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Estado de Minas

Venda de pintinhos coloridos artificialmente preocupa autoridades no Vale do Aço

Dupla foi presa em Timóteo com quase 700 aves na semana passada. Mais da metade delas morreu. Tinta é tóxica para os filhotes e o procedimento configura maus-tratos


postado em 27/08/2014 13:06 / atualizado em 27/08/2014 17:06

Pintinhos coloridos são vendidos em feiras em cidades pequenas no Vale do Aço. Procedimento pode levar as aves à morte(foto: Thaís Machado/Usipa)
Pintinhos coloridos são vendidos em feiras em cidades pequenas no Vale do Aço. Procedimento pode levar as aves à morte (foto: Thaís Machado/Usipa)


Verdes, vermelhos, amarelos, rosas. Onde eles chegam fazem sucesso e chamam a atenção das crianças. Vendidos a R$ 2, os pintinhos coloridos desaparecem rapidamente das feiras que acontecem nas cidades da região do Vale do Aço, em Minas Gerais. No entanto, a alegria dos novos donos não dura muito. As pequenas aves acabam morrendo dias depois de serem adquiridas. O que os clientes não sabem é que a tinta usada nos pintinhos é altamente tóxica para eles. A prática configura crime de maus-tratos, previsto no artigo 32 da Lei 9.605 de 1998, com pena que varia de três meses a um ano de prisão e multa.

O caso veio à tona na semana passada, quando dois homens foram presos vendendo as aves em uma feira na cidade de Timóteo. Com sede em Coronel Fabriciano, o Pelotão de Meio Ambiente do Vale do Aço recebeu informações de que o comércio estava acontecendo em feiras de bairro há alguns dias. Por meio das redes sociais, a população começou a divulgar muitos casos em que os filhotes estavam morrendo, o que levantou a suspeita de que a tinta aplicada neles poderia ser tóxica.

Aves foram apreendidas na última sexta-feira em Timóteo. Algumas já estavam mortas(foto: Polícia Militar/Divulgação)
Aves foram apreendidas na última sexta-feira em Timóteo. Algumas já estavam mortas (foto: Polícia Militar/Divulgação)


“Na última sexta-feira, recebemos informações de que eles estariam vendendo em Timóteo. Fomos pra lá e fizemos a apreensão de todos os pintinhos coloridos”, explica o comandante do Pelotão, tenente Átila Porto. Dois homens, naturais de Pernambuco, foram presos. Eles estavam com quase 700 aves. “Pedimos que a bióloga da região examinasse, e ela constatou que tratava-se de anilina, que é altamente tóxica para os pintinhos. Fatalmente levaria à morte, como já está levando."

Ainda na sexta-feira, 680 pintinhos foram levados para o Centro de Biodiversidade da Usipa (Cebus), em Ipatinga, onde são acompanhados pela bióloga Cláudia Diniz e um veterinário. As aves estão no setor de quarentena, com uma lâmpada para manter a temperatura. Além da alimentação normal, eles estão recebendo um suplemento vitamínico. Mesmo com todos os cuidados, 60% dos pintinhos morreram, mas, de acordo com a bióloga, o número de mortes está diminuindo.

“A anilina produz um complexo que evita a ligação do oxigênio com a hemoglobina. Então, eles morrem por asfixia”, explica Cláudia Diniz. Segundo ela, em grandes dosagens, a tintura – que é usada na indústria alimentícia e têxtil – pode ser tóxica para seres humanos. Na quantidade aplicada, a substância é letal apenas para as aves. “Como o pintinho é recém-nascido, ele não tem as defesas do organismo." Entre as vitaminas oferecidas aos filhotes na Cebus está a B12, que forma nova hemoglobina, segundo Cláudia.

Pintinhos estão sendo tratados com complexo vitamínico(foto: Thaís Machado/Usipa)
Pintinhos estão sendo tratados com complexo vitamínico (foto: Thaís Machado/Usipa)
ALERTA
Diante da repercussão do caso, a Coordenadoria Regional de Governador Valadares do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) encaminhou uma circular para os outros 11 escritórios da região alertando sobre a venda das aves.

“O produto (tinta) utilizado na pintura dos referidos animais é desconhecido quanto a sua origem, composição e possível inexistência de testes em animais, podendo causar problemas nessas aves, de ordem fisiológica (neurológicas, respiratórias, circulatórias, neuromotores, desde outras), morfológicas, comprometimento e/ou lesões em locais como pele, olhos, penas, entre outras) e ainda comprometimento de tecidos e órgãos”, diz a nota do IMA. “Salienta-se ainda efeito desconhecido dessa tinta ao homem, considerando a interação que existe entre essas aves e os seres humanos, principalmente as crianças”, finaliza.

O fiscal estadual agropecuário do IMA em Valadares, Marcelo de Aquino, explica que a regional não foi informada oficialmente sobre o produto usado para tingir as penas das aves e ainda não foi feito um teste ou análise do material pelos técnicos do instituto no município. Além do memorando, o IMA regional também divulgou uma carta à população sobre o caso. Aquino também afirma que a regional aguarda a orientação da sede, em Belo Horizonte, para saber quais outras atitudes devem ser tomadas.

Pequena ave ainda parece debilitada(foto: Thaís Machado/Usipa)
Pequena ave ainda parece debilitada (foto: Thaís Machado/Usipa)
DENÚNCIA
Ainda de acordo com o tenente Átila Porto, as aves vieram do Nordeste. “A argumentação é que eles adquiriam os pintinhos de alguém que vinha de Pernambuco para Valadares, colocavam numa caminhonete, que é um veículo mais rápido, e vendiam. Depois que essa ocorrência veio à tona na mídia, tivemos notícias de que eles estiveram em outras cidades próximas. Eles estavam rodando especialmente em cidades pequenas”, explica o tenente, que desconfia que as aves eram repassadas para outras pessoas, além dos homens detidos. O militar foi informado de que a dupla deve responder ao processo de crime ambiental em liberdade.

O tenente Átila Porto destaca que, quem tiver alguma informação sobre a venda dos pintinhos coloridos, ou outros crimes ambientais no Vale do Aço, deve fazer a denúncia no (33) 3825-7633, ou pela internet no portal da 12ª Região da Polícia Militar, no link Net Denúncia, de forma anônima. Em outras regiões do estado, é preciso ligar para o Disque Denúncia 181.

 


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