
A presença cada vez maior da Polícia Militar nos câmpus de universidades públicas para reforçar a segurança desafia um tabu histórico: a resistência de estudantes e professores considerados subversivos durante a ditadura militar. Em Minas, a parceria com a PM para conter a criminalidade nos câmpus divide opiniões e reacende a polêmica. Depois de dois assaltos em agosto, a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) optou por um ponto de apoio da PM, que será inaugurado até amanhã. As UFMG e as federais de Viçosa e de Lavras também mantêm parceria com a corporação. A medida, porém, é considerada desnecessária pelo secretário de Segurança da Federal de Juiz de Fora, José Carlos Tostes. A União Nacional dos Estudantes (UNE) e o sindicato nacional dos professores também criticam .
A abertura do posto de apoio na Ufop foi sugerida pela PM após ladrões furtarem o carro de uma funcionária e roubarem à mão armada a moto de um estudante, em agosto. A instituição cedeu uma sala dentro do câmpus, em um prédio onde funciona uma lanchonete terceirizada. A estrutura está sendo montada e deve ficar pronta até amanhã, segundo a pró-reitora de Administração Sílvia Rodrigues. A sala terá internet para registro de boletins de ocorrência. “Não haverá policial fixo. Quando ocorrer um crime na área, os militares farão patrulhamento e poderão registrar a ocorrência no ponto de apoio. Dá mais rapidez ao nosso trabalho, torna o policiamento mais próximo à comunidade e aumenta a sensação de segurança”, explicou o tenente Giovani Mendes, do 52º Batalhão. “A PM faz ao menos uma ronda por semana no câmpus, mas tem intenção é de que sejam mais frequentes”, acrescentou.
A polícia sugeriu a criação do ponto e outras três medidas preventivas. “A PM nos procurou para propor uma parceria. Todas as sugestões foram aceitas, depois de discutidas com professores, estudantes e funcionários”, informou a pró-reitora. A segunda providência começará a ser implantada no início de 2014: câmeras de vigilância. As primeiras serão postas nos quatro acessos ao câmpus. “Em seguida, vamos instalar em outros pontos mais críticos. Queremos criar um sistema de segurança monitorado por esses equipamentos”, afirmou.
A PM sugeriu também a troca da iluminação, mas, para cumprir essa meta, segundo Sílvia, a reitoria depende de autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Outra sugestão foi a colaboração com a Ufop no treinamento de vigilantes. A universidade tem cerca de 25 vigilantes contratados para proteção patrimonial, que atuam apenas durante a noite, e 12 terceirizados, que trabalham 24 horas por dia, armados e percorrendo o câmpus de carro e moto.
“Esses dois casos (ocorridos na Ufop em agosto) aumentaram nossa preocupação”, afirmou a pró-reitora, admitindo que a decisão de abrigar um ponto de apoio da PM pode gerar críticas. “A presença da polícia em universidade é polêmica, mas isso visa à segurança de quem frequenta o câmpus. O ponto inibe pessoas mal-intencionadas”, avaliou Sílvia, que defende rondas diárias de policiais. “Também estamos estudando o monitoramento do acesso aos prédios e o controle de quem entra, e discutindo uma política de segurança de pessoas e patrimônio, prevista no Plano de Desenvolvimento Institucional da Ufop”, informou.
ASSALTO E MEDO O primeiro assalto à mão armada da história da Ufop ocorreu em 23 de agosto. O estudante de direito Juscelino dos Santos, de 49, saía da aula por volta das 19h quando foi surpreendido por um bandido. Ele foi ameaçado com um revólver apontado para a cabeça na porta do prédio do curso. “Eles se infiltraram entre estudantes. Quando peguei a moto, um deles anunciou o roubo. Pensei em reagir, mas vi o segundo ladrão e entreguei o veículo”, contou a vítima, que é também sargento do Corpo de Bombeiros da cidade e já tinha ouvido falar de outros ataques.
Santos enviou carta à reitoria relatando o assalto e entrou com processo na Justiça Federal, exigindo que a Ufop tome providências sobre segurança “O sistema é falho, não vemos preparo dos vigilantes. Não há ronda suficiente, e a PM não participa", reclamou ele, que passou a ser mais cauteloso ao andar pelo câmpus. O estudante acredita o ponto de apoio da polícia pode espantar criminosos, mas não é suficiente para evitá-los. “Acho isso medíocre (PM no câmpus). Deve haver um programa de segurança voltado para as universidades. Se houvesse câmeras, a polícia poderia ter identificado os assaltantes que me atacaram”, reclama.
Há 34 anos trabalhando na vigilância da Ufop, o coordenador de segurança do câmpus, Vicente de Oliveira, afirmou que a presença da PM no ponto e em rondas diárias vai inibir bandidos. “Homens fazem a segurança diurna e noturna em um carro e duas motos. E cada prédio tem um porteiro. Mas o câmpus é aberto, não tem como identificar todo mundo”, explicou. Segundo ele, ocorrências são raras no local, média de uma por mês no câmpus, onde circulam 15 mil pessoas por dia.
A escuridão à noite no câmpus assusta. A estudante de medicina Isabela Gonzaga, de 19, evita passar pela faculdade nesse horário. “Para as mulheres, é pior ainda. Sempre tento encontrar pessoas para irem embora comigo”, disse. Marco Atônio Soares, de 22, costuma fazer exercícios físicos no câmpus após as aulas e já presenciou tráfico de drogas. “A iluminação é muito fraca. A presença da polícia já ajuda”, defende.
PONTO CRÍTICO:
VOCÊ É A FAVOR DA PRESENÇA DA POLÍCIA MILITAR NO CÂMPUS?
Belmiro Zamperlini, Diretor de Logística e Segurança da Universidade Federal de Viçosa (UFV)
SIM
“A presença da Polícia Militar dentro do câmpus transmite uma sensação de segurança para a comunidade universitária e para quem frequenta o espaço. Qualquer pessoa com intenção de fazer uma atitude ilícita se intimida diante da presença de viaturas com giroflex ligado e pensa duas vezes. Mesmo sem o registro de ocorrências graves nos últimos anos, a criação do ponto de apoio da Polícia Militar dentro do câmpus foi debatida e aprovada pelo conselho universitário e, desde o início do ano, há esse suporte para casos que ocorram dentro da universidade e no entorno.”
Almir Serra Martins Menezes Filho: Diretor do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes)
NÃO
O Andes tem posição contrária à ação da PM dentro da universidade. É uma medida absurda. A polícia foi parte de uma política de repressão na ditadura. A presença dela pode trazer desconforto a alunos, professores e funcionários. Tem uma maneira muito rígida e truculenta de agir, que entra em conflito com a postura que a universidade deve ter, de fomentar a pluralidade de pensamento. A liberdade de expressão e de comportamento entra em choque com os padrões disciplinares da PM. Mais cedo ou mais tarde, vai dar confusão. A universidade tem que tomar medidas internas de segurança, como contratação de vigilantes.
CÂMPUS OU CAMPI
Desde o ano passado, o plural da palavra câmpus é escrito de duas formas pelo Ministério da Educação (MEC): com acento circunflexo (câmpus) ou em sua forma tradicional no latim (campi). A mudança está incluída no manual de redação da Assessoria de Comunicação do MEC. O objetivo é facilitar o uso da língua materna e incentivar sua valorização a partir de um estudo realizado pela Universidade de Brasília (UnB).
