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Estado de Minas

Governador Valadares joga todo tipo de rejeito no Rio Doce, incluindo esgoto in natura

Maior cidade da bacia joga no Doce todo tipo de rejeito, incluindo esgoto in natura. Resultado de séculos de degradação, manancial temido pelas enchentes tem hoje 1,2m de profundidade


postado em 12/07/2015 11:04 / atualizado em 12/07/2015 11:09

(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)

Governador Valadares e Aimorés – Escorrendo de manilhas de concreto e canalizações abertas no meio do mato, o esgoto lançado sem tratamento e o lixo descartado sem controle transformam a área de preservação da mata ciliar do Rio Doce, em Governador Valadares, em uma espécie de mangue banhado por líquido cinzento, entre pneus velhos, vasos sanitários e entulho. Esse é o mais evidente retrato do descaso com a conservação ambiental dentro da maior cidade da Bacia do Rio Doce, com 277 mil habitantes. O agravamento das condições do manancial e de seus afluentes chegou a levar ao município reunião da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para tratar da crise hídrica. Os participantes do encontro apontaram o desmatamento e a ocupação desordenada do território, também visíveis em Valadares, como os impactos mais severos sobre a bacia do rio, que, represado por um gigantesco banco de areia, deixou de correr para o mar pela foz tradicional.

A crise na bacia parece ainda mais grave quando se considera que as enchentes frequentes do Rio em Valadares fizeram até com que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) instalasse na bacia uma das três únicas redes de monitoramento federal de níveis da água do Brasil – as outras duas ficam no pantanal mato-grossense e em Manaus. Agora, a estiagem e a falta de recarga do rio pelo assoreamento e a seca das nascentes reduziram tanto a vazão que até a semana passada o Rio Doce na região tinha apenas 1,2 metro de profundidade, um terço da capacidade da calha, de acordo com a medição do CPRM. “Aqui está assim. Todo mundo sabe que não pode jogar lixo na margem, mas entra dentro da mata e joga. Os esgotos são despejados dentro da rede pluvial. O desmatamento não para. Quando chover e o rio estiver raso, a água vai parar aonde? Na minha casa”, reclama o comerciante Orestes Garcia, de 37 anos, que mora na beira do rio em Valadares e é obrigado a conviver com o mau cheiro e teme pelas enchentes quando a chuva voltar.

O biólogo e especialista em recursos hídricos Rafael Resck diz que é inadmissível, atualmente, tolerar despejo de esgoto em cursos d’água. “O esgoto interfere diretamente na qualidade da água. Se o recurso for de má qualidade, fica facilitada a transmissão de doenças e perde-se uma grande quantidade da biodiversidade. A água contaminada por esgoto favorece o crescimento de poucos organismos, que não contribuem para o meio ambiente”, diz Resck.

Problemas que se agravam ainda mais com a falta de chuvas dos últimos dois anos, que registraram 60% abaixo da média histórica, segundo a Agência Nacional das Águas (ANA). Enquanto isso, o esgoto não para de fluir e tanto o desmatamento quanto a ocupação desordenada deixam o solo exposto para que mais sedimentos sejam arrastados para o leito na próxima estação chuvosa. “O processo não ocorreu repentinamente. A ocupação da bacia com substituição das matas por pastagens degradadas e o carreamento dos sedimentos, que provocam o assoreamento, se somam à falta de estações de tratamento de esgoto em Governador Valadares, Timóteo e Coronel Fabriciano”, cita a presidente da Câmara Técnica de Gestão de Eventos Críticos do Comitê de Bacia do Rio Doce, Luciane Teixeira.

A cachoeira virou história

Ao longo do rio, na direção do Espírito Santo, o que se vê pelas margens da BR-381 são terras desmatadas, com valas escavadas pelas chuvas e morros sem a área de cume preservada. A maior parte dessas áreas serve para a formação de pastos. O reflexo é visto não apenas nos rios assoreados, mas também nas nascentes que formam os mananciais.
Em Resplendor, a localidade de Cachoeira recebeu esse nome devido a uma queda d’água de mais de 15 metros que era aproveitada para lazer e abastecia o Rio Doce. Hoje, a água mal escorre pelas pedras. Segundo Rogério Marcos Andrade, de 55, que nasceu na região e hoje trabalha na propriedade rural onde ficava a queda d’água, três nascentes que abasteciam o riacho secaram. “O vizinho cortou a mata e a capoeira. Plantou capim. Agora, a água não brota mais”, constata. A cachoeira seria a principal atração de um hotel que vem sendo construído na fazenda. Com a crise hídrica, o empreendimento tem futuro incerto.

O biólogo Rafael Resck diz que o ciclo das chuvas é diretamente proporcional à recarga das nascentes. Os efeitos da precipitação serão mais ou menos efetivos de acordo com a cobertura vegetal do solo. “A chuva em uma área de vegetação mais densa mantém o solo mais úmido e, consequentemente, essa água vai brotar em uma nascente. Quando o solo é mais exposto, boa parte da água que vem pela chuva evapora devido à maior dificuldade de penetração no solo, ou deságua direto em um rio, sem permanecer na área depois que a chuva passa”, explica o biólogo.

A cidade que perdeu seu rio

Acima, o rio castigado ao passar por Valadares. Abaixo, médico Darildo Ferreira observa o leito árido que sobrou depois do desvio do curso, em Aimorés: castigo(foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
Acima, o rio castigado ao passar por Valadares. Abaixo, médico Darildo Ferreira observa o leito árido que sobrou depois do desvio do curso, em Aimorés: castigo (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS)
O remo e o caiaque eram companheiros inseparáveis do médico Darildo Ferreira, de 63 anos, durante a década de 1990. De sua casa até o canal do córrego que levava ao Rio Doce eram apenas seis quarteirões. Mas, já naquela época, as agressões ao manancial que cortava sua cidade, Aimorés, na divisa com o Espírito Santo, preocupavam ambientalistas. “Resolvemos fazer então a primeira descida ecológica do Rio Doce, com biólogos, geógrafos, aventureiros e outros especialistas, para mapear os problemas e chamar a atenção para a situação do rio”, conta. Nem mesmo as outras duas expedições do grupo de ecologistas surtiram efeito.

O desmatamento e a poluição continuaram e, como um castigo para o médico, a chegada da Usina Eliezer Batista tirou o Rio Doce da cidade de Aimorés. “Hoje só temos um esqueleto de pedras que corre como um filete, com o que resta do Rio Suaçuí, que chega depois da usina. Os peixes nativos acabaram quase todos. Só sobreviveram espécies invasoras”, conta. “Uma das nossas esperanças é que a usina cumpra com o que prometeu e mantenha pelo menos um espelho d’água no leito seco do rio”, diz.

Contudo, a Aliança Geração de Energia S/A, que controla a usina, informou que por razões técnicas e de segurança da população, a manutenção de um espelho d’água que traria de volta a Aimorés o Rio Doce é impossível. A empresa alega também que não retém água em barragem, pois sua captação é em fio d’água, e que o desvio foi feito segundo licenciamento ambiental.

ANA: não existe solução à vista
A situação de degradação do Rio Doce, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA) “é de amplo conhecimento, caracterizado pelo Plano Integrado de Recursos Hídricos (PIRH), elaborado pela ANA, estados e aprovado pelo comitê de bacia”. De acordo com o especialista em recursos hídricos Ney Murtha, da agência, trata-se de processo histórico de ocupação e uso do solo e da água. “As ações previstas no plano estão sendo implementadas pelo Instituto Bioatlântica, com verba originária da cobrança pelo uso da água. São recursos de R$ 25 milhões por ano, insuficientes para ações estruturais de grande monta, mas essenciais para ações conjuntas com municípios, como projetos de saneamento”, diz. Sobre o recuo da foz principal do rio, o especialista minimiza impactos. “O rio, por muitos meios, chega e continuará a chegar ao mar. ” Sobre os lançamentos de esgoto em Governador Valadares, a prefeitura da cidade informou que duas estações de tratamento de esgoto (ETEs) devem tratar 100% dos lançamentos. A ETE Santos Dumont está em construção e a ETE Elvamar tem início de obra previsto para este ano.

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