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Obra revela ''cenas africanas'' em porão de Ouro Preto; escravo pode ser o autor

Desenhos foram encontrados durante reformas em sobrado. Cachimbo achado na possível área de senzala reforça tese de que o painel foi feito por vítima da escravidão


postado em 29/09/2019 06:00 / atualizado em 29/09/2019 07:55

(foto: FOTOS: JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS)
(foto: FOTOS: JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS)
Ouro Preto
– Lembranças da terra africana, da cultura do seu povo e da travessia oceânica marcadas no barro com uma ponta de saudade, o banzo dos negros, foram encontradas no porão de um sobrado de mais de 200 anos no Centro Histórico de Ouro Preto, na Região Central do estado. O empresário Philipe Passos, da família proprietária do imóvel, não esconde a emoção ao falar das cenas descobertas na parede e que, tudo indica, foram deixadas por uma vítima da escravidão, o regime só extinto no Brasil em 1888 pela Lei Áurea. “É como se fosse uma mensagem numa garrafa jogada no mar e no tempo, para que, um dia, fosse achada por alguém”, compara Philipe sobre o encantamento do achado.

Localizado na Rua Conde de Bobadela, mais conhecida como Rua Direita, a poucos metros da Praça Tiradentes, o casarão se encontra em fase final de primoroso restauro que trouxe de volta a beleza da arquitetura e valorizou ainda mais a paisagem urbana da antiga Vila Rica. Foi durante a obra que um funcionário localizou os desenhos no porão, onde pode ter sido a senzala e se tornou necessário fazer um desaterro – ao lado, ficará a cozinha do restaurante a ser inaugurado no ano que vem. Estão lá duas mulheres trabalhando no pilão, um animal de grandes proporções, que pode ser um guepardo ou chita, parecidos com a onça, duas aves pernaltas, pessoas dançando e um navio.

“Estou certo de que a mão escravizada fez os desenhos, pois encontramos também um cachimbo típico dos negros africanos. A descoberta exige estudos detalhados, mas todos os que viram já agora ficaram surpresos e impressionados. Meu objetivo é preservá-los protegendo com vidro para que os clientes possam admirar”, afirma Philipe ao lado do filho Rodrigo Passos, de 24 anos, estudante de arquitetura na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). O navio com as velas chama a atenção e recria a travessia no Oceano Atlântico em direção ao Brasil, que recebeu quase 5 milhões de africanos.

 Rodrigo Passos no local do achado, que será submetido a exames(foto: )
Rodrigo Passos no local do achado, que será submetido a exames (foto: )
ORIGENS

“Nesta parede estão as origens dos que foram escravizados. Nossa cidade guarda rico patrimônio da época do Ciclo do Ouro, mas estes desenhos são um tipo de 'ouro' que também conta a história”, afirma Philipe à frente da intervenção no sobrado há dois anos e oito meses. A preservação do legado gráfico está relacionada, segundo ele, à localização do compartimento do casarão, que, anteriormente, tinha saída para a Rua das Flores e era ventilado, impedindo a deterioração pela umidade e o tempo. Ocupando uma área de 2,50m de largura por 1,20m de altura, os desenhos estão grafados no reboco à base de barro sobre a parede de pedra. “Foi feito um teste do material e não há cimento na composição”, informa o empresário.

Autor de um painel de grandes proporções (8m x 9m) no interior do futuro restaurante, o artista plástico ouro-pretano e residente na capital Jorge dos Anjos se inspirou nos desenhos para criar a obra. “Acredito que a pessoa usou um instrumento pontiagudo para fazer. Os desenhos remetem à África, ao Mali, já vi gravuras em livros com aquelas torres e muros trabalhados em relevo”, diz o artista, a respeito de um dos grafismos maiores com várias pessoas perto das grandes estruturas.

O ex-secretário estadual de Cultura e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) Angelo Oswaldo viu as cenas na parede e também se encantou. “Fiquei impressionado, pois me levaram, imediatamente, às páginas do livro do poeta, antropólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (na Zona da Mata mineira) Edimilson de Almeida Pereira, que reproduziu desenhos africanos. “Há, na obra de Edimilson, um dos melhores poetas da atualidade, um desenho muito similar aos vistos na parede do casarão de Ouro Preto”, conta o também ex-prefeito da cidade, explicando que o imóvel, geminado, fica na Rua Direita, nome comum da principal via pública das cidades de passado colonial por conduzir à matriz da cidade, no caso, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, atual basílica.

Certo de que estudos são importantes para esclarecer mais sobre a descoberta, Angelo Oswaldo acredita que os desenhos servem para “iluminar” a cultura afro-brasileira tão presente em Ouro Preto, onde há igrejas como a de Santa Efigênia, no Alto da Cruz, erguida, conforme pesquisas, pela irmandade formada em 1719 por pessoas escravizadas da freguesia de Antônio Dias. O achado também deverá marcar dois fatos importantes na história da cidade em 2020: os 300 anos da sedição de Vila Rica, cujo protagonista Filipe dos Santos (1680-1720) se revoltou contra a cobrança de impostos pela Coroa portuguesa e foi condenado à morte, e quatro décadas de reconhecimento como patrimônio da humanidade, o primeiro no país concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

SÍMBOLO

O belo sobrado da Rua Direita ainda se encontra em obras, portanto, os desenhos estão longe dos olhos de moradores e visitantes da cidade, cujo Centro Histórico foi o primeiro (1980) reconhecido, no país, como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Jogando luz sobre o desenho, nos sentidos físico e figurado, já que se trata de uma área no antigo porão, o arquiteto vai mostrando cada detalhe, enquanto os olhos curiosos se surpreendem com as formas que recriam, certamente, costumes e lembranças "de outras terras, de outro mar". Os desenhos também remetem à presença dos negros na construção da antiga Vila Rica – mãos que garimparam o ouro, ergueram igrejas, edificaram casarões e, acima de tudo, marcaram a cultura local.

Enquanto isso...
Casa de cultura negra

Será finalmente inaugurada em novembro, em Ouro Preto, na Região Central de Minas, a Casa de Cultura Negra, espaço para a comunidade afrobrasileira local fortalecer a cultura, manter tradições centenárias e desenvolver atividades sociais e educativas. Fica ao lado da Igreja Santa Efigênia, no Bairro Alto da Cruz, no Centro Histórico. A iniciativa inédita no país, segundo especialistas, ocupa a Sala Chico Rei, que foi reformada, ampliada e ganhou mais um módulo com novos serviços e duas arenas, tipo anfiteatro, na área externa. A fase atual é do paisagismo, informa o secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, explicando que os recursos aplicados são da Prefeitura de Ouro Preto e do governo de Minas, via Secretaria de Estado da Cultura e Turismo. O nome Casa de Cultura Negra, antes Sala Chico Rei, foi mudado em 2017, por lei municipal, atendendo ao pedido dos integrantes do Fórum da Igualdade Racial de Ouro Preto (Firop). Mês da cultura, novembro tem como data importante o dia 20, em memória do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi dos Palmares, morto em 1695.


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