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Estado de Minas

Realocados, moradores de Macacos convivem com medo e falta de informações da Vale

Retirados de suas casas em fevereiro, moradores de Macacos obrigados a deixar hotel sofrem diante da possibilidade de ser obrigados a passar por uma terceira mudança


postado em 03/03/2019 05:09 / atualizado em 03/03/2019 08:37

"Disseram que vamos ficar aqui até o carnaval e, depois, devemos voltar para a Região Central. Mas também não sabem ao certo. Estamos igual cigano: cada semana num lugar" - Walisson Rodrigues, pedreiro, morador de Macacos (foto: Sidney Lopes/EM/D.A Press)
A expectativa de uma terceira mudança nos próximos dias deixa ainda mais vulnerável quem não tem prazo de voltar para casa nem sabe ao menos se um dia poderá. Sem informações concretas da Vale, moradores de Macacos, distrito de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que estavam na área de risco e desde o último dia 16 foram retirados de seus lares, vivem agora um vaivém em hotéis da capital. Sem nem uma resposta sequer sobre o dia de amanhã, restam a surpresa de realocamentos inesperados, a esperança de uma solução definitiva e o aguardo da ajuda financeira prometida pela mineradora. Os atingidos esperam para depois do carnaval o posicionamento sobre mais uma temporada de hospedagem.


São 15 dias fora de casa e nenhuma perspectiva de normalização. O pedreiro Walisson Rodrigues, de 27 anos, mora com o pai, mãe e irmãos perto da região conhecida como Bala do Xuru, na baixada de Macacos, que seria arrasada em caso de rompimento da barragem B3/B4 da Mina Mar Azul. A sirene tocou na cidade na noite do dia 16 do mês passado, anunciando a evacuação preventiva, uma vez que o risco da estrutura foi elevado ao nível 2 – o qual permanece. Desde então, a família foi acomodada num hotel na Rua Rio Grande do Norte, na Savassi, na Região Centro-Sul de BH. Na quarta-feira da semana passada, ele foi avisado de que talvez deixassem o estabelecimento, mas sem definição de dia nem hora.

Mais tarde, a informação era de que sairiam até as 20h. “Trabalho na construção de uma casa em Macacos. Saí correndo do serviço para arrumar minhas coisas e, quando cheguei, o pessoal da Vale falou que tentavam ainda ver nossa permanência”, afirma. Na quinta-feira, funcionários da empresa chegaram cedo ao hotel acompanhados da Defesa Civil de Nova Lima, dando a ordem de saída até o meio-dia. “Novamente, saí do trabalho e fui para o hotel. Tive que pedir para recarregarem a chave para pegar as malas. Os quartos já estavam trancados e avisaram que tirariam nossos pertences até as 15h. Eu queria ir para uma pousada em Macacos, mas me disseram que não tinham informação de pousada para mim, logo, eu teria de ir para outro hotel.”

Agora, ele está num hotel na Avenida Antônio Carlos, próximo ao aeroporto da Pampulha, com outras 15 pessoas. Além desse, grupos que estavam hospedados em hotéis na Região Centro-Sul teriam sido transferidos para redes nas avenidas Cristiano Machado e na Raja Gabáglia. Outras pessoas receberam a ordem de voltar para casa e, entre esses, quem se recusou acabou pedindo abrigo em casa de parentes. “Disseram que vamos ficar aqui até o carnaval e, depois, devemos voltar para a Região Central. Mas também não sabem ao certo. Estamos igual cigano: cada semana num lugar”, compara Walisson.

Num hotel na Rua Antônio de Albuquerque, também na Savassi, os hóspedes foram retirados anteontem e avisados poucos minutos antes do check out. Algumas famílias não arredaram pé. O Ministério Público de Minas determinou que as pessoas ficassem onde estavam, sem detalhar a situação de quem já tinha partido.

Walisson Rodrigues saiu de casa com a roupa do corpo. Recebeu voucher para comprar roupas, um cartão para usar numa drogaria no valor de R$ 150 e aguarda a ajuda de R$ 5 mil prometida a moradores de área de risco que ficassem mais do que sete dias fora de casa. Daqui a duas semanas, o serviço acaba e Walisson não sabe o que fará: “Quem ia construir casa cancelou. Não tem mais nada para fazer, mas as contas continuam chegando, como o plano de saúde da minha filha. Em Macacos só trabalha gente autônoma. E quem trabalha fichado foi mandado embora”. Ao lado da pequena Mirela, de 2 anos, ele espera ansioso a oportunidade de voltar para a terra onde mora há 26 anos. Para ele, o retorno para a vida normal deve demorar, pois há indícios de que a Vale está montando uma estrutura para deixar os animais, como cães, gatos e galinhas. “Para mim tudo isso é um teatro para tirar o foco da tragédia de Brumadinho. E quem saiu prejudicado fomos nós. Eu só quero voltar para casa.”

SAÚDE A doméstica Rosângela da Silva Rodrigues, de 47, é vizinha de Walisson e também foi transferida com a família para o hotel na Pampulha – marido, duas filhas, genros e três netos. Ela só soube que teria de deixar o hotel  porque a faxineira perguntou a uma de suas filhas se já estavam arrumando os pertences para desocupar o quarto. Com uma família repassando para outra e os ânimos inflando, foi colocado segurança no local por medo de baderna. “Quem comunicou oficialmente foi a Defesa Civil. Um dia antes, pediram para mostrar num mapa extremamente complicado onde estava nossa casa. A área de risco passa no meu terreno, mas não na minha casa. Queriam que eu voltasse para lá. Perguntei se a barragem rompesse e alguém estivesse no quintal, como seria. Aí, reavaliaram.”

Rosângela, que era hipertensa, passou depois da evacuação a ter problema nos rins e hemorragia. Perdeu o trabalho e denuncia ter a compra de medicamentos e exames negados pela mineradora. “O cartão é de R$ 150 e o remédio custa R$ 190. O médico analista disse que não era urgente, sendo que estava escrito urgente na receita. Nem remédios básicos, que custam R$ 20, querem pagar. Comprei, mas só preciso disso agora por causa deles. Antes, fazia meu tratamento devagar, pagando o que podia”, conta. Para Rosângela, a liberdade de antes se transformou em prisão. “Dificultam até nosso deslocamento. Para ir a Macacos, é preciso reunir todo o grupo, num horário determinado. Minha filha precisou ir lá e chegou às 22h com o bebê de 1 mês. Uma semana antes da evacuação, ela investiu R$ 10 mil na compra de material para confeccionar as fantasias de carnaval que há 10 anos faz no distrito. A pergunta agora é quem vai arcar com o prejuízo. “Viraram nossa vida de pernas para o ar e não dão parecer algum.”

 

 


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