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Estado de Minas

Moradores de Governador Valadares ainda se recusam a usar água do Rio Doce

População continua a rejeitar a água apesar de não apresentar problemas e ter aprovação de órgãos e especialistas. Renova projeta adutora


postado em 18/10/2018 06:00 / atualizado em 18/10/2018 08:00

Água da Bacia Hidrográfica do Rio Doce hoje tem condições para consumo após três anos do desastre(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Água da Bacia Hidrográfica do Rio Doce hoje tem condições para consumo após três anos do desastre (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Governador Valadares – Apesar de laboratorialmente apresentar condições de ser consumida depois de tratada, a água do Rio Doce, em Governador Valadares, ainda é rejeitada pela população desse município de 280 mil habitantes, o maior da bacia hidrográfica. Desde que os rejeitos de minério de ferro vazaram do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, na Região Central do estado, despejando 40 milhões de metros cúbicos de sobras das minerações da Samarco e da Vale, boa parte da população passou a incorporar a compra de água mineral em suas despesas do mês. No próximo dia 5, esse que é o maior desastre socioambiental do Brasil completa três anos. De lá para cá, a Fundação Renova projeta um gasto de R$ 200 milhões com a modernização das cinco estações de tratamento de água (ETAs) de Valadares e com a construção de uma nova adutora, de 35 quilômetros, para trazer água do Rio Corrente. Gastos que ainda não mudaram essa rejeição da população.

De acordo com o analista de programas socioambientais para a água da Fundação Renova, Thales Teixeira, a aceitação do público será ainda construída aos poucos. A Renova teria, inclusive, dificuldades em investir em propagandas que poderiam ajudar nesse convencimento. “É um trabalho de formiguinha. Tem de ser feito aos poucos. Perder a credibilidade é algo que se consegue com facilidade, mas reconstruir ela é muito custoso e demorado”, afirma. Ainda conforme o especialista da fundação, para ser distribuída à população, a turbidez da água, que é o nível de material particulado presente no líquido, tem de estar em 5 unidades nefelométricas de turbidez (NTUs, na sigla em inglês) e o Rio Doce já apresenta índices de 9 em sua água, antes mesmo de ser tratada.

Avaliações do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e da Fundação Renova, que contam com várias estações de monitoramento ao longo do rio, também atestaram que a água poderia ser consumida. O Ministério Público (MP) também chegou a requisitar que uma série histórica de 40 dias de análises de qualidade de água fosse feita e apresentada, sendo que nesse trabalho a qualidade também passou nos testes. O Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) determina que rios como o Doce não passem de 100 NTUs, mas durante a passagem da lama esse índice bateu os 20 mil NTUs, sendo motivo de multas contra a Samarco aplicadas pelos órgãos de fiscalização ambiental estadual (Feam) e nacional (Ibama).

Muito diferente da paisagem desoladora em 2015, quando o curso recebeu uma enxurrada de rejeitos da barragem(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 11/12/15)
Muito diferente da paisagem desoladora em 2015, quando o curso recebeu uma enxurrada de rejeitos da barragem (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press - 11/12/15)


Uma das esperanças para contornar essa situação é a construção da nova adutora, que começou no início deste mês. A previsão da Fundação Renova é de que essa nova captação e distribuição seja finalizada no primeiro trimestre de 2021. “Nosso compromisso é de conseguir que essa adutora abasteça 60% do município e sirva de alternativa a hospitais, escolas e serviços básicos caso uma nova tragédia se abata sobre o Rio Doce”, disse Teixeira. Ainda de acordo com ele, fora desse compromisso, o Serviço Autônomo de Abastecimento e Esgoto (SAAE) de Governador Valadares já demonstrou interesse em fazer com que a adutora seja capaz de abastecer 100% da cidade, quando o serviço municipal receber a operação da estrutura em três anos. 

DESCONFIANÇA
O fazendeiro Marcos Jacob da Costa, de 57 anos, passou a comprar água mineral desde que a lama inundou o Rio Doce. “Aquela água lá não tem condição de se beber. A gente não sabe se vai aparecer algum produto da mineração e que faça mal para a nossa saúde. Por isso a gente prefere evitar. Usa a água só mesmo para lavar as roupas e a casa. Para cozinhar e beber tem de ser mineral”, afirma.

O município de Governador Valadares ficou sete dias sem abastecimento de água devido ao desastre com os rejeitos de Fundão. Nesse tempo, o reabastecimento só foi possível com a utilização de produtos químicos que aglutinavam as partículas de rejeito, permitindo a decantação e distribuição. Ainda assim, o abastecimento emergencial feito com a distribuição de água mineral seguiu por vários meses, sendo garantida por acordos entre a Samarco e a prefeitura e o MP.

De acordo com a Fundação renova o rejeito da Barragem do Fundão era composto essencialmente de ferro, manganês, alumínio e sílica (areia). Contudo, devido ao poder de destruição da onda de rejeitos ter revolvido o fundo dos rios atingidos (Gualaxo do Norte, Carmo e Doce), produtos de atividades mineradoras como arsênio e mercúrio chegaram a aparecer nas amostragens de água e de solo, mas já voltaram aos níveis considerados seguros pela legislação ambiental.

Fazendeiro Marcos Jacob da Costa diz que compra água mineral desde que o rio foi afetado(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Fazendeiro Marcos Jacob da Costa diz que compra água mineral desde que o rio foi afetado (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Recorde de ações na Justiça


Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, constitui o município com mais ações na Justiça pedindo reparação pelo comprometimento do abastecimento de água e outros danos advindos do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, na Região Central do estado. Só no Juizado especial do município tramitam 50 mil processos pedindo reparação contra a Samarco. As ações estão paralisadas, aguardando que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais decida se o juizado tem competência para esse tipo de julgamento. É de lá também o maior volume de adesões esperado pelo escritório anglo-americano SPG Law, que pretende pedir nas cortes da Inglaterra e do País de Gales uma reparação, acionando a BHP Billiton SPL, controladora da Samarco ao lado da Vale, mas que tem escritório na Inglaterra.

De acordo com os advogados norte-americanos e ingleses, o potencial de representações de valadarenses nessa causa seria de 100 mil atingidos. O processo no Reino Unido foi mostrado pelo Estado de Minas com exclusividade e estima-se poder reaver para os atingidos 5 bilhões de libras (cerca de R$ 28 bilhões) em indenizações, sem qualquer custo para os atingidos, mas cobrando 30% dos valores arrecadados.

O rompimento da Barragem do Fundão despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lama e de rejeitos de minério de ferro na Bacia Hidrográfica do Rio Doce, atingindo também a costa brasileira. Nesse que é o pior desastre socioambiental do Brasil, morreram 19 pessoas. Até hoje não foi encontrado o corpo de Edmirson José Pessoa, de 48 anos, que trabalhava para a Samarco havia 19 anos quando ocorreu o desastre. Cerca de 500 mil pessoas foram atingidas.

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