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Estado de Minas

Dia seguinte a temporal em BH é de limpeza e de calcular prejuízo

Domingo foi de trabalho para moradores e comerciantes de BH, que passaram o dia contando prejuízos provocados pelo temporal que causou mais de 50 alagamentos e matou uma pessoa


postado em 25/02/2018 12:31 / atualizado em 26/02/2018 09:03

Os comerciantes fizeram a limpeza neste domingo e descartaram o que a chuva estragou(foto: Edésio Ferreira / EM / D.A. Press)
Os comerciantes fizeram a limpeza neste domingo e descartaram o que a chuva estragou (foto: Edésio Ferreira / EM / D.A. Press)
Em boa parte dos pontos de comércio de Belo Horizonte e região metropolitana, o domingo foi de trabalho pesado. Porém, em vez de comemorar um dia de vendas e lucro, muitos comerciantes e funcionários passaram as horas contabilizando prejuízos e tentando encontrar formas de pelo menos reduzi-los, depois da tempestade que castigou a Grande BH entre o fim da tarde e o início da noite de sábado, espalhando danos e provocando a morte de uma pessoa, vítima de desabamento.

Segundo levantamento da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec), foram registradas 76 ocorrências relacionadas com o temporal, sendo 51 casos de enchente ou alagamento. O único acidente fatal ocorreu no Bairro Coqueiros, Noroeste de BH, onde Hélio Oliveira Lopes, de 73 anos,  morreu e duas pessoas ficaram feridas ao serem atingidas pelo desabamento de um muro. Duas moradias vizinhas ao local foram interditadas, pelo risco de serem afetadas estruturalmente caso ocorresse outro desmoronamento. A chuva também causou quedas  de árvores, segundo o levantamento, e danos a imóveis, como trincas e infiltrações. A Comdec divulgou alerta informando que mais pancadas de chuva com rajadas de vento podem ocorrer até amanhã.

Um lago se formou na Avenida Cristiano Machado e parte da pista foi interditada(foto: Edésio Ferreira / EM / D.A. Press)
Um lago se formou na Avenida Cristiano Machado e parte da pista foi interditada (foto: Edésio Ferreira / EM / D.A. Press)
Enquanto permaneciam de olho no céu, moradores e comerciantes das áreas mais atingidas pela tempestade de sábado passaram o dia retirando e descartando mercadorias e limpando as lojas e casas, principalmente na vizinhança das avenidas Bernardo Vasconcelos e Cristiano Machado, na Região Nordeste. Ambas tiveram trechos totalmente inundados, principalmente pelo transbordamento do Córrego Cachoeirinha, que saiu do leito, arrastou dezenas de carros e invadiu imóveis particulares e comerciais.

Mesmo com a ação rápida de funcionários da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), os vestígios dos estragos eram visíveis na região. Em toda a extensão das duas avenidas podiam ser vistos grandes placas de concreto e asfalto, troncos e raízes de árvores, além de muito lixo, principalmente plástico, agarrado a grades de proteção, postes e árvores. Na entrada da Estação São Gabriel, de integração entre ônibus e metrô, se formou um grande lago, o que deixou apenas uma pista para passagem de veículos menores. A Avenida Cristiano Machado também teve faixas interditadas devido a buracos abertos no pavimento em pontos como o Bairro Cidade Nova, onde uma viatura do Samu ficou ilhada em meio ao alagamento no sábado.

Alguns comerciantes começaram a limpar a sujeira deixada pela enxurrada ainda na noite de sábado. Elizeu Teófilo Vieira, dono de uma banca de revistas na confluência das ruas Coronel Pedro Paulo Penido, Jornalista Túlio Berti e Gonçalves Coelho, na Cidade Nova, atrás da Feira dos Produtores, chegou às 4h da madrugada para colocar tudo em ordem e receber os fregueses já nas primeiras horas da manhã. Seu funcionário, Natalino de Jesus da Cruz, foi quem tentou salvar algumas mercadorias durante o temporal. Mesmo assim, o prejuízo chegou a R$ 8 mil, segundo cálculos preliminares de Elizeu. “Foi tudo muito rápido, em menos de cinco minutos a água já estava na minha cintura. Tentamos tirar o que pudemos, mas pelo menos as três estantes mais próximas do chão foram afetadas”, contou.
(foto: Arte/EM)
(foto: Arte/EM)


Dona de uma loja de doces e salgados que tem na oferta de frango assado aos domingos um de seus melhores itens de vendas, Vânia Lúcia de Oliveira Ferreira chegou ao ponto, na Avenida Bernardo Vasconcelos, tão logo passou o temporal. Há pouco mais de um ano no local, foi sua primeira experiência com as enchentes que são recorrentes na avenida. “Assim que passou a chuva viemos para iniciar a limpeza, porque fica mais fácil antes de a lama secar.” O propósito era reabrir logo pela manhã, entretanto a comerciante preferiu esperar a avaliação de um eletricista, pois todas as tomadas ficaram cheias de lama. “Tive medo de ligar equipamentos e provocar curto-circuito, danificando o maquinário e aumentando o prejuízo”, contou.

Com rodos e vassouras, Jaqueline Oliveira tirava a lama de sua loja de armarinho, na mesma avenida, e disse que também passou pelo sufoco pela primeira vez. Estabelecida na região há dois anos e moradora das proximidades, ela contou que a loja estava fechada no momento da chuva e uma sobrinha que mora em frente avisou sobre a inundação. Ela disse que não chegou a perder mercadorias, e acredita que as placas de proteção comuns em lojas e prédios da região impediram que a água entrasse com mais força e atingisse partes mais altas.

 

Crianças escapam de desabamento
 

No Bairro Coqueiros, além dos danos materiais, a família ainda chora a morte de Hélio Oliveira Lopes, atingido pelos escombros do muro que ruiu. Três pessoas ficaram feridas: Edna Rodrigues David,  A.S.D., de 15 anos e M.C., de 17, que teve o braço fraturado no momento do desabamento e foi quem saiu dos escombros para pedir ajuda a parentes e vizinhos. Edna continuava internada na tarde deste domingo no Hospital João XXIII. As duas adolescentes foram atendidas no Hospital Odilon Behrens e liberadas ainda no sábado. Segundo testemunhas, crianças filhas de moradores vizinhos costumavam ficar na casa atingida, e por pouco a tragédia não foi ainda maior.

Cunhado de Hélio, Wellington Rodrigues contou que por volta das 16h de sábado foi chamado para ajudar a socorrer seus familiares que estavam debaixo dos escombros. “Tinha ouvido um barulho muito forte e quando cheguei vi uma das meninas com o corpo coberto de lama até o pescoço e a Edna sendo prensada por dois paredões. Gritei pelo meu cunhado, mas ele já não respondia.”

Edna tinha dificuldades para respirar, contou Wellington, que encontrou forças para usar uma viga de madeira e levantar o paredão para que a vítima pudesse respirar. “O desespero foi tamanho que nem senti o peso daquela muralha”, disse. Ele sustentou a viga por 10 minutos até a chegada do Corpo de Bombeiros, o que pode ter salvado a vida da mulher.

No local moram 12 pessoas em três moradias. Edna tomava conta de filhos de vizinhas que trabalham fora. Geralmente são sete crianças, mas pouco antes do desabamento havia no local três pequenos que, por sorte, estavam em um quartinho de recreação. “Foi a salvação, pois a tragédia teria sido maior”, contou, emocionado, Wellington. O muro desabou sobre a cozinha, onde estava Hélio, e sobre parte da sala da casa.

De acordo com a testemunha, a agilidade do Corpo de Bombeiros salvou as outras vítimas. Bastante abalado, Wellington agradeceu também a solidariedade dos vizinhos e o apoio das equipes da Defesa Civil. Ele disse que os moradores dos dois imóveis interditados se abrigaram em casas de parentes e amigos. Segundo a Comdec, a Polícia Civil ainda vai vistoriar o local, pelo fato de ter ocorrido morte no acidente.

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