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Estado de Minas

Idosos insistem em ficar na área de risco de Barão de Cocais

Apesar de as autoridades pedirem que se mude para hotel, casal se recusa a deixar casa em uma das comunidades próximas da Barragem Sul Superior, que pode se romper


postado em 30/05/2019 04:09 / atualizado em 30/05/2019 08:06

José Natividade Moura, agricultor:
José Natividade Moura, agricultor: "Não suporto hotel. Para mim, hotel é só para passar uma noite e ir embora no outro dia. Hotel não é morada não" (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Barão de Cocais – As casas fechadas, janelas batendo ao vento sem ninguém escutar, as frutas apodrecendo nos pés e os cães abandonados perambulando sem terem para quem latir descrevem as vilas desertas de Socorro e Gongo Soco, de onde 493 pessoas foram evacuadas. As comunidades são as mais próximas da Barragem Sul Superior, operada pela mineradora Vale na Mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, na Região Central de Minas.

Em caso de rompimento, as moradias seriam varridas pelo fluxo de parte dos 6 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro. Apenas um homem enfrenta esse destino sombrio e segue morando na casa condenada. O agricultor José Natividade Moura, de 70 anos, e a sua mulher, de 66, permanecem na sua casa dentro da Vila de Gongo Soco, desafiando a morte. Não querem seguir o mesmo destino de amigos e parentes que foram realojados em hotéis na cidade. “Não suporto hotel. Para mim, hotel é só para passar uma noite e ir embora no outro dia. Hotel não é morada não”, diz o agricultor.

As vias de acesso às vilas de Socorro e de Gongo Soco estão bloqueadas. Estradas vicinais que se interligavam com essas vias foram fechadas por barreiras de terra com quase um metro de altura, reforçadas por valetas de quase um metro de profundidade, o que as torna virtualmente intransponíveis de carro. A distância das duas comunidades do barramento é de cerca de dois quilômetros, sendo que cada uma fica em uma margem do Rio São João, o manancial que pode se tornar o caminho por onde a lama passará, podendo chegar até Barão de Cocais, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.

O único morador de Gongo Soco afirma não ter medo de uma ruptura da barragem. “Medo, eu não tenho. O ruim é ficar sozinho aqui. Queria a companhia dos meus vizinhos e dos amigos”, afirma José Natividade. Ele se lembra da confusão que foi na comunidade depois que a sirene de rompimento soou, no dia 9 de fevereiro. “Foi uma correria na vila. Vieram 13 ônibus da Vale para nos tirar, mas eu e um amigo decidimos ficar. Aí veio um diretor da Vale e disse que era para irmos embora, pelo amor de Deus, porque a barragem já tinha rompido. Aí peguei o carro, coloquei minha mulher e a neta e ‘rachei’ fora”, conta.

NEGOCIAÇÃO


Em Barão de Cocais, o agricultor conta que se registrou no Poliesportivo e deixou a mulher e a neta na casa da filha. “Fiquei lá na rua observando o dia inteiro. Deu 19h, a água do rio nem sujou. Falei então: vou embora. Peguei o carro e ‘rapei’ fora. Quando cheguei à estrada tinha um bloqueio. Não me deixaram passar. Tive de voltar e deixar meu carro na garagem de um amigo. No outro dia, fui a pé até lá, conversei com o pessoal do bloqueio e eles me deixaram passar. O carro ficou lá dois meses, agora é que consegui trazer de volta”, afirma. Além da preocupação com a sua segurança, ele temia ser descoberto e ter de sair de sua casa. “Fiquei sozinho em casa, mas tranquilo, por três dias. Quando resolvi descer ao sítio que tenho aqui embaixo, um helicóptero passou e me viu. Já imaginei que depois iriam vir aqui me incomodar. Aí, mais tarde, veio um carro da PM (Polícia Militar)”, lembra.

O agricultor conta que negociou muito com os policiais até convencê-los de o deixar na sua casa. “Me chamaram para ir embora, queriam me convencer de todo jeito. Aí eu disse que não ia embora de jeito nenhum, porque não suporto hotel. Falei com o cabo da PM que se a barragem romper não atinge minha casa, porque do rio até aqui tem 700 metros de altura. Teria de romper 10 barragens daquelas. Aí ele falou assim: ‘Pode ficar, mas não desce nem um palmo para baixo.’ Então eu disse que vou respeitar, porque da minha casa eu não saio. Já basta meu sítio interditado”, disse.

 

Ameaça real de rompimento

 

A aparente tranquilidade do casal de idosos contrasta com o perigo. A Barragem Sul Superior é hoje a maior ameaça em termos de barramentos para a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec), uma vez que apresenta índice de estabilidade abaixo de 1,2, sendo que o mínimo aceitável é de 1,5.

A estrutura entrou para o mapa das barragens em crise após a ruptura dos barramentos 1, 4 e 4A, em Brumadinho, responsável pela morte já confirmada de 243 pessoas e 27 desaparecidos, ao despejar 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos sobre o Vale do Rio Paraopeba.

Depois da tragédia, iniciou-se uma crise no setor de barragens, após terem sido revistos os critérios que caracterizam a estabilidade dos represamentos. No dia 9 de fevereiro, a população de Barão de Cocais recebeu o primeiro alerta de que a barragem não tinha garantia de estabilidade e que atingira seu nível três de gravidade – risco iminente. Dois simulados de evacuação foram feitos.

 

Caso se rompa, Sul Superior pode, ainda, atingir e incorporar o conteúdo menor da Barragem Sul Inferior. Desde o dia 18, a situação piorou com a detecção da movimentação acelerada de uma porção do talude (paredão) de 10 milhões de metros cúbicos da mina, que pode desabar e iniciar uma reação em cadeia e romper a barragem, que fica a 1,5 quilômetro de distância.

O maciço é monitorado diariamente e passou de uma movimentação anual de 4 centímetros para até 26,5 centímetros nas partes isoladas e 22,6 cm porção inferior, ontem. “O comportamento do talude sugere que a massa vai escorregar e se depositar no fundo da mina. Contudo, se ele se desprender, a onda de choque pode se tornar um gatilho para o rompimento da barragem”, observa o major Marcos Afonso Pereira, superintendente de gestão de riscos de desastres da Cedec.

 

Como tem mostrado a reportagem do Estado de Minas, a Vale criou dois obstáculos para tentar conter os rejeitos. Até janeiro ficará pronta uma barragem de concreto a seis quilômetros da Barragem Sul Superior, no vale do Rio São João. Num outro vale, mas próximo da barragem, uma área de sete hectares está sendo escavada para que o rejeito se deposite em caso de ruptura. Se ainda assim o material chegar a Barão de Cocais, duas ruas estão sendo abertas entre os bairros Viúva e Capim Cheiroso e Jabaquara para que uma população de 2 mil pessoas não fique isolada. Ao todo, 10 mil pessoas podem ser afetadas em Barão de Cocais, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.

 


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