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Estado de Minas

Planos e críticas dão o tom durante recebimento de doações em Mariana

Vítimas do rompimento da barragem da Samarco revelaram sonhos que pretendem realizar com dinheiro doado, mas também criticaram destinação de recursos


postado em 01/04/2016 06:00 / atualizado em 01/04/2016 08:17

Prefeito de Mariana, Duarte Júnior, participou da entrega dos cheques(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS)
Prefeito de Mariana, Duarte Júnior, participou da entrega dos cheques (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A PRESS)
Mariana – Um alento para a angústia e a dor das 306 famílias desalojadas dos povoados de Mariana atingidos pela lama de rejeitos de minério de ferro da Barragem do Fundão, da Samarco, em 5 de novembro de 2015. Na manhã de ontem, as vítimas do maior desastre socioambiental da história do país ratearam a primeira parcela (R$ 800 mil) das doações (R$ 1.123.669,00) depositadas em três contas bancárias abertas pela prefeitura da cidade colonial exclusivamente para essa finalidade. Porém, a entrega dos cheques também foi momento de questionar a destinação diversa dada a outros valores que, segundo representantes da população, foram arrecadados em nome dos marianenses.

Ontem, cada família recebeu um cheque no valor de R$ 2.614,38. A quantia é irrisória diante das perdas das vítimas, sobretudo daquelas que enterraram parentes ou amigos que figuravam entre as 19 pessoas que morreram, mas o valor alimentou a esperança das pessoas que, há quase cinco meses, não medem esforços para recomeçar a vida.

Cássia Mírian de Souza, de 37 anos, foi a primeira a ser chamada pelo prefeito de Mariana, Duarte Júnior, para receber sua parte. Mãe de cinco garotos e de três meninas, ela morava em Bento Rodrigues, o primeiro lugarejo devastado pelo tsunami de lama e onde moravam seis das 19 pessoas que morreram. A auxiliar de limpeza já sabe o que fará com o dinheiro: “Investir na educação dos filhos”.

Emocionada, ela recorda que estava na escola do povoado quando a avalanche de lama chegou pelo leito do Rio Gualaxo do Norte. Em poucos minutos, lembra, quase tudo foi destruído. Muita gente fugiu apenas com a roupa do corpo. Hoje, a maioria das casas se transformou em ruínas. O mesmo ocorreu em Paracatu de Baixo, o segundo lugarejo atingido pela lama.

Era lá que morava José Gonçalves, de 68. Ele planeja usar parte do valor recebido ontem para construir um fogão a lenha idêntico ao que tinha em seu rancho. “Minha casa foi jogada no chão. Moro, agora, num imóvel em Mariana alugado pela Samarco. Quando minha moradia for levantada, faço questão de construir o fogão”, contou.

O xará dele, José Geraldo Santana, de 46, também fez planos: “Vou comprar um computador para minha filha, porque ela usa os dos amigos para fazer os trabalhos de escola”. A família dele vivia em Ponte do Gama, onde quatro casas não resistiram à força da lama. Sorridente, o aposentado deixou o centro de convenções onde os cheques foram distribuídos. Ele ainda não sabe o que fará com a segunda parcela das doações.

O restante do valor das doações (R$ 323.669) será rateado em 30 dias. O prefeito fez questão de explicar às vítimas que o valor será dividido em duas parcelas por determinação do Ministério Público de Minas Gerais. Caso alguma família não tenha sido cadastrada na primeira parcela, há uma quantia no banco para reparar o prejuízo.

Duarte Júnior aproveitou o evento para sugerir nova finalidade aos objetos doados por famosos para serem leiloados em benefício das vítimas: “Em vez disso, que os objetos sejam expostos num lugar no novo Bento Rodrigues”. O ex-jogador Zico doou uma camisa da Seleção usada por ele na Copa de 1982. A apresentadora Ana Maria Braga, um livro. Faustão, um relógio.

Vale lembrar que a Arquidiocese de Mariana também abriu uma conta para doações às vítimas da barragem. Até 23 de fevereiro, o saldo era de R$ 867.094,53. O dinheiro será usado “em favor dos atingidos pela barragem em toda área da arquidiocese e não apenas daqueles que se encontram no município de Mariana”.


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