Publicidade

Estado de Minas

Mineiros contam suas histórias como inspiração para os desafios de 2018

No dia que representa a virada de um ano marcado por divisões entre parentes e amigos, mineiros escolhidos pelo Estado de Minas contam suas histórias, pontuadas por dificuldades, afastamento e superação, como inspiração para os desafios de um 2018 que abre suas portas


postado em 01/01/2018 06:00 / atualizado em 01/01/2018 07:54

Leandro Couri/EM/D.A press
Leandro Couri/EM/D.A press
Um abraço apertado à meia-noite, um beijo carinhoso na manhã do ano novo, o calor da conversa em torno da mesa com quem passou muito tempo distante do convívio diário... O reencontro esperado durante muito tempo faz o coração bater acelerado, torna a vida mais segura e sinaliza com a esperança para muitas famílias que, nesta mudança de calendário, têm a oportunidade de estar ao lado de pessoas queridas. É a redescoberta da liberdade, da coragem e da vida, o reencontro com a eterna arte de recomeçar.

Há muitos anos na prisão, cumprindo pena, internado por bastante tempo em um hospital, em delicada recuperação, ou sem a força necessária para encarar a realidade, neste dia universal do recomeço, mineiros escolhidos pelo Estado de Minas contam sua trajetória e a sensação de voltar, relembrar histórias, fazer planos e planejar o futuro.

Em um ano marcado pela polarização, discussões exacerbadas, divisões e muitos conflitos familiares e entre amigos, a reaproximação é um tipo de remédio, faz bem à saúde. “Agora, é um reencontro com o aconchego familiar”, resume o radialista aposentado Gilson Gonzaga de Castro, de 59 anos, morador do Bairro Jardim Alvorada, na Região Noroeste de BH. Após um bem-sucedido transplante de fígado, perto do Natal do ano passado, vieram surpresas e ele teve que passar por cinco internações. “Renasci”, confessa, com determinação.

Em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ao abraçar o filho Reginaldo Mangelo Vital, de 32, Josemara Fátima Vital, de 55, diz que tê-lo de volta à casa depois de libertado é pura felicidade. E pede a Deus para que nenhuma mãe sofra o que passou.

Já a palavra coragem ilustra bem o fim de ano do estudante de ensino médio Vitor Manuel Caetano, de 17, morador do Bairro Havaí, na Região Oeste de BH. Há cinco anos sem ver o avô, residente em Ponte Nova, na Zona da Mata, ele se preparou afetuosamente e viajou feliz para o reencontro. A amputação da perna de Emanoel Caetano, de 78, causou muito sofrimento ao adolescente que, nestes dias, se diz tranquilo com o carinho da reaproximação com o vovô. Histórias que celebram um início de ano marcado pela renovação da esperança.

 

Da varanda no fundo da casa, no Bairro Maria Helena, em Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Reginaldo Mangelo Vital, de 32 anos, e a mãe, Josemara Fátima Vital, de 55, contemplam a vista formada por uma extensão verde, caminhos de terra, montanhas e mangueiras carregadas de frutos, em uma paisagem bem rural. “É bem bonito, mesmo. Uma parte é da Fazenda Areias”, conta, com o olhar no horizonte, o filho único. Depois de muitos anos – pelas contas dele, 17, dos quais cinco anos e quatro meses preso – Reginaldo pode contemplar a vista com tranquilidade e passar o fim de ano novamente ao lado da mãe, viúva e aposentada. “Não tem ceia, não. Nem precisa. São apenas momentos de paz. Passamos, cada um no seu canto, muitos finais e começos de ano em total solidão”, conta o rapaz, que sabe muito bem o valor do recomeço e procura aproveitar cada segundo. “Minha mãe é minha fortaleza”, resume.

Carinhoso com Josemara, de quem leva o nome tatuado na perna direita – homenagem feita no Presídio Dutra Ladeira, onde passou mais de quatro anos –, Reginaldo, hoje pastor, embora sem remuneração, fala abertamente sobre a vida bandida que deixou para trás, mas que começou na adolescência. “Fui ao inferno várias vezes e voltei. Conheço bem esse outro lado do mundo, e não quero retornar para lá, a não ser para lembrar que o crime não compensa. Saí da cadeia há dois meses por bom comportamento, hoje sou padeiro formado e tenho pronta a primeira parte de um livro”, enumera. O título já está escolhido: Em vez de alimentar o ódio, alimento a esperança.

Outros projetos estão em andamento, e para eles Reginaldo precisa de auxílio. Além do livro, vai começar a cursar teologia a distância e precisa de recursos para pagar a faculdade. Faz falta também um computador para acompanhar as aulas. “Quem sabe alguém me ajuda?”, diz, com esperança e voz firme. Os olhos de Josemara brilham ao escutá-lo. Ela está certa de que a parábola do filho pródigo resume bem essa trajetória acidentada. “Nunca o abandonei e sempre o visitei todos os fins de semana, com a melhor cara do mundo, para dar força. Afinal, somos só nós dois, pois também sou filha única”, revela a mulher sorridente, que perdeu o marido “em 17 de julho de 2002, em um acidente na Avenida Cristiano Machado”, na capital. Mas hoje ela não esconde que, a cada visita ao filho, o coração de mãe sangrava.

PAZ E FELICIDADE

Alto e forte, Reginaldo confessa que “engordou um pouco” nos últimos tempos e que as camisas estão apertadas – “É tudo antiga, ainda de 2012”. O tecido deixa à mostra marcas na pele. Sem meias palavras, o pastor tira a camisa e conta que levou 12 tiros em várias situações e em diferentes partes do corpo: na coluna, o que lhe deixou paralisado e em cadeira de rodas por meses a fio; na testa, na cabeça e até no coração. No abdômen, um corte de cima a baixo denuncia uma cirurgia, dos tantos atendimentos em 11 hospitais. “Fiquei em coma durante 15 dias, meus rins pararam, fiz hemodiálise, tudo por causa do consumo exagerado de cocaína. Não havia limites.”

No presídio, o mineiro que por muito tempo parecia imortal e protegido por uma couraça de aço terminou o ensino médio. Nas passagens de ano de 2015 e 2016, agradeceu a Deus por estar preso, mesmo sofrendo pela ausência da mãe. “Vi que estava me limpando, me purificando, que havia esperança. Por isso quero ajudar os jovens, gosto de conversar com eles, falar a mesma língua deles. O combustível do crime é o adolescente.”

Agora em frente da casa onde mora com a mãe, Reginaldo a abraça, abre o sorriso e fala do que vale a pena: “Transformação, mudança, renascimento e restauração, tudo isso é possível, sendo que o principal é o amor ao próximo”. Com o semblante sereno, Josemara pede a Deus para abençoar “todas as mães que passaram por isso” e ressalta que, no fim das contas, os maiores objetivos são a paz e a felicidade. Evangélico, Reginaldo afirma que respeita todas as religiões e agradece à Pastoral Carcerária da Arquidiocese de BH pelo apoio durante a prisão. Afinal, tolerância já é um primeiro passo para qualquer recomeço.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade