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Estado de Minas

Nossa História: A redescoberta do Brasil

Na busca da identidade nacional, escritor Mário de Andrade, morto há 70 anos, e outros modernistas valorizaram o barroco mineiro e destacaram a importância de Aleijadinho


postado em 09/05/2015 06:00 / atualizado em 09/05/2015 06:57

Mário de Andrade foi um dos grandes entusiastas do barro mineiro(foto: Arquivo EM)
Mário de Andrade foi um dos grandes entusiastas do barro mineiro (foto: Arquivo EM)
Um homem das letras, da busca incessante pela identidade nacional e de profundas ligações com Minas Gerais, empenhado na valorização do barroco e do legado de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814). O Brasil lembra, este ano, os 70 anos da morte do escritor paulista Mário de Andrade (1893-1945), autor de obras consagradas como Macunaíma e Amar, verbo intransitivo, que também chegaram às telas em ótimos filmes. Mas muito além de escrever e ter grandes ideias, Mário de Andrade deixou seu nome gravado na história como coordenador da célebre Semana de Arte Moderna de 1922, que teve como palco o Theatro Municipal de São Paulo (SP) e “provocou uma revolução na literatura, nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema e outras áreas”, diz a professora de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Eneida Maria de Souza, autora, com Marília Rothier, de Modernidade toda prosa.

Minas entra na vida de Mário de Andrade em 1919, quando ele faz a sua primeira viagem ao estado, especificamente para visitar em Mariana, na Região Central, o poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921). Vem de SP de trem, desembarca em Belo Horizonte e, ao chegar ao destino, tem o primeiro contato com o barroco e monumentos. Cinco anos depois, voltaria com outro espírito, dessa vez integrando a caravana formada pelos modernistas que se destacaram na Semana de 22, entre eles Oswald de Andrade, escritor e dramaturgo, e sua mulher Tarsila do Amaral, artista plástica, acompanhados do jornalista René Thiollier, da fazendeira Olívia Guedes Penteado, do advogado Goffredo Telles e do poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Tinham passado o carnaval no Rio de Janeiro e decidiram assistir às cerimônias da Semana Santa nas Gerais. O certo mesmo é que, de tão importante, o passeio histórico em abril de 1924 ganhou o nome de Viagem da Descoberta do Brasil.

“O grupo de modernistas, muitos deles de formação europeia, buscava a identidade do homem brasileiro e, paradoxalmente, foi fazer essa descoberta no nosso passado colonial, no barroco mineiro, na pedra-sabão, bem distante da faixa litorânea, num afastamento das tradições do Rio e Bahia”, conta a profesora de história da arte da UFMG, Adalgisa Arantes Campos, autora do livro Arte sacra no Brasil Colonial e pesquisadora do tema.

A caravana passou por Belo Horizonte, Ouro Preto, São João del-Rei, Tiradentes, Mariana e Congonhas, sendo matéria de destaque no extinto Diário de Minas, na edição de 27 de abril de1924. Conforme os estudos da professora Adalgisa, que publicou em 2014 o artigo Falando em Minas: Arquitetura Barroca, os modernistas detrataram o ecletismo das construções da capital mineira, chamando de “bolo de noiva” o estilo dos prédios do início da construção da cidade. Obcecado em encontrar a identidade nacional, Mário de Andrade publicou em 1928 o texto O Aleijadinho, no livro Aspectos das Artes Plásticas no Brasil, ressaltando que o período em que viveu o escultor, entalhador, arquiteto e louvado (perito), natural de Ouro Preto, foi “o de maior mal estar para a entidade nacional brasileira”. Adalgisa explica que, no período citado pelo autor, ocorreram fatos marcantes como a Inconfidencia Mineira (1789) e conflitos separatistas, com uma população pobre e oprimida, formada por muitos mulatos, a exemplo de Aleijadinho, filho de um português e uma negra.

Modernistas visitaram minas (esquerda)/ Retrato do artista, feito por Lasar Segall(foto: Reprodução/Internet / Arquivo EM)
Modernistas visitaram minas (esquerda)/ Retrato do artista, feito por Lasar Segall (foto: Reprodução/Internet / Arquivo EM)

O secretário de Estado da Cultura Angelo Oswaldo também destaca a visita dos modernistas, pois, a partir daí, começaram muitos estudos sobre o barroco mineiro, inclusive por parte de pesquisadores internacionais. “Mário de Andrade viu que Aleijadinho não copiou, mas inventou, fundiu o barroco com o rococó e criou uma identidade na sua obra”, afirma o secretário, destacando a relevância do escritor para a criação, em 1937, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), dirigido pelo belo-horizontino Rodrigo Mello Franco de Andrade (1898-1969). Amigo de Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve longa correspondência, Mário de Andrade escreveu em 1925 um longo poema dedicado à capital mineira, Noturno para Belo Horizonte.

PRESERVAÇÃO Integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) e autor do livro Aleijadinho Revelado, o promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda, ressalta que, graças aos modernistas e seu empenho na valorização do barroco, foi criada a primeira legislação para proteção do patrimônio nacional. “O trabalho deles foi especial, principalmente para destacar Antonio Francisco Lisboa. O decreto 25/1937, para proteger o patrimônio, está em vigor até hoje”, ressalta Marcos Paulo.

Noturno para Belo Horizonte

Mário de Andrade

Maravilha de milhares de brilhos e vidrilhos,
Calma do noturno de Belo Horizonte...
O silêncio fresco desfolha das árvores
E orvalha o jardim só.
Larguezas.
Enormes coágulos de sombra.
A polícia entre rosas...
Onde não é preciso, como sempre...
Há uma ausência de crimes
Na jovialidade infantil do friozinho. (...)

Um grande Ah! ... aberto e pesado de espanto.
Varre Minas Gerais por toda a parte...
Um silêncio repleto de silêncio
Nas invernadas, nos araxás
No marasmo das cidades paradas...
Passado a fuxicar as almas,
Fantasmas de altares, de naves douradas
E dos palácios de Mariana e Vila Rica...
Isto é Ouro Preto
E o nome lindo de São José d’El Rei mudado num odontológico Tiradentes...

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“Se excetuarmos os tempos de agora, o período que vai mais ou menos de 1750 a 1830 será talvez o de maior mal-estar para a entidade nacional brasileira. É nele que vive Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho”

“Nas igrejas mineiras do século 18, a gente percebe a luta de duas influências principais: a do Aleijadinho e a do engenheiro reinol Pedro Gomes Chaves, anterior ao brasileiro”

Trechos do artigo “O Aleijadinho”, de Mário de Andrade, publicado no livro Aspectos das artes plásticas no Brasil, em 1928, portanto, quatro anos após a histórica viagem a Minas


LINHA DO TEMPO

1893


Em 9 de outubro, nasce em São Paulo (SP) Mário Raul de Moraes Andrade, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade

1909

Mário de Andrade se torna bacharel em Ciências e Letras e, no ano seguinte, cursa o primeiro ano da Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo

1919


Em viagem a Minas, o paulista conhece o barroco e visita o escritor Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), em Mariana, retornando dois anos depois

1922

 De 13 a 18 de fevereiro, participa da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, que revoluciona a literatura, artes plásticas e o cinema

1924

Faz a histórica Viagem da Descoberta do Brasil, junto com Tarsila do Amaral e outros amigos modernistas, às cidades mineiras de passado colonial

1928


Publica o texto O Aleijadinho, no livro Aspectos das Artes Plásticas no Brasil. No mesmo ano, é lançado Macunaíma, uma das suas obras de maior sucesso editorial

1945


 Em 25 de fevereiro, Mário de Andrade morre em São Paulo


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