(none) || (none)
UAI
Publicidade

Estado de Minas

Separação sofrida para donos de pássaros silvestres em Minas

Animais silvestres entregues ao Ibama se adaptam melhor ao novo ambiente do que os antigos criadores à ausência. Muitos até ligam para saber como os bichos estão ou tentam visitá-los


postado em 02/10/2012 06:00 / atualizado em 02/10/2012 06:48

Só este ano, já foram entregues 1.149 animais ao Ibama, a maioria aves. Perfil da doação mudou: raramente eram bichos que viviam em casa como é hoje(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Só este ano, já foram entregues 1.149 animais ao Ibama, a maioria aves. Perfil da doação mudou: raramente eram bichos que viviam em casa como é hoje (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


A família se sentou em volta da mesa e, enlutada, decidiu entregar Leco, Lourinho e Pitico. “Minha mãe até chorou. Combinamos que, sempre que sentirmos falta, vamos pensar no bem-estar deles. Isso vai nos dar força”, conta a pedagoga Aline Campos, de 39 anos. Leco e Lourinho são dois papagaios de 30 e 15 anos, respectivamente. Pitico é um periquito de 10. Ontem, os três foram deixados no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “Eles viviam sem liberdade, sentiam falta de companhia. Vai ser melhor”, consola-se Aline.

Nas últimas duas semanas, o número de pessoas que, voluntariamente, decidiram deixar seus bichos silvestres aos cuidados do Ibama aumentou muito em Belo Horizonte. A média de entregas, que foi de 3,2 animais por dia entre janeiro e agosto deste ano, saltou para 21 desde 15 de setembro, quando foi lançada a campanha Minas sem gaiolas, que incentiva a população a entregar, sem qualquer punição, aves de origem ilegal mantidas em cativeiro. O total dos primeiros nove meses de 2012 já soma 1.149 animais – aves, em sua maioria –, 15% a mais que os 986 confiados ao instituto em todo o ano passado.

O perfil dos doadores também mudou, segundo o coordenador do Cetas, Daniel Vilela. Antes, os animais quase nunca pertenciam ou viviam com as pessoas que os entregavam. “Eram mais bichos encontrados por acaso, com algum tipo de debilidade”, diz Vilela. Agora, eles “fazem parte da família”, como diz a pedagoga Aline. Apesar de viverem em gaiolas sempre abertas, penduradas em árvores do quintal, Leco, Lourinho e Pitico nunca tentaram fugir. Tinham as asas inteiras, mas desaprenderam a voar. Desciam as árvores com a ajuda dos bicos, andavam pelo terreiro, comiam verduras na horta e voltavam a seus poleiros.

“Nunca tiveram correntinha no pé. Eram de vir no ombro, no dedo. Brincavam muito, gritavam”, relata Aline. Com o tempo, ela e os pais, que moram em uma casa no Bairro Alípio de Melo, Região Noroeste da capital, perceberam que os bichos deveriam deixar o ambiente doméstico. “A gente não tinha noção de que era ruim para eles, mas depois reparamos na solidão. Por serem de espécies diferentes, os três não se entrosavam”, aponta. No Cetas, a pedagoga descobriu que Lourinho é um papagaio-chauá –cujo nome científico é Amazona rhodocorytha –, espécie em extinção. Ela animou-se ao ver onde as aves seriam deixadas. “No Ibama, tinha um monte de papagaios gritando, felizes.”

Assim como outros doadores, Aline pediu para visitar os bichos de vez em quando, mas Vilela explicou que não seria possível. “O animal tem que se desvincular do ambiente doméstico. Quanto menos ele ver o antigo dono, melhor”, justifica o coordenador do Cetas. Inicialmente, os novos inquilinos passam um tempo em gaiolas e viveiros da instituição. Depois, são encaminhados a viveiros maiores no Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) do Ibama, em Nova Lima, Região Metropolitana de BH. Afinal, vão para alguma das cerca de 80 áreas de soltura espalhadas pelo estado, a maior parte delas dentro de fazendas particulares.

“A seleção da área de soltura é uma etapa muito importante. Não pode ficar muito próxima a áreas urbanas, onde alguém pode recapturar os animais”, diz Vilela. As áreas mais isoladas costumam ser destinadas a animais mais acostumados ao convívio com humanos, para evitar que cedam à tentação de abdicar da liberdade. “Com o tempo adaptam-se aos bandos selvagens, acasalam-se”, conta o coordenador do Cetas. Porém, alguns bichos demoram a esquecer hábitos domésticos, como a vocalização, no caso dos papagaios. “Nos primeiros dias, alguns falam muito, dizem nome de time de futebol, cantam música da Xuxa”, conta.

Estresse
No Ibama, os bichos passam por exames clínicos, físicos e comportamentais. Alguns chegam cegos, com patas quebradas, bicos deformados e até obesos. É normal que as aves apresentem sinais de automutilação, como o ato de arrancar as próprias penas. Uma arara vermelha, por exemplo, foi entregue com o peito quase nu. “Essa arara está se automutilando há anos. Isso é causado pelo estresse. São animais muito gregários, não gostam de ficar sozinhos”, explica Vilela. Por causa dos problemas que apresentam, alguns animais não conseguem viver na natureza e precisam continuar em cativeiro.

Nenhum bicho entregue nas duas últimas semanas morreu, segundo o Cetas. Tampouco mostraram sinais de saudade ou tristeza por terem sido separados de seus donos. “Muita gente nos liga para saber da situação do bicho, fica com muito medo de os bichos terem problema psicológico, mas eles passam bem. Ficam muito melhor interagindo com outros animais do que em casa de família”, aponta Vilela. Apesar disso, muita gente chora na hora da despedida. “Dá dó demais. A pessoa sente muito mais que o animal”, diz.

Ontem, depois de alguns dias de hesitação, Elizabeth Santiago, de 49, finalmente tomou coragem para ligar para o Cetas. Pretende entregar a maritaca Neguinha. “Ela mora conosco há uns 15 anos. Vai fazer falta demais, mas, como está sendo levada ao lugar certo, fico mais tranquila. Ela vai viver solta, com outros bichinhos iguais a ela”, diz Elizabeth, que trabalha como artesã, confeccionando bijuterias. No quintal dos fundos, Neguinha mora em um viveiro cuja porta nunca se fecha. “Quando a gente varre, ela grita acompanhando o barulho da vassoura. Assovia quando quer chamar nossa atenção. A gente dá um biscoito, ela pega com o bico, molha na água e come. Eu brinco e converso com ela o tempo todo”, descreve. Ao falar sobre a ave, Elizabeth volta a hesitar, mas conclui: “Deixa pra lá, tenho que entregar mesmo”.

O que diz a lei

Os artigo 29 da lei federal nº 9.605, de 1998 — a Lei dos Crimes Ambientais —, prevê multa mais detenção de seis meses a um ano para quem “matar, perseguir, caçar, apanhar” ou tiver em casa animais silvestres sem a devida autorização. Por sua vez, o artigo 24 do decreto nº 6.514, de 2008, estabelece que a multa pode variar de R$ 500 a R$ 5 mil, valor máximo que se aplica se o animal estiver em extinção.

Alzira e Alcides ainda juntos

(foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press - 3/7/08 )
(foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press - 3/7/08 )
Em 2008, o Estado de Minas contou a história da dona de casa Alzira Marques Ferreira, de 78 anos, e seu papagaio Alcides, ao seu lado por mais de 20 anos. Na época, após denúncia anônima, ela recebeu de técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a determinação para que a ave, da fauna silvestre brasileira, fosse entregue para um núcleo reprodutor. Dona Alzira, moradora do Barreiro, em Belo Horizonte, argumentou com os técnicos que o papagaio pousou em seu quintal com as asas machucadas e seu marido já falecido cuidou dele. O drama da idosa chamou atenção da Defensoria Pública da União, que entrou com ação anulatória contra o Ibama, considerando que o animal poderia morrer se fosse entregue ao órgão, além de que a ausência do papagaio traria consequências graves para a saúde da dona de casa. Hoje, a idosa comemora o fim do risco de perder seu companheiro. Uma decisão da juíza federal Ângela Catão Alves autorizou a guarda de Alcides, ave que pertence à espécie chauá (Amazona rhodocorytha). “Foi um alívio, pois não consigo ficar longe de meus bichinhos, principalmente o Alcides.” Nos últimos anos, dona Alzira já adotou dois cachorros de rua – agora tem quatro no total –, ganhou um casal de calopsita e construiu um galinheiro. Quanto ao Alcides, entre outras gracinhas, aprendeu imitar os vendedores ambulantes de vassoura e rodo, além de responder ao chamado dos vizinhos. (Landercy Hemerson)


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)