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Estado de Minas

Seminário de Mariana chega aos 262 anos com os mesmos valores e novos horizontes

O Seminário é a mais antiga instituição de formação religiosa do Brasil . Ex-alunos festejam com homenagens essa eterna vocação para o ensino em Minas Gerais


postado em 14/07/2012 06:00 / atualizado em 14/07/2012 07:04

Turma de 1959 do Seminário Menor com os padres lazaristas sentados à frente e os meninos, de batinas pretas, de pé(foto: beto novaes/em/d. a press/Reprodução)
Turma de 1959 do Seminário Menor com os padres lazaristas sentados à frente e os meninos, de batinas pretas, de pé (foto: beto novaes/em/d. a press/Reprodução)
Mariana – Errando discitur. O velho provérbio em latim ensinou muito ao administrador de empresas Helvécio Antônio da Trindade, de 66 anos, estudante entre 1958 e 1963 do Seminário de Mariana, o primeiro de Minas e mais antigo do país em funcionamento, com atividades ininterruptas desde 1750. Ao receber dos padres o ensinamento de que “errando se aprende”, ele entendeu bem o significado da expressão que norteou os seus caminhos pela vida e procurou acertar ao máximo. “Os cinco anos em que fiquei interno foram fundamentais para a minha formação humana e profissional. Todos os estudantes que passaram por lá, e se tornaram padres ou não, são resultado dos valores éticos, morais, culturais e religiosos difundidos pela instituição”, afirma Helvécio, presidente da Associação dos Ex-alunos dos Seminários de Mariana (Aexam). Hoje, turmas de várias gerações participam do tradicional encontro anual, com destaque para homenagem aos padres lazaristas que trabalham na casa e lançamento, às 17h, do livro Como se faz um bispo segundo o alto e baixo clero, do jornalista J. D. Vital, com um capítulo dedicado à instituição. (Leia mais hoje no caderno Pensar)


Com permanente vocação para o ensino e 262 anos de história, que se completam em 20 de dezembro, o seminário, batizado inicialmente de Nossa Senhora da Boa Morte, foi fundado pelo primeiro bispo da Diocese de Mariana, dom frei Manuel da Cruz (1690-1764). No princípio, estiveram à frente da instituição os jesuítas, até assumirem o posto em 1853 os lazaristas, a convite do bispo dom Antônio Ferreira Viçoso (1787-1875). “Os lazaristas ficaram até 1996. No ano seguinte, a direção passou aos padres arquidiocesanos”, conta o reitor-geral, padre Lauro Sérgio Versiani Barbosa, lembrando que, nesse período, houve transformações na estrutura física, como a construção de um prédio para receber os seminaristas e cessão do primitivo, em comodato, à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), que instalou o Instituto de Ciências Humanas e Aplicadas (ICHS).


Em 1934, o arcebispo dom Helvécio Gomes de Oliveira, por solicitação do Vaticano e decidido a melhorar as acomodações para os estudantes, desmembrou o seminário em dois institutos: o Seminário Menor Nossa Senhora da Boa Morte e o Seminário Maior São José, que acolheria os alunos dos cursos de filosofia e teologia. Em 1991, por sugestão da primeira assembleia dos presbíteros da arquidiocese, o arcebispo dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006) separou os cursos de filosofia e teologia, passando o segundo a funcionar no prédio construído por dom Oscar de Oliveira.

Pioneiro
Para conhecer melhor essa longa trajetória religiosa e educacional, que inclui os seminários Menor (ensinos fundamental e médio) e Maior (superior), nada melhor do que ver bem de perto as duas construções, no Centro Histórico da cidade, ambas em excelente estado de conservação. A pioneira, erguida no século 18 e hoje ocupada pela universidade, chama a atenção pelo relógio frontal, as linhas singelas, a fachada pintada de azul e branco e uma atmosfera tranquila que remete aos tempos coloniais. O espaço abriga a chamada Sala da Estrela, um dos pontos de encontro dos inconfidentes mineiros. Já na Rua Cônego Amando, domina a paisagem o edifício datado de 1934, cercado de palmeiras e dono de uma capela com belas pinturas parietais no forro. Nesse prédio, funciona o Seminário Maior São José, que oferece o curso de teologia (formação de padres). O curso de filosofia foi transferido para um prédio na Rodovia dos Inconfidentes, onde antes estava o ensino fundamental e médio.


“Um dos pontos mais importantes da história do Seminário de Mariana é que atualmente todos os padres da arquidiocese, num total de 79 religiosos, se formaram aqui”, diz o diretor acadêmico, padre Danival Milagre Coelho, prata da casa com muito orgulho. Ele adianta que em 4 de agosto haverá festa para homenagear os padres jubilares que completam 25, 50, 60 ou 70 anos de sacerdócio. Por mais de dois séculos e meio, a instituição formou grandes personalidades, como historiadores, empresários e políticos, entre eles o presidente da República Delfim Moreira (1868-1920); Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo, o barão Homem de Melo; o cônego Luiz Vieira da Silva, um dos expoentes da Inconfidência Mineira; os cardeais dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, dom Lucas Moreira Neves e dom Raymundo Damasceno de Assis e o acadêmico e poeta Alphonsus de Guimaraens.

Memórias

Na parede do seu escritório no Bairro Cidade Jardim, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, o ex-seminarista Helvécio, que trabalha no mercado imobiliário, mantém uma pintura retratando o prédio antigo do Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte, para onde foi estudar aos 11 anos. Na tela do computador, ele armazena a foto da turma de 1959, com os padres lazaristas à frente e os meninos, de batinas pretas, sentados na escadaria ou de pé. No coração do homem, estão as lembranças de muito estudo e atividades. “Aprendi muito bem português, tinha aulas de latim, grego e até hebraico. Era uma época de confinamento, pois estava interno, mas fui preparado para o futuro”, diz Helvécio. A pontualidade, por exemplo, se tornou muito forte na sua vida. “Fui sineiro do seminário, então não podia perder a hora”, brinca.

 

Jovens preparados para novos tempos

O processo de formação de padres no Seminário de Mariana se desenvolve hoje em quatro etapas. O primeiro está no
Grupo de Orientação Vocacional (GOV), que acompanha os jovens no período do ensino médio, nas modalidades externo e interno, sendo quem os segundos integram a Comunidade Vocacional na Basílica São José, em Barbacena, na Região Central. Depois, tem o Propedêutico, instalado na Paróquia do Bom Pastor, em Barbacena, que recebe os candidatos que concluíram o ensino médio e os prepara para a sequência do processo formativo: o curso de filosofia, com duração de três anos, na Faculdade Arquidiocesana Dom Luciano Mendes de Almeida; e o de teologia, etapa final da formação presbiterial, com quatro anos de duração, no Instituto de Teologia do Seminário São José. 

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