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Estado de Minas

Comunidade de Noiva do Cordeiro vence isolamento e vende produtos em feira de BH

De maioria feminina, comunidade rural de Belo Vale que enfrentou passado de isolamento e preconceitos expõe produtos artesanais em espaço da Assembleia e sonha com evento anual


postado em 11/07/2018 06:00 / atualizado em 11/07/2018 07:36

Karollayne, Vilma, Jennifer e Ranielli com delícias à venda na feira, que inclui ainda artigos de decoração (foto: Beto Novaes/EM/DA Press)
Karollayne, Vilma, Jennifer e Ranielli com delícias à venda na feira, que inclui ainda artigos de decoração (foto: Beto Novaes/EM/DA Press)

Mexerica diretamente do pomar, fubá do moinho, rapadura com leite e bombons caseiros de vários sabores. E tem ainda farinha de mandioca temperada, colchas coloridas de fuxico e outros produtos feitos com carinho e por mãos habilidosas. A comunidade rural de Noiva do Cordeiro, de Belo Vale, na Região Central, apresenta até sexta-feira, na Assembleia Legislativa, no Bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte, sua vasta criatividade na Feira de Artesanato, no espaço cultural, realizada de dois em dois anos. Composta por mais de 300 pessoas, a maioria mulheres, a comunidade vive da agricultura e tem um sonho. “Queremos que o evento ocorra todos os anos. Seria muito bom para divulgar nosso trabalho e dar mais visibilidade aos produtos da horta e do pomar, que não têm agrotóxico”, afirma o diretor consultivo da Associação Noiva do Cordeiro, Iram Leite.

Na tarde de ontem, muita gente se encantou com as mesas cobertas de embalagens de pimenta biquinho, ao natural ou em conserva, o amarelo dourado do fubá e os desenhos das colchas de cama. “Conheço a história da Noiva do Cordeiro e já estive lá. Aqui, encontramos produtos orgânicos de ótima qualidade para comprar. Juntando essa trajetória a essa riqueza, fica tudo mais saboroso”, disse a analista de controle Dora Lúcia Fortini, que provava o doce de leite na companhia da irmã, Cristina Fortini. Conhecedora de culinária, Dora explicou que a iguaria “está no ponto certo”, com pouco açúcar. “Venho todas as vezes, é muito bom”, disse a funcionária da ALMG, Clélia Márcia Magalhães.

Sorridente e orgulhosa da sua comunidade, a artesã Vilma Vieira percorria o ambiente destacando os tapetinhos de tear e os artigos em croché, as geleias de frutas, as rapaduras em quatro sabores (normal, com coco, com leite e amendoim, as linguiças de pernil, e os temperos para salada. “A farinha de mandioca temperada, com sal, coentro e cebola ‘bombou’! Foi chegando e acabando, mas vamos ter mais”, contou. O bolo de fubá também acabou rápido, mas os visitantes não vão ficar com água na boca, pois tem também bombons de maracujá, coco e outros. “Convidamos todos os belo-horizontinos e moradores das cidades vizinhas”, disse Vilma, ao lado de Jennifer Fernandes, Ranielle Fernandes e Karollayne Fernandes. 

SUPERAÇÃO
Cada fruta, vegetal, doce ou produto de cama e mesa evoca a história da comunidade Noiva do Cordeiro, distante 16 quilômetros da sede de Belo Vale, e que ficou isolada durante um século de intolerância e segregação. Os integrantes sabem que são águas passadas, mas nunca é demais lembrar episódios traumáticos para evitar a repetição. Para entender, é preciso voltar no tempo, mais exatamente ao fim do século 19. Foi quando Maria Senhorinha de Lima, que agora dá nome à escola local, natural da localidade próxima de Roças Novas, se casou com o descendente de franceses Arthur Pierre. Três meses depois, se sentindo infeliz, ela abandonou o lar e foi morar com Francisco Pereira de Araújo, no terreno onde hoje fica a comunidade. De família muito católica, Maria Senhorinha, pelo seu comportamento, foi condenada, e os dois, rotulados de “pecadores e prostitutos” e amaldiçoadas as próximas gerações.

A atitude corajosa de Maria Senhorinha ganhou, à luz do moralismo, olhares de reprovação. O casal continuou junto, construiu a casa e teve 12 filhos. Mas em meados do século passado, Anísio Pereira, neto de Francisco e marido de dona Delina, fundou a seita protestante Noiva do Cordeiro, que batizou o local e converteu toda a família. A nova situação agravou as relações com os parentes católicos que residiam perto e impôs regras rígidas às mulheres, impedidas até de cortar os cabelos.

Em 1990, novos acontecimentos abalaram a estrutura local e, com um rompimento definitivo, ficaram na comunidade apenas as pessoas que defendiam uma sociedade temente a Deus, embora sem qualquer religião. Colhendo ainda, na época, os frutos de um passado hostil, a comunidade foi se fechando e se protegendo de olhares de preconceito. Em vez de acolhida no meio social, era caluniada. Como os homens não conseguiam emprego, estigmatizadas que as famílias estavam, eles se mudaram para outras cidades em busca de sustento, enquanto as mulheres passaram a se dedicar à lavoura.

 

SERVIÇO
Feira de Artesanato Noiva do Cordeiro
Espaço Cultural da Assembleia Legislativa, no Bairro Santo Agostinho, em BH
Até sexta-feira, das 8h às 18h

 

 

ASFALTAMENTO DA ESTRADA Outro sonho dos moradores da Noiva do Cordeiro se refere ao asfaltamento da estrada que faz a ligação da comunidade com o Centro de Belo Vale – dos 16 quilômetros, apenas seis foram pavimentados. O secretário do Executivo municipal, Enacson de Almeida (Naquinho), explica que o levantamento topográfico está pronto, faltando recursos para a empreitada. “Toda a obra está a cargo da prefeitura e o objetivo é asfaltar até Roças Novas, ainda no atual mandato. Até chegar a Noiva do Cordeiro, faltariam dois quilômetros”, explica Enacson. Ele diz que a prefeitura já implantou no local um posto de saúde e dotou Noiva do Cordeiro de um posto artesiano. 


Duro caminho para a fama

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 6/4/07)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 6/4/07)


Em 6 de maio de 2007, reportagem “Herança de preconceitos”, do Estado de Minas, expôs as perseguições, explícitas ou veladas, sofridas pela comunidade Noiva do Cordeiro. No ano seguinte, em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, os repórteres retornaram a Belo Vale e verificaram que a situação tinha mudado. As peças de lingerie confeccionadas pelas lavradoras e até então comercializadas de porta em porta já eram vendidas numa loja. Da mesma forma, as relações com os moradores da cidade começavam a melhorar, num avanço para quem, até então, enfrentava desprezo nos postos de saúde, indiferença na prefeitura e agressividade numa simples batida no trânsito. Mais de uma década depois, como ocorreu em março, a comunidade mostrou que se abriu com entusiasmo para o mundo, soube aproveitar bem as oportunidades, celebrou parcerias nas áreas de agricultura e arte e se tornou tema de documentário, estudos universitários e programas de televisão realizados por equipes do Japão, China, Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha. Desse último país, foram quatro reportagens. Atualmente, a comunidade se dedica também à produção de artigos pet, incluindo roupas de todos os modelos para os animais de estimação, parte com escudos oficiais de times de futebol. O esquema é de terceirização para uma empresa do setor.

 

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