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Estado de Minas

Conheça a história na intimidade dos quintais mineiros

Espaço na parte de trás das casas do século 18 e 19 era usado para práticas de escambo, comercialização, plantação de frutas e verduras e principalmente encontro dos moradores


postado em 04/08/2012 06:00 / atualizado em 04/08/2012 07:10

"Os quintais eram os chamados vazios verdes da cidade, importantes para arejar o casario e impedir a degradação da madeira usada nas construções" - José Newton Coelho Meneses, professor de história da UFMG (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Em suas viagens pelo Brasil, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) ficou impressionado com os quintais das casas mineiras. No Arraial do Tejuco, atual Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, ele viu bananeiras, pessegueiros, jabuticabeiras, laranjeiras e outras frutíferas, chamadas na época de “plantas de espinho”. Mais tarde, numa segunda visita a São João del-Rei, no Campo das Vertentes, o francês se surpreendeu com a quantidade de pés de maçã, pera, damasco e abricó nos espaços domésticos. Já o inglês John Mawe (1764-1829) registrou a presença, na capitania, de todo tipo de hortaliça: alcachofra, aspargos, espinafre, repolho, feijão e batata. “E foi assim com todos os viajantes estrangeiros que passaram por aqui, sempre admirados e destacando a importância dos quintais”, diz o professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) José Newton Coelho Meneses, autor do recém-concluído trabalho Os quintais mineiros nos séculos 18 e 19.

Envolvido há dois anos e meio em pesquisas, inventários post mortem, narrativas dos europeus em viagem ao Brasil, documentos das câmaras e literatura memorialista, José Newton conta que os quintais eram áreas de produção das famílias, com horta, árvores frutíferas, canteiros de ervas medicinais e de especiarias para temperos, criação de animais (chiqueiros e galinheiros) e, muitas vezes, moinhos d’água para produção de fubá, moenda de cana e paiol, onde se guardava o milho. “Eles abasteciam a casa e havia uma perfeita integração com a cozinha, significando quase um complemento dessa parte da residência.” Outra característica estava na socialização com a vizinhança, mediante troca de produtos no sistema de escambo, embora não fosse descartada a comercialização no caso de excedente de verduras, ovos, carne e outros alimentos. Na verdade, as famílias desfrutavam de goiabas, jabuticabas e outras o ano todo, pois as aproveitavam no pé, na safra, e nos outros meses, a partir do preparo de compotas, licores e geleias guardados por um bom tempo.

Aquarela feita em 1817 pelo austríaco Thomas Ender mostra os quintais de Mariana e, no canto à esquerda, o Seminário da Boa Morte e seus jardins(foto: Reprodução)
Aquarela feita em 1817 pelo austríaco Thomas Ender mostra os quintais de Mariana e, no canto à esquerda, o Seminário da Boa Morte e seus jardins (foto: Reprodução)


Uma aquarela feita em 1817 pelo austríaco Thomas Ender mostra a primeira cidade de Minas, Mariana, antiga Vila do Ribeirão do Carmo. “O artista fez questão de retratar os quintais em primeiro plano num contraponto com o Seminário da Boa Morte, o pioneiro para formação de padres, que aparece no canto à esquerda e tinha jardim. Há uma diferença nítida entre os espaços, a qual foi anotada pelos estrangeiros. Enquanto os jardins tinham uma simetria, com boa distribuição das flores e folhagens, os quintais das casas eram desorganizados, sem obedecer a uma divisão específica. Não raro, a cozinha ficava fora da casa e bem próxima da horta, facilitando assim o trabalho no dia a dia”, diz o professor, lembrando que, acima de tudo, os quintais eram espaços de relações humanas, domesticidade e contatos entre os moradores. “Trata-se de uma parte da casa fundamental para entender a cultura setecentista e oitocentista de Minas. E mais: os quintais eram os chamados vazios verdes da cidade, importantes para arejar o casario e impedir a degradação da madeira usada nas construções.”

Das mulheres

Nesse ambiente, a mulher reinava absoluta, mandando e desmandando. “O quintal era o espaço feminino e elas exerciam poder total. Determinavam que era hora de apanhar a couve para o almoço, matar a galinha para o jantar, fazer a limpeza do chiqueiro e pegar as ferramentas, além de destinar os momentos do dia para as brincadeiras e educação das crianças”, explica José Newton. Ele observa ainda que, no século 18, principalmente, o interior da casa era restrito às famílias, tanto que o quarto dos hóspedes se localizava perto da varanda da frente. Dessa forma, estranhos não entravam nem na cozinha muito menos no terreno atrás da casa.

Paisagista Leonardo Lessa tem orgulho do terreno de 2,6 mil metros quadrados conservado pela família em Sabará(foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Paisagista Leonardo Lessa tem orgulho do terreno de 2,6 mil metros quadrados conservado pela família em Sabará (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Se era essencial à economia doméstica, o quintal, palavra que vem das “quintas” de Portugal, também tinha, ao mesmo tempo, relevância como bem público. Isso ficava claro no abastecimento de água, que chegava às casas a partir dos chafarizes. “A água passava dentro dos quintais, em pequenos canais. Cabia então, à família, por determinação do governador da capitania, zelar pela sua conservação e limpeza, impedindo o acesso de animais e demais fatores de contaminação. Havia fiscalização constante por parte das autoridades e punição para quem desrespeitasse, já que a lei dizia que “a água que passa pelo seu quintal não é sua. É pública”. Essa situação só mudou mesmo no século 19 com as políticas de higienização, para evitar doenças de veiculação hídrica e surgimento dos serviços de abastecimento.

Em muitas cidades coloniais mineiras, moradores conservam as características originais dos quintais. Em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o paisagista Leonardo Lessa preserva a casa do século 18 que está com a sua família há 160 anos, desde que foi comprada da Igreja. Ao lado de um muro de pedras, ele cultiva canteiros com plantas medicinais e temperos, que um dia já foram cercados de água, como nos primórdios, para impedir o ataque das formigas. “Hoje, com a dengue, essa prática é impossível”, esclarece o paisagista. Orgulhoso do terreno com 2,6 mil metros quadrados, vizinho da Igreja de São Francisco, Léo Lessa, como é conhecido, mostra o pé de jatobá e mais de 30 jabuticabeiras, muitas delas centenárias e plantadas pelo bisavô José Magalhães Barbosa.

Ao subir no tronco da jabuticabeira mais velha, “que já está com os galhos envergando e dá frutos deliciosos”, Léo Lessa revela que algumas delas têm nome. “O meu bisavô ia plantando as árvores enquanto minha avó batizava as frutíferas com o nome dos filhos”, afirma o paisagista, que, junto com a mulher e os filhos adolescentes, vive recebendo amigos e turistas para conhecer cada pedacinho desse patrimônio natural da família. 

 

Quintais do século 18 e 19 era usado para práticas de escambo, comercialização, plantação de frutas e verduras e principalmente encontro dos moradores(foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Quintais do século 18 e 19 era usado para práticas de escambo, comercialização, plantação de frutas e verduras e principalmente encontro dos moradores (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)

Símbolo das gerais
José Newton Meneses vai mostrar em um seminário em Diamantina este mês a visão de alguns viajantes estrangeiros no século 19 a respeito dos quintais mineiros e arraiais. Sobre o Tejuco, o inglês John Mawe escreveu que era um aglomerado urbano “no declive de uma montanha, irregularmente construído. As ruas são desiguais, mas as casas em regra são benfeitas e bem conservadas, em comparação com outras cidades do interior”. Os quintais das casas, observados por ele, são abundantes de “laranjas, abacaxis, pêssegos, goiabas e existe uma variedade de frutas indígenas, doces e ácidas, principalmente a jabuticaba (foto), cheia de substância mucilaginosa”. Neles, ainda, “o gengibre e a pimenta crescem espontaneamente e com certeza cultivam-se várias especiarias com resultado”. José Newton esclarece que a jabuticaba (“indígena”, no dizer do viajante), fruta da jabuticabeira (Myrcia cauliflora), é de origem sul-americana, espontânea em grande parte do Brasil, com maior frequência em Minas. “A jabuticaba do quintal continua como marca simbólica das regiões centrais de Minas e a fruta denota forte expressão da cultura doméstica mineira”, ressalta o professor.

 
Linha do tempo

Século 18 – Torna-se prática comum fazer pequenos canais com água em volta de árvores frutíferas dos quintais e plantas dos jardins, para impedir ataque de formigas
1747 – Em 3 de janeiro, o carcereiro de Vila Rica, António de Serqueira, pede à Câmara permissão e providência para construir, no quintal da cadeia, uma enfermaria para presos doentes
1750 – Com o crescimento das vilas mineiras, muitos moradores pedem à Câmara licença para pôr cerca em seus quintais
1784 –Mapa do Arraial do Tejuco, atual Diamantina, feito pelo cartógrafo português António Pinto de Miranda, mostra a paisagem urbana dominada pelos quintais
1809 –Viajante inglês John Mawe encontra em Minas hortaliças de todo tipo, a exemplo de alcachofra, aspargos, espinafre, repolho, feijão e batata
1815 – A partir deste ano, todos os estrangeiros que passam por Minas fazem referência aos quintais e sua importância
1817 – Botânico francês Auguste de Saint-Hilaire registra a presença de laranjeiras, bananeiras, pessegueiros, jabuticabeiras e outras frutíferas nas casas do Arraial do Tejuco
1819 – Saint-Hilaire volta a São João del-Rei, três anos depois de sua primeira visita, e se surpreende com a quantidade de pés de maçã, pera, pêssego, damasco e abricó nos quintais


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