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Estado de Minas

Coleção de ex-votos mostra cenas do cotidiano de Minas no século 18


postado em 02/06/2012 06:00 / atualizado em 02/06/2012 07:06

As 72 pinturas em metal e madeira, 36 esculturas corporais, 26 medalhas e 210 santos de casa ficarão em memorial perto do Santuário de Matosinhos(foto: FOTOS: EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS )
As 72 pinturas em metal e madeira, 36 esculturas corporais, 26 medalhas e 210 santos de casa ficarão em memorial perto do Santuário de Matosinhos (foto: FOTOS: EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS )


No tempo em que não havia especialidades médicas, eram os santos que davam jeito nos males, doenças e fragilidades do corpo. Quem padecia com fortes dores de cabeça, via a morte de perto ao ser atingido por uma bala, se desesperava diante da amputação da perna, escondia gravidez indesejada e enfrentava outras situações limite tinha um caminho certo: se ajoelhar (quando possível) diante da imagem do protetor e fazer promessa. Graça alcançada, estava na hora de agradecer e pagar – e a melhor maneira era mandando pintar um quadro, esculpir o órgão afetado em metal ou cunhar moedas. Chamados de ex-votos, esses objetos atravessam o tempo e ajudam os pesquisadores hoje a entender melhor o comportamento, costumes, estilo de roupas, demonstrações de fé, enfim, o cotidiano da população nos séculos 18, 19 e início do 20.

Um belo recorte dos ex-votos está na Coleção Márcia de Moura Castro (1918–2012), composta de 344 peças e considerada uma das mais completas do gênero no país. Adquirido em dezembro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o acervo com 72 tábuas votivas (pinturas sobre madeira ou metal), 36 esculturas corporais e 26 medalhas, além de 210 santos de casa, está em fase final de restauração e ficará exposto permanentemente no Centro de Estudos da Pedra, parte do Memorial Congonhas, que ficará pronto no fim do ano na Cidade dos Profetas, na Região Central de Minas.

Desde 1979, o Iphan está empenhado na preservação dos ex-votos, informa o superintendente em Minas, Leonardo Barreto de Oliveira. Uma equipe de restauradores do instituto fez pesquisas na Sala dos Milagres do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, e selecionou 89 peças, 40 das quais foram compradas e tombadas. “Com a compra da coleção, damos continuidade a esse trabalho”, conta Leonardo. O santuário, reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), foi erguido em 1756 por promessa do português Feliciano Mendes para recuperar a saúde. O templo se tornou o maior ex-voto de Minas.

O coordenador do projeto, que envolve restauro, inventário e pesquisa histórica, Antônio Fernando dos Santos, do Iphan, diz que 90% dos objetos são de origem mineira, embora estejam presentes exemplares do Rio de Janeiro e São Paulo, bem como de Portugal, Alemanha, Itália, Peru, Bolívia e outros países. Entre os santos mais procurados pelos devotos para milagres estão o Senhor Bom Jesus do Matosinhos, Santa Luzia, Santana e São Francisco de Paula. “Trata-se de um resgate cultural importante. A coleção representa mais do que um conjunto de peças, pois traz informações valiosas sobre os séculos passados e permite múltiplas leituras a respeito dos hábitos, sem falar no caráter religioso. São objetos de devoção”, afirma Antônio Fernando.

RISCADORES DE MILAGRES

O serviço de restauro, executado pela especialista Carla Castro Silva, e de inventário, pela historiadora Silvana Cançado Trindade, foi contratado pela Unesco Brasil. A coordenadora do setor de Cultura da instituição, Jurema Machado, explica que a coleção foi adquirida em função do Memorial de Congonhas, uma cidade que recebe em setembro, nos sete dias do jubileu, cerca de 100 mil pessoas. “O importante é não desfazer a coleção, que ficará numa cidade de grande intimidade com o tema. Esses ex-votos são um documento, um retrato do ambiente social”. Nos séculos 18 e 19, conta, havia os chamados “riscadores de milagres”, artistas que pintavam as tábuas votivas e faziam as esculturas corporais. “As pessoas ainda vão ao santuário agradecer e colocar fotos, cartas e outros objetos”, ressalta a coordenadora.

Mas é diante das peças que a história ganha cor, forma e sentimentos. Retirando o plástico bolha que envolve cada peça do acervo, os restauradores Antônio Fernando e Carla apresentam as duas mais antigas da coleção: tábuas votivas com invocação a Santana, de 1725, e ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de 1736. Na maioria das pinturas, a pessoa doente está deitada numa cama tendo ao lado a inscrição de agradecimento e a pintura do santo milagroso. Há tábuas votivas de grande beleza , do século 18, como o agradecimento à Santíssima Trindade pela cura de uma inflamação. Em outra, um homem agradece por ter ficado bom depois da queda de um cavalo. E mais: uma noiva com gravidez adiantada agradece a São Gonçalo do Amarante pelo marido que o santo lhe arrumou, depois de ter “escorregado na fragilidade da carne”. Na pintura, ela está diante do padre e puxa pelo braço um homem de menor estatura.

"A coleção representa mais do que um conjunto de peças, pois traz informações valiosas sobre os séculos passados e permite múltiplas leituras a respeito dos hábitos da população" - Antônio Fernando dos Santos, restaurador do Iphan (foto: FOTOS: EULER JÚNIOR/EM/D.A PRESS )


ENTRE A TERRA E O CÉU
O costume dos ex-votos nasceu na antiguidade, com os primeiros registros no Egito e Grécia. Com a chegada do cristianismo, ganhou mais força e se espalhou por outras terras. Segundo a historiadora Silvana Cançado Trindade, responsável, junto com a restauradora Carla Castro Silva, pelo inventário da Coleção Márcia de Moura Castro, a palavra ex-voto tem origem latina e várias interpretações devido à particula “ex”, que muitos preferem pronunciar como “équis”: pode significar uma promessa feita; algo realizado por causa de uma promessa; e ainda divulgação pública da promessa. O certo mesmo é quem a criação do ex-voto decorre de uma uma situação de sofrimento físico ou moral. Diante da dificuldade, a pessooa procurava o santo e pedia a graça. Se a alcançava, mandava fazer a tábua votiva, a escultura corporal ou medalhas, e colocava na igreja, tornando público o “poder curativo” do santo que invocou. Silvana diz que os ex-votos representam uma conexão entre a “terra e o divino”. Ela destaca a importância da coleção de Márcia de Moura Castro, carioca radicada em Minas e falecida e abril. “Era uma mulher com a herança genética de uma família de colecionadores, que se dedicou a reunir acervos de diversos tipos”.


LINHA DO TEMPO
Século 18 – Tradição dos ex-votos chega a Minas com os colonizadores portugueses
1725 – Ano do mais antigo ex-voto, com invocação a Santana, da Coleção Márcia de Moura Castro adquirida pelo Iphan
1736 – Ano do segundo mais antigo ex-voto, com invocação ao Senhor Bom Jesus do Matosinhos, da coleção
1756 – Português Feliciano Mendes constrói Igreja do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, atual basílica, em Congonhas, como pagamento de promessa. É o maior ex-voto de Minas
Século 20  – Data da primeira metade do século o último ex-voto da coleção, com invocação desconhecida que não permite identificação
1979 – Iphan faz pesquisa na Sala dos Milagres do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, compra 40 ex-votos e tomba 89 peças
2011 – Em dezembro, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) adquire a Coleção Márcia de Moura Castro para restauro e exposição permanente
2012 – Em 14 de fevereiro, é feita a transferência da coleção de ex-votos para a sede do Iphan, em Belo Horizonte
 

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