paula, que conhecia o trabalho do artista. “Nosso objetivo é valorizar esse trabalho, dando mais visibilidade, e também abrir, com arte, a temporada natalina”. Ela adianta que, no próximo dia 21, às 19h, será inaugurada, no local, a exposição Folia das cores e do movimento, do artista plástico Willi de Carvalho, especialista em miniaturas.

Serviço


Presépio Re-nascimento
Até 6 de janeiro
Centro de Arte Popular (CAP), que fica na Rua Gonçalves Dias, 1.608, na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte – Entrada franca
Aberto de terça a sexta-feira, das 10h às 18h30 (permanência até as 19h), e sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h30 – Telefone: (31) 98407-9444

Circuito em Santa Luzia


Em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, há um circuito de visitação dos presépios, organizado pela prefeitura local, via Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Em sua 15ª edição, a iniciativa irá de 14 de dezembro a 6 de janeiro, contemplando, desta vez, 42 residências de vários bairros. Fazendo jus à hospitalidade mineira, os donos e donas das casas abrem as portas para receber as pessoas e mostrar as figuras e bichinhos que passam de geração a geração. Muitos dos elementos do cenário, como os panos cobertos de esmeril e pedrinhas de vidro, são feitos artesanalmente na cidade. Contatos pelo telefone (31) 3641-4791, com Ana Luíza.


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