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Estado de Minas

'Irresponsabilidade', diz delegado sobre ação de mulher presa por fabricar linha chilena

Suspeita de ser responsável pela fábrica foi presa em flagrante, mas liberada após pagar fiança. Polícia apreendeu 11 máquinas para a produção dos fios cortantes


postado em 08/08/2017 18:00 / atualizado em 09/08/2017 08:13

O menor carretel disponibilizado para venda, com 400 metros, era vendido de R$ 20 a R$ 30 no Hipercentro(foto: Alexandre Guzanshe/EM)
O menor carretel disponibilizado para venda, com 400 metros, era vendido de R$ 20 a R$ 30 no Hipercentro (foto: Alexandre Guzanshe/EM)
A Polícia Civil fechou ontem o que considera ser a maior fábrica de linha chilena para pipas e papagaios de Belo Horizonte. Depois de intensificar investigações a partir de junho, quando uma criança de 4 anos morreu por causa da linha em Ibirité (Grande BH), a polícia descobriu que Vanessa de Fátima Teodoro Neto, de 43 anos, produzia o material cortante no terraço da casa dela, no Bairro Vista Alegre (Região Oeste da capital). Com ela, foram apreendidos 74 frascos de cerol, pó químico de mistura de vidro, 11 máquinas e 50 mil metros de linha chilena. Presa em flagrante, Vanessa foi solta após pagar fiança.

A linha chilena é um novo tipo de mistura de cola que vem ganhando espaço entre os adeptos de soltar pipas. Tem poder de corte quatro vezes maior que o do cerol. Produzida partir de pó de quartzo e pó de alumínio, a linha começou a ser fabricada no Chile, mas é amplamente comercializada na capital mineira. O delegado Rodrigo Damiano, responsável pelas investigações, disse que Vanessa começou com a produção de cerol – que tem como base o vidro e a cola –, mas passou a dedicar-se ao negócio “mais lucrativo”. “Como muita gente comprava, ela disse que achava que não tinha problema nenhum. Uma irresponsabilidade”, afirmou o delegado.

A polícia sustenta que a fábrica de Vanessa abastecia o comércio em toda a capital, sobretudo na no Hipercentro. “Ela é a distribuidora. As pessoas que tinham interesse em vender em menores comércio ou em bancas compravam dela. Vanessa produzia há cerca de três anos e não tinha passagem pela polícia”, disse Rodrigo Damiano. Para ter ideia do lucro, o menor carretel vendido por Vanessa, com 400 metros, custava entre R$ 20 e R$ 30. Já o maior, com 12 mil metros, era vendido a quase R$ 400. Segundo a polícia, o total de recursos movimentos pela fábrica só será possível de calcular após perícia contábil nas anotações apreendidas.

Vanessa foi presa por crime contra as relações de consumo, cuja pena é de detenção de dois a cinco anos ou multa. Ela foi encaminhada para o presídio de São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas liberada após pagamento de fiança. “Acreditamos que fechamos a maior fábrica de linha chilena de Belo Horizonte e, talvez, a maior de Minas Gerais”, disse o delegado. Agora, as investigações continuam com o objetivo de identificar outras pessoas que também agiam na fábrica e vendiam o cerol e as linhas. Para a polícia, pelo menos mais uma pessoa também seria sócia de Vanessa.

RISCOS A Lei Estadual 14.349/2003 proíbe, em todo território mineiro, o uso de cerol ou de qualquer outro tipo de material cortante nas linhas de pipas para recreação ou com finalidade publicitária. A multa é de R$ 100 por cada conjunto de material apreendido. Belo Horizonte também conta com lei a respeito (7189/96), que proíbe o comércio e o uso do cerol. O estabelecimento que vender o produto estará sujeito a advertência, multa e até cassação do alvará de localização e funcionamento. Em caso de morte ou lesão de terceiros, o infrator também pode ser responsabilizado. A venda da mistura e da linha chilena também é vetada. O comércio pode sofrer sanções que vão desde a advertência, multa e cassação do alvará de funcionamento.

Mesmo com as leis, o cerol e a linha chilena continuam a fazer vítimas. Segundo dados da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), 38 pessoas foram vítimas do cerol ou linha chilena em 2015 e 33 em 2016. Em 2017, até junho, foram mais 16 ocorrências – sendo 10 em junho. Segundo o soldado do Corpo de Bombeiros Gláuber Fraga, o número aumenta no período de férias. “As crianças saem da escola e vão soltar papagaio. Em agosto, o problema se agrava por causa dos ventos fortes que favorecem acidentes”, disse. Motociclistas são os mais vulneráveis por causa da alta velocidade com que circulam.

As linhas cortantes também podem provocar curto-circuito nas redes elétricas e dar choque nas pessoas que tiverem contato. Segundo Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), de janeiro a abril, foram registradas 663 ocorrências de interrupção no fornecimento de energia elétrica provocadas por linhas com cerol. Estima-se que 240 mil consumidores tenham sido afetados. Ao longo de 2016, cerca de um milhão de clientes foram prejudicados pela prática.

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