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Estado de Minas

Como o medo da maior retirada em massa no estado mudou a vida em Barão de Cocais

Considerada pela própria Vale sua estrutura em quadro mais crítico, represa de Gongo Soco está na iminência de colapso que expulsaria 3 mil famílias, na maior evacuação em massa no estado


postado em 24/03/2019 06:00 / atualizado em 24/03/2019 08:02

Diante de novo alerta, há quem se antecipe e já comece a providenciar a mudança de áreas ameaçadas(foto: SIDNEY LOPES/EM/D.A PRESS)
Diante de novo alerta, há quem se antecipe e já comece a providenciar a mudança de áreas ameaçadas (foto: SIDNEY LOPES/EM/D.A PRESS)

Barão de Cocais – O caminhão estacionou às 12h45 em frente da casa, o baú traseiro foi aberto e, para o compartimento vazio, começaram a ser levados fogão, sofá, colchão, prateleiras de cozinha e móveis de sala. Do portão, a professora Vilma do Carmo Malaquias supervisionava o serviço com um ar de alívio e urgência. “Estou com medo do rompimento da barragem, não posso pagar pra ver. Minha mãe tem 84 anos, então, se tivermos de sair de repente será muito complicado”, contou Vilma, que vive há 50 anos na Rua Desembargador Moreira dos Santos, no Bairro São Benedito, em Barão de Cocais, na Região Central do estado. A moradora é uma das cerca de 6 mil pessoas da cidade que desde a sexta-feira vivem sob ameaça de ter de abandonar suas moradias a qualquer momento, desde que a barragem Sul Superior da Mina Gongo Soco, da Vale, entrou em alerta de colapso iminente.

Diante de um eventual desastre que levaria à maior evacuação em massa no estado, a professora resolveu se antecipar. Esta é a segunda vez, em pouco mais de um mês, que Vilma, a mãe, um irmão e uma irmã saem de casa às pressas devido à ameaça de rompimento da represa de rejeitos. Em 8 de fevereiro, quando as sirenes indicaram que a estrutura entrava em nível 2 de alerta (que sinaliza um problema não controlado na estrutura) e determinaram a remoção de moradores, os quatro foram para uma casa no Bairro Lagoa. Voltaram depois, por não estarem na área considerada mais crítica em caso de rompimento. Mas agora a paciência chegou ao limite. “Não durmo desde aquele dia. Agora a Defesa Civil e a Vale (dona do empreendimento) estão falando em treinamento para sair daqui em caso de uma tragédia, mas não vamos esperar”, afirmou Vilma. O dono do caminhão de mudança e tio da moradora, Beraldo Malaquias Rosa, contou que tem atendido muitas outras famílias preocupadas com a situação.

Na manhã de ontem, o coordenador do comitê de resposta imediata da Vale, Marcelo Klein, admitiu que a estrutura de contenção de rejeitos de minério de Gongo Soco é a que está em situação mais preocupante. “É a que demanda mais cuidado na região do Quadrilátero Ferrífero. As sirenes em Barão de Cocais foram acionadas por precaução”, explicou o coordenador, afirmando ser uma forma de alertar cerca de 3 mil famílias (em torno de 6 mil pessoas, conforme a Defesa Civil) moradoras dos bairros Centro, São Benedito, São Geraldo, Três Moinhos e Vila Regina, localizados à margem do Rio São João, integrante da Bacia do Rio Doce.

Klein explicou ainda que o que elevou o risco de rompimento da barragem não foi a chuva, mas uma diferença nos sistemas de medição de estabilidade da estrutura, que incluem célula robótica a laser. “Esse problema será resolvido”, disse, antes de pedir desculpas à população de São Gonçalo do Rio Abaixo, na mesma região, onde, também na sexta-feira, foram acionados por engano alertas sonoros. Klein adiantou que poderão ser construídos diques de contenção abaixo da barragem, para evitar que a lama chegue diretamente ao Centro e bairros de Barão de Cocais que ficam nas áreas secundárias à zona de autossalvamento (ZAS). Esta última – a mais ameaçada, aquela em que os moradores precisam escapar por recursos próprios, pois em caso de desastre não há tempo para a intervenção de autoridades – está desocupada desde o início de fevereiro.

TEMPO DE FUGA Ao meio-dia de ontem, um grupo esteve reunindo na sede do 26º Batalhão de Polícia Militar de Barão de Cocais: o coordenador estadual adjunto da Defesa Civil, tenente-coronel Flávio Godinho, o comandante da PM local, tenente-coronel Ferraz, o delegado regional da Polícia Civil, Paulo Tavares Neto, o capitão Oberdan Inácio, do Corpo de Bombeiros, o prefeito Décio Geraldo dos Santos e representantes da Vale. Godinho informou que está pronto para ser colocado em prática, hoje ou amanhã, um plano para eventual retirada dos cerca de 6 mil moradores, em caso de rompimento da barragem, que guarda cerca de 4,3 milhões de metros cúbicos de rejeitos. O volume equivale a algo em torno de um terço do que havia na Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH, cujo colapso completa amanhã dois meses, com mais de 300 vítimas, entre mortos e desaparecidos.

Godinho explicou que, caso haja vazamento da lama, haverá uma hora e 12 minutos para retirada das 3 mil famílias da chamada zona secundária. “O plano foi concluído e elaborado em parceria com a Polícia Militar, bombeiros e outras instituições. A cidade foi dividida em quadrantes, com pontos de encontro dos moradores para fuga. Trata-se de um plano qualificado”, disse Godinho. A preocupação com os mais idosos e pessoas com problemas de locomoção está no centro das atenções dos responsáveis pelo trabalho, acrescentou o capitão Oberdan Inácio, do Corpo de Bombeiros. Está sendo feito um cadastramento, com 12 militares passando pelas áreas sob risco iminente de catástrofe.

SEM DORMIR Nos bairros no caminho de uma eventual onda de rompimento, margeando o Rio São João, imperam as noites insones. O aposentado Amaro Sabino tem vivido dias de angústia aos 85 anos. “Meus filhos não estão me deixando dormir aqui. Toda noite eles vêm me buscar. Mas não consigo ficar lá muito tempo”, contou, com o semblante preocupado, ao chamar os repórteres para ver o quintal e o quarto. “Vivo sozinho... eu e Deus, mas não quero sair da minha casa. Estou aqui há 50 anos. O pior é que não consigo mais dormir, desde que começou esse problema com a barragem”, afirmou o pai de 10 filhos.

Na sua caminhada matinal, a aposentada Sueli Fernandes Vieira contou também que não tem mais sossego, “assim como toda a população”. Protegida do sol forte por um chapéu, reclamou que não há informações concretas sobre o que pode ocorrer. “Dizem que a barragem pode romper a qualquer momento. É por isso que não consigo pregar o olho”, ressaltou.

Também no Centro da cidade o clima de tensão é grande, diz Lucas Vilela, desempregado, que faz licenciatura em educação física. “Temos cerca de 5 mil desempregados em Barão de Cocais. Se houver um rompimento da barragem, a cidade vai acabar “, disse o jovem, que está preocupado com a vida nas comunidades onde tem parentes e amigos. “No distrito de Socorro, de onde 454 pessoas foram retiradas em 8 de fevereiro, todas hoje alojadas em hotéis, há uma festa muito bonita, de Mãe Augusta do Socorro. Vai muita gente lá. Fico pensando também na cultura do povo, nas tradições que ficam prejudicadas”, disse. Na manhã e tarde de ontem, o movimento era intenso na cidade, com um detalhe: muitos agora ficam vigiando as águas do Rio São João, por onde desceria uma eventual onda de lama. Para evitar que moradores e visitantes ultrapassem os limites da segurança, seguindo em direção a Socorro, por exemplo, a PM mantém barreiras com militares de prontidão.

Em entrevista na noite de sexta-feira, o tenente-coronel Flávio Godinho informou que o acionamento das sirenes em barão de Cocais ocorreu após uma empresa de auditoria independente contratada pela Vale expedir um laudo alertando para a possibilidade de liquefação da estrutura. Trata-se do mesmo processo que desencadeou a catástrofe de Brumadinho, em 25 de janeiro.

 

Risco natural

e histórico
Além da preocupação com vidas humanas, em um eventual rompimento da Barragem Sul Superior de Gongo Soco, em Barão de Cocais, defensores do patrimônio histórico voltam os olhos para o Santuário São João Batista, no Centro, joia do século 18 com o traço arquitetônico de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814). O templo também está ameaçado em caso de catástrofe, pois se localiza na área central. Outra preocupação é com o Rio São João e a Bacia Hidrográfica do Rio Doce, destruída em grande parte após o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, há pouco mais de três anos.

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