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Estado de Minas

Uma história dedicada às artes em BH

Às vésperas de completar 50 anos, Fundação de Educação Artística da capital renova proposta de formar gerações e levar arte de qualidade à população de Minas


postado em 30/06/2012 06:00 / atualizado em 30/06/2012 07:05

"O importante é não termos nos afastado da proposta inicial: oferecer algo alternativo ao ensino formal de música, autônomo, dando oportunidade a todos" - Berenice Menegale, presidente da FEA (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)


O desejo de fundar uma instituição capaz de difundir o ensino de música de maneira ampla e livre levou à criação, em 1963, da Fundação de Educação Artística (FEA), em Belo Horizonte. Quase 50 anos após a proposta inicial sair do papel e com diversos feitos no currículo, a missão permanece. “Não vejo a fundação como obra acabada. Há muitos sonhos e ideias a serem feitas. O importante é não termos nos afastado da proposta inicial: oferecer algo alternativo ao ensino formal de música, autônomo, dando oportunidade a todos”, salienta Berenice Menegale, idealizadora e atual diretora executiva.

Então com 29 anos, Berenice, ao lado de um grupo de amigos, idealizou a fundação na época com uma tríplice vocação: educacional, social e cultural. Dentro da perspectiva propôs, desde o início, ações de valorização destes aspectos, tanto na democratização do ensino de música quanto no incentivo à criação artística. As atividades permanecem, tendo como centro difusor a sede da instituição, localizada na Rua Gonçalves Dias, 320, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul da capital, onde estão, além de salas de aulas e biblioteca, um teatro com capacidade para 180 lugares. No local, semanalmente são realizados eventos como a tradicional série Manhãs musicais, aos domingos, às 11h.

A entidade sem fins lucrativos, fora do âmbito governamental, é rara em longevidade no cenário nacional. “Esta autonomia custa caro. Apesar de não termos subvenções públicas, há outras coisas que compensam: aqui podemos experimentar a qualquer momento as idéias que surgem. No poder público não é possível porque toda proposta esbarra nas instâncias burocráticas. As propostas se não forem atendidas com urgência podem passar”, compara ela, que, entre outras coisas, já exerceu cargos públicos como o de secretária municipal e de Estado da Cultura.

Inovação

Como viveu os dois lados, Berenice lembra que o surgimento na Fundação de Educação Artística de grupos importantes para a cultura nacional, como a Oficina Multimédia e o Uakti, só foi possível porque rapidamente as ideias encontraram ambiente propício para se tornar realidade. Se fosse no poder público, dificilmente sairiam do papel.

O clima de liberdade e a democratização do ensino musical marcaram época na FEA. Reconhecida dentro e fora do Brasil pelo trabalho de difusão da música brasileira e latino-americana, assim como estímulo aos jovens compositores, ela tem priorizado aspectos e valores menos atendidos pelos meios tradicionais e a mídia.

Além dos espetáculos e eventos abertos à comunidade em geral, no campo pedagógico, tem exercido um papel fundamental no processo de renovação do ensino, incentivo à experimentação e à criação. Na área da responsabilidade social, desde às origens, desenvolve programa profissionalizante em favor da comunidade carente de Belo Horizonte e região. As escolhas, mesmo com resultados evidentes na cultura local, tem levado a instituição a enfrentar vários desafios para manutenção.

O desafio de novos apoios

Com uma trajetória de déficit orçamentário, a FEA luta, a cada dia, por alternativas para continuar difundindo sua missão. “Toda aula de instrumentos é deficitária porque são individuais ou em pequenos grupos. A manutenção diária de um centro cultural como este é cara”, justifica. O desafio continua sendo o de buscar condições melhores de permanência das atividades e o de manter e ampliar o número de bolsas. “Elas são importantes. Os alunos que nos procuram sem condições de pagar pelo aprendizado, com esta vocação para ser músico, geralmente se tornam nossos melhores”, diz. Hoje cerca de 25% dos 400 estudantes atendidos são bolsistas.

A aproximação com o aniversário dos 50 anos da fundação – ela foi criada em 8 maio de 1963 – é mais um momento no qual se tentará colocar em prática vários projetos. Sobretudo de melhoria das condições físicas e modernização; de difusão e organização do precioso acervo, composto por documentos e gravações; exposições; lançamentos de livros e eventos. “Pretendemos realizar uma nova edição de um encontro latinoamericano, com foco na música contemporânea e na música de câmara”, adianta.

O maior desafio das comemorações será o de conquistar mais apoios para as atividades. “Queremos realizar uma campanha para conquistar mantenedores que possam, inclusive, como pessoas físicas ou jurídicas, nos ajudar a diminuir o déficit.” Outra meta é a aquisição de um novo piano. O custo é alto, cerca de R$ 250 mil. “O que temos serviu não só a nós como a toda a cidade durante anos. Foi um piano maravilhoso, mas está desgastado.”

A tarefa de manter uma instituição deficitária e não arredar um milímetro da vocação inicial não desanima Berenice. “Não é brincadeira, não. Vivemos deficitários porque o que fazemos não cabe no orçamento.” Enquanto a instituição continuar formando gerações e levando arte de qualidade aos mineiros, as dificuldades parecem não a abatê-la.

Linha do tempo

1963: A Fundação de Educação Artística é criada por um grupo de pessoas ligadas às artes, descontentes com o ambiente musical tradicionalista e desatualizado de Belo Horizonte

1968: Depois de permanecer o tempo inicial numa casa alugada, na Avenida Bias Fortes, a fundação passa para sede própria, na Rua Gonçalves Dias, 320, no Bairro Funcionários. Os professores se engajaram na causa doando os próprios salários para a aquisição do imóvel.

1974: Para dar conta do crescimento das atividades é construído o Teatro Heloísa Guimarães. O período é marcado ainda pela criação da Orquestra de Câmara, pelo surgimento do Grupo Oficcina Multimédia e pela realização das oficinas de construção de instrumentos, origem do grupo Uakti.

1989: A queda do número de alunos leva a instituição a viver o período mais difícil. Cursos e atividades foram interrompidos e a maior parte dos funcionários e professores demitidos. Gradualmente a instituição voltou a ampliar as atividades.

1997: É inaugurada a nova sede. Nasceu como contrapartida do terreno cedido para construção de um edifício. A sede surge moderna, atendendo às novas demandas da instituição, inclusive com teatro com isolamento termoacústico.

2002: A repercussão do 4º Encontro de Compositores e Intérpretes Latino-Americanos, um dos eventos de maior expressão realizados pela FEA, deveu-se em grande parte à funcionalidade da nova sede. Dezessete concertos, mesas-redondas, oficinas e seminários foram realizados.

2012: A instituição mantém a proposta original de difusão musical. Como até 25% da receita é aplicada em bolsas de estudos, a instituição se mantém deficitária. Continua dependendo da problemática captação de doações e patrocínios para sua manutenção e permanência.

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