Publicidade

Estado de Minas

Tradição cultural dos invernos de Ouro Preto

Há 46 anos, mesmo a contragosto de padres e da comunidade católica, Ouro Preto se tornou palco dos encontros culturais de inverno da UFMG, que se espalharam pelo estado


postado em 20/07/2013 06:00 / atualizado em 20/07/2013 07:00

Há 13 anos o festival está em Diamantina e leva para a cidade várias oficinas e eventos culturais(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press - 18/7/08)
Há 13 anos o festival está em Diamantina e leva para a cidade várias oficinas e eventos culturais (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press - 18/7/08)

 

“Maconheiros e pervertidos.” Os dois termos, nada lisonjeiros, ainda mais se tratando de 1971, eram o que mais se ouvia nos sermões das missas dominicais da tradicional Ouro Preto quando quem estava em questão eram Judith Malina, Julian Beck e outros integrantes do Living Theatre, grupo de teatro de vanguarda criado em Nova York. Haviam chegado ao Brasil no ano anterior – primeiramente foram ao Rio, depois a São Paulo – em busca das “ideias e vitalidade do Terceiro Mundo”. No Teatro Oficina, de José Celso Martinez, conheceram o ator mineiro Paulo Augusto Franzen de Lima, que lhes garantiu, naquele ano, que a cidade histórica seria o cenário ideal para o desenvolvimento de sua arte. Era o início dos festivais de inverno, que anos mais tarde se espalharam por várias cidades do estado.

“Ocuparam duas casas e começaram a fazer, durante meses, um trabalho com os jovens. Fizeram muitas amizades (davam aulas de ioga para as crianças, por exemplo), mas a cidade começou a se sentir hostilizada com a presença deles”, relembra Júlio Varela, então diretor-executivo do Festival de Inverno da UFMG. Como a época do evento estava se aproximando, Malina e Beck não tardaram a fazer uma proposta para a organização. A ideia era apresentar o espetáculo o Legado de Caim, intervenção que tomaria as ladeiras da cidade. “O cachê era um pouco elevado e o festival, com receio de alguma confusão, não aceitou a proposta. Os padres da cidade estavam contrariadíssimos com a presença deles”, acrescenta Varela.

Em 1º de julho, poucos dias antes do início da quinta edição do evento, Malina, Beck e os demais integrantes do Living Theatre foram presos – a acusação era posse de maconha – e levados para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte. Alguns foram soltos dias mais tarde. Porém, os dois fundadores do Living Theatre, além de outros atores, ficaram presos quase dois meses nos porões de um prédio no alto da Avenida Afonso Pena. “Tinha 25 anos. Foi tudo muito de repente. O Dops estava na nossa casa, jogando coisas para todos os lados. Havia vários policiais com diferentes uniformes, um cão farejador”, afirmou o ator Tom Walker ao Estado de Minas quando voltou a Ouro Preto, em 2011, para participar do Fórum das Letras. O Living Theatre só deixou o país em agosto, quando o então presidente da República, o general linha-dura Emílio Garrastazu Médici, expulsou por meio de decreto.

Na época, a repercussão foi mundial. “Todos os jornais falavam do trauma causado pela prisão”, relembra Varela. A pressão internacional também foi fortíssima. Houve inclusive um documento assinado por John Lennon, Pier Paolo Pasolini, Marlon Brando e Salvador Dalí pedindo sua soltura. A acusação inicial, uso de drogas, nunca ficou clara. O que se sabe era que a filosofia do grupo – pautado nos preceitos da contracultura, pregava, entre outras coisas, o amor livre e a vida em comunidade – incomodava ao extremo a ditadura militar, na época em seu período mais duro.

“Aqui estou na minha cela. Não sinto desconforto. Se sentisse, iria queixar-me? Mas não sinto e posso ser franca. O rádio toca Tchaikovsky. Larguei a edição, em português, da Ilíada, que estou lendo com o auxílio de um dicionário, e tento lembrar o que aconteceu, o que está acontecendo. E tento não pensar no que acontecerá”, escreveu Malina em 9 de julho de 1971. Onze dias mais tarde, o sentimento foi bem diferente. “Digo a mim mesma: é parte do trabalho; para de condoer-se de si mesma; os outros é que estão sofrendo, você não. E sei que é verdade. E me esforço, mas nada, tenho esta fraqueza.” De junho a agosto de 1971, o EM veiculou trechos do diário de Malina. Em 2008, o material foi compilado no livro Diário de Judith Malina – O Living Theatre em Minas Gerais, editado pela Secretaria de Estado de Cultura.

Malina voltaria ao Brasil muito tempo mais tarde. Vinte e dois anos após sua prisão – Beck morreu em 1985 –, ela foi convidada para retornar a Ouro Preto ao lado de outros atores. Finalmente, o Living Theatre participou do Festival de Inverno da UFMG.


45ª EDIÇÃO EM DIAMANTINA
Começa amanhã, em Diamantina, a 45ª edição do Festival de Inverno da UFMG. Com o tema “Bem comum”, o evento está organizado em torno de três tipos de atividades: espetáculos, coletivos (oficinas) e itinerâncias (intervenções pela cidade). O evento termina dia 28 e a parte artística será aberta na noite deste domingo, no Largo da Quitanda, com o Coral Trovadores do Vale e a cantora paraense Dona Onete. Toda a programação é gratuita. Informações: www.45festivalufmg.wordpress.com.


LINHA DO TEMPO
1967 – Grupo da Escola de Belas Artes da UFMG cria, em Ouro Preto, o Festival de Inverno da UFMG
1971 – Integrantes do Living Theatre são presos às vésperas da quinta edição do festival
1975 – Oficina do bailarino argentino Oscar Araiz, numa edição do evento, inspira Rodrigo Pederneiras a criar o Grupo Corpo
1978 – Músicos do Uakti se conhecem durante festival em Ouro Preto. Artur Andrés participa desde os 16 anos
1992 – Belo Horizonte foi cenário para o Festival de Inverno da UFMG. Na década de 1980, São João del-Rei e Poços de Caldas também receberam o evento
1993 – Judith Malina retorna a Ouro Preto como convidada e homenageada do festival 20 anos após sua prisão na cidade
2000 – Festival de Inverno, a partir da 32ª edição, se fixa em Diamantina


Publicidade