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Estado de Minas

Grupo Galpão busca inspiração para nova peça com bate-papo e cafezinho no Centro de BH

A trupe convidou quem passava a sentar-se à mesa para a conversa regada a cafezinho e pão de queijo em plena Praça Sete


postado em 27/04/2018 21:37

Grupo convidou quem passava pelo Centro para tomar café e conversar(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Grupo convidou quem passava pelo Centro para tomar café e conversar (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

No meio da cidade que fervia entre buzinas, passos apressados, buchichos e gritos de toda sorte, um bate-papo inusitado, em lugares inesperados. Em pleno Centro de Belo Horizonte, convite para se sentar, conversar, tomar um cafezinho, numa espécie de mesa itinerante. Acostumada a ficar na sede do Grupo Galpão, onde serve aos ensaios da trupe de teatro, nesta sexta-feira a mesa saiu para passear, como explicaram seus donos. Sentiu os ares da cidade para colher relatos e servir de acomodação a personagens comuns das histórias reais. Saiu da rodoviária e percorreu a Avenida Afonso Pena, da Praça Rio Branco até o Palácio das Artes. Nove atores carregavam tábua, cavaletes e carrinho com as cadeiras. Cantando entre um trajeto e outro, de cara limpa, sem qualquer traço que identificasse o grupo teatral, atores e atrizes imergiam no exercício de criação do novo espetáculo. Na rua muitos olhavam pensando ser coisa de artista. Ou de gente doida. Mas, para quem aceitou o convite para se sentar, tamanha gentiliza significou algo além de uma experiência criativa. Foi pausa de alento. Momento para ouvir e ser ouvido.

Ao som de Abre alas, a primeira parada foi na Praça Rio Branco, em meio a desempregados, aposentados, desocupados, meretrizes e sem-teto, de gente que vai e vem, de passagem ou de viagem. As pessoas eram convidadas a se sentar por alguns instantes para “conversar um pouquinho”. No vaivém de gente, algumas reconheceram o grupo. Outras olhavam sem nada entender, mas aceitaram prontamente o convite para jogar conversa fora. Caso da moradora de rua Madalena, de 53 anos. Preferiu guardar seus segredos, deixando incógnitos sua cidade de origem e sobrenome. Disse apenas ter morado perto do estado da Bahia, onde ficava muito doente, motivo que a fez tentar a vida na capital. “Aqui é muito difícil. Lá, pelo menos, eu tinha comida. Aqui, tenho que pedir aos outros”, disse. Mas nem assim pensa em voltar para o interior. “Gostei de conversar.”

De lá, cantarolando Asa Branca, seguiram até o antigo Cine Royal, em frente a uma igreja evangélica, onde ficaram pouco tempo para seguir em frente entoando o samba-enredo É hoje. Arrastando olhares intrigados e desconfiados, arrancaram de pedestres notas musicais. Em frente ao Psiu, no coração da Praça Sete, a jovem Carla Thairini Gregório dos Santos, de 20, logo os identificou. A menina relembrou a infância, quando via com frequência os espetáculos do Galpão.

Mesa itinerante serviu de acomodação para interação entre artistas e pedestres(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Mesa itinerante serviu de acomodação para interação entre artistas e pedestres (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Na mesa, a rapper Pâmela Lopes Rodrigues, de 27 anos, a Ella Lopes, desabafou e chorou. “Quero que eles parem de nos matar. Ninguém tem o direito de fazer isso. Somos nós que carregamos todo o mundo, desde a semente. É triste saber que no nosso país isso não vai parar”, disse a mãe de dois meninos de 7 e 4 anos e de uma menina de 2. “Tenho ainda uma mãe que não quero que morra vítima do feminicídio. Ela foi vítima de agressões em casa e eu não pude fazer nada, porque era apenas uma criança. Hoje, adultos, eu e meu irmão a protegemos”, relatou a jovem. Ela, que tem show marcado para 12 de maio no Centro Cultural de Venda Nova, se orgulha de dizer que faz rap para fazer a revolução. E deixou na mesa, à caneta, seu recado.

No quarteirão do Cine Brasil, o ponto alto: a mesa ganhou garrafas térmicas pretas, daquelas bem caseiras, para servir cafezinho com e sem açúcar. E com direito a pão de queijo. Se nos outros lugares a aproximação das pessoas foi mais tímida, lá, a mesa encheu. Cantando Metamorfose ambulante, os atores seguiram até a Igreja São José. Depois foram para o Mercado das Flores, na esquina com a Rua da Bahia e, por fim, mesa posta em frente ao Palácio das Artes, para encerrar o ciclo de conversas, sorrisos e agradecimentos.

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