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Estado de Minas

Festival gastronômico apresenta iguarias de comunidade quilombola

Na segunda edição do Comida de Senzala, um grupo de moradores serviu delícias como frango com quiabo, cansanção com costelinha, ora-pro-nóbis e umbigo de banana


postado em 12/03/2018 06:00 / atualizado em 12/03/2018 07:52

No almoço, delícias como frango com quiabo, cansanção com costelinha, ora-pro-nóbis com o tempero da tradição (foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia/Divulgação )
No almoço, delícias como frango com quiabo, cansanção com costelinha, ora-pro-nóbis com o tempero da tradição (foto: Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia/Divulgação )
À mesa, com a força da história, o sabor da cultura e todo o tempero da tradição. O povoado de Pinhões, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentou ontem, bem à mineira, um cardápio para agradar o paladar, aguçar o espírito e contribuir para a valorização da comunidade localizada às margens do Rio das Velhas, na região do tricentenário Mosteiro de Macaúbas. Na segunda edição do Comida de Senzala, realizado na quadra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, um grupo de moradores serviu delícias como frango com quiabo, cansanção com costelinha, ora-pro-nóbis, umbigo de banana e outros que fizeram muita gente pedir bis.

No espaço decorado com espadas de São Jorge, urucum e estandartes de santos, mais de 400 pessoas fizeram fila para se servir das iguarias e muitas destacaram a originalidade do evento. “Nunca vi nada parecido em Santa Luzia. A comunidade de Pinhões é diferenciada, tem uma importância cultural e histórica muito grande e isso se reflete na comida servida aqui hoje, que, por sinal, está uma delícia”, disse a historiadora e moradora da cidade Neise Mendes. Ao lado, a professora da rede pública Haidê de Assis também destacou a cultura local, certa de que a comunidade deve ser sempre “lembrada e festejada”.

Comunidade quilombola, Pinhões se une em torno de um objetivo nobre: arrecadar recursos para a manutenção da Guarda de Congo Divino Espírito Santo. Anualmente, ela é responsável pelas festividades em louvor ao Divino Espírito Santo, que ocorrem na comunidade no segundo fim de semana do mês de julho, além das festas de São Cosme e São Damião, em setembro.

A Guarda de Congo Divino Espírito Santo de Nossa Senhora do Rosário de Pinhões surgiu em 2014 a partir do interesse das mulheres da comunidade quilombola em ter o seu grupo de congado, uma vez que na comunidade há outro, tradicional, formado somente por homens.

De acordo com capitão da Guarda e um dos fundadores do grupo, Marlon Lima, são 35 integrantes. “Entre as necessidades da guarda, estão a compra e reforma do fardamento usado pelas participantes, a manutenção dos instrumentos e o pagamento do frete de ônibus, que permite viagens a outras localidades para eventos culturais e religiosos”, esclarece o capitão, que divide o comando com a também capitã Maria Rosalina.

HISTÓRIA


A comunidade quilombola de Pinhões foi formada por negros escravizados do antigo Recolhimento de Macaúbas, que se tornou mosteiro em 1933, e da antiga Sesmaria das Bicas, os quais foram deslocados para a localidade a fim de cuidar da divisa entre as duas importantes propriedades. Instalados na região, os negros escravizados constituíram uma comunidade que se manteve unida mesmo após a abolição da escravatura, que completará 130 anos em 13 de maio.

Os atuais moradores, descendentes em grande parte dos cativos, “mantêm com muita garra seus valores, memórias, práticas culturais e religiosas, em que se destaca a fé em Nossa Senhora do Rosário, em sua centenária capela”, informa o presidente da Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia, Adalberto Mateus. Em 30 de março do ano passado, a comunidade recebeu da Fundação Cultural Palmares a certidão de autodefinição como remanescente dos quilombos.

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