
A mudança fez o Ministério da Saúde considerar que Minas Gerais deve zerar a fila, diferentemente de outros quatro estados (Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo) e o Distrito Federal, que, segundo a pasta, conseguiram diminuir a espera dos pacientes. O ministério informou que sete estados, incluindo Minas, têm tendência a zerar as listas. No entanto, há um ano, o secretário de Estado de Saúde, Antônio Jorge de Souza Marques, anunciou que a fila em Minas estava zerada.
O coordenador do MG Transplantes, Charles Simão Filho, confirmou a queda no número de cirurgias no primeiro semestre e os números já estão sendo retomados. “Agora, alguns grupos esperam até 30 dias apenas”, afirmou. Ele atribui o aumento na fila e a queda na captação a fatos que repercutem na decisão das pessoas em doar, como o julgamento de médicos acusados de tráfico de órgãos no Sul de Minas, em fevereiro, e a prisão no Paraná da médica Virgínia Helena Soares de Souza, suspeita de matar pacientes para liberar vagas na UTI de um hospital de Curitiba. “Transplante é questão de confiança mesmo, se as pessoas ficam um pouco reticentes deixam de doar e isso impacta diretamente nos números”, explicou.
A fila é considerada zerada quando existe um número de pacientes proporcional ao de cirurgias por mês, segundo o coordenador do Núcleo de Tecidos Oculares do MG Transplantes, Paulo Lener Peixoto de Araújo Filho. Hoje, segundo ele, são 125 pessoas aguardando um tecido para uma média de 150 cirurgias por mês. É considerado satisfatório um tempo de espera de até três meses. “Para manter, é preciso ter muita captação. Os números dão impressão de que a situação está confortável, mas ela é dinâmica. É desafio todos os dias”, disse.
Espera
A aposentada Dalva Maria Lino, de 66 anos, entrou na fila por uma córnea em março. Passou pelos exames que indicam risco na cirurgia e descobriu alterações na pressão arterial. Por isso, já aguarda receber ligação do MG Transplantes há sete meses. Portadora de diabetes, teve a visão afetada pela doença quando os índices de glicose e colesterol aumentaram além do normal. Mesmo idosa, enxergava bem até perceber que a vista estava embaçada. Assim que conseguiu diminuir a glicose, a visão melhorou, mas não o suficiente para livrá-la do transplante de córnea. “Ela ficou muito fraca por causa da diabetes. Me avisaram para ficar alerta que qualquer dia me chamam, agora estou ansiosa”, disse.
Cristiano Flávio de Souza, de 35, passou por uma realidade bem diferente. Ele nasceu com ceratocone – doença que provoca mudanças estruturais na córnea – nos dois olhos e, para melhorar, somente um transplante. Descobriu o problema aos 9 anos e só conseguiu a cirurgia aos 16. Na época, ele e a mãe ficaram de plantão por dois dias seguidos no Instituto Médico Legal (IML) tentando convencer as famílias que perderam parentes a doar o tecido do olho. “Eu mesmo tinha que ficar pedindo”, lembra o auxiliar administrativo.
Conseguiu convencer um taxista que havia perdido um filho da sua idade a ceder as córneas e conseguiu o transplante. Nunca foi chamado para a fila em que entrou na época. Com o tempo, a visão voltou a ficar defasada e ele recomeçou os tratamentos. Ainda assim, precisou de outro transplante e, para sua surpresa, ficou apenas 35 dias na fila. “O processo evoluiu demais, está bem mais rápido”, afirmou. Cristiano diz ainda que teve a sorte de encontrar alguém compatível para a doação, com idade parecida. Ele passou pela cirurgia em agosto, quando a fila já havia começado a cair novamente, e está em recuperação.
Outros órgãos
A redução da fila por córnea não reflete a realidade dos órgãos sólidos – coração, fígado, pâncreas, pulmão, rim e rim/pâncreas. Segundo o coordenador metropolitano do MG Transplantes, Omar Lopes Cançado Júnior, a captação desses órgãos oscila muito e o tempo para retirada é mais curto. São feitas cerca de 20 doações de múltiplos órgãos por mês em Minas. “Coração e pâncreas precisam ter doadores mais jovens, com menos chances de ter patologias. O pulmão é o mais difícil porque tem uma quantidade muito pequena de possibilidade de doação.” O rim é o órgão que tem fila mais extensa, segundo Omar, por ter também maior quantidade de doenças associadas a ele.
EVOLUÇÃO
Mês Transplantes Lista de espera
Agosto/2012 131 147
Setembro/2012 92 108
Outubro/2012 102 109
Novembro/2012 123 108
Dezembro/2012 73 121
Janeiro/2013 97 157
Fevereiro/2013 103 182
Março/2013 99 221
Abril/2013 136 187
Maio/2013 118 151
Junho/2013 114 153
Julho/2013 150 125
Fonte: MG Transplantes

