
Reunidos no Largo São Francisco, às 4h, os moradores receberam a imagem de Nossa Senhora das Dores, que deu a força necessária para a caminhada de quatro quilômetros por ruas íngremes. O som das matracas abria o caminho e despertava as pessoas, que aos poucos surgiam nas janelas para ver a passagem do cortejo. Foi nessa hora que o estudante Gustavo Henrique de Souza, de 12 anos, assumiu pela primeira vez a função de matraqueiro. “O braço cansa porque a matraca é bem pesada, mas para manter a tradição vale o sacrifício.”
Alguns fiéis caminhavam com a vela acesa, outros preferiam se apegar ao terço para reforçar a oração e os mais dispostos faziam questão de carregar a santa no ombro. “Enquanto Deus me der saúde, vou estar aqui”, falou Marta Maria Viterbo Cabral, de 76, que há 20 anos reivindica o direito de levar Nossa Senhora das Dores até a Capela do Senhor Bom Jesus. Para ela, carregar o peso da imagem não é nada cansativo, mesmo depois de caminhar mais de uma hora de casa para o local da concentração e subir parte das ladeiras. “Só peço para ela proteger a minha família.”
Durante a caminhada, a procissão percorreu 14 estações dolorosas, que marcam a Via Sacra. A cada parada, os fiéis lembravam um pouco do sofrimento de Jesus e entoavam juntos as orações iniciadas pelo padre Rogério. “Apesar de todas as dificuldades, é bonito ver a religiosidade do brasileiro”, destacou a advogada Cláudia Teixeira de Oliveira, de 47, moradora de Belo Horizonte, que acompanhou pela primeira vez a procissão de Sabará.
No Morro da Cruz, os fiéis puderam admirar a cidade do ponto mais alto da cidade e venerar a imagem de Nossa Senhora das Dores, exposta na capela. Enquanto isso, um grupo de atores amadores encenou a Paixão de Cristo. A técnica em radiologia Rosilene Oliveira, de 32, interpretou Maria, irmã de Lázaro, que sempre acompanhou Jesus. “Sinto como se tivesse vivendo aquele momento. É emocionante lembrar como Jesus sofreu para que nós estivéssemos aqui”, destacou. Já sem o manto azul, ela desceu as ladeiras com a procissão e voltou para a Igreja de São Francisco, onde faria a guarda da santa.
Serra da Piedade
Romeiros e peregrinos precisaram de palavras de incentivo para andar quase seis quilômetros da Serra da Piedade no calor da manhã de ontem. Com boné para se proteger do sol e garrafa de água na mão para se hidratar, a professora Heloísa Rodrigues, de 49, assumiu o compromisso de percorrer todo o trajeto em jejum, que duraria até o fim do dia. “A sexta-feira para mim é dia santo.” Normalmente, ela faz a penitência caminhando pelas ruas de Caeté, mas dessa vez resolveu subir a serra. “Só tenho a agradecer pela saúde e união da família.”
O pró-reitor do santuário, padre Carlos Antônio da Silva, ficou feliz de ver o empenho dos fiéis na longa caminhada. “O povo sobe a montanha sagrada e vai deixando para trás dores, angústias e renovam a fé no Cristo ressuscitado. É um sinal gratificante do poder da fé, que nos dá coragem para enfrentar a vida, marcada por tanta decepção, violência e cansaço.” O pedreiro Luciney Eriberto da Silva, de 29, acompanhou a Via -Sacra carregando uma cruz e levando para o topo um pedido especial. “Minha mãe vai fazer uma cirurgia de catarata e vim rezar para que dê tudo certo.”
