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Estado de Minas

Clima festivo

Evento de formatura do curso de moda da Fumec completa 15 anos em edição desafiadora, planejada à distância e apresentada ao público em formato on-line


03/01/2021 04:00

Comemoração em dose dupla. A última edição do Fumec Forma Moda teve clima festivo por dois motivos. Um: o fato de chegar à 30ª edição. Dois: inovar em um cenário de pandemia. “Mesmo diante de todas as dificuldades, conseguimos nos reinventar e buscar ideias novas, satisfazendo o desejo dos alunos de mostrar o trabalho para o mercado”, comenta o coordenador do curso de moda, Antônio Fernando. 
(foto: Francisco Saucer/Divulgação)
(foto: Francisco Saucer/Divulgação)

Não teve desfile. Todas as 17 alunas (que se formaram no primeiro e no segundo semestres) preferiram apresentar fashion films, vídeos curtos que contam a história da coleção e mostram os looks em detalhe. Antônio se diz feliz e satisfeito com o resultado, que abastace o mercado da moda com novidades. “Justamente nos momentos mais complicados da história surgem ideias fantásticas. A criatividade, muitas vezes, é maior quando você tem obstáculos”, analisa.

Um dos trabalhos inovadores é o de Carolina Godtfredsen, que associou a alfaiataria italiana ao streetwear. A experiência de ir às compras com o irmão mais velho acabou direcionando a designer para a moda masculina. “Sempre achei que faltavam opções. Ele vestia camiseta e calça jeans ou bermuda, não variava”, conta a neta de uma costureira famosa de Caxambu. O caminho ficou ainda mais claro depois de um estágio em Florença, na Itália, onde ela teve contato com a moda de lá.
Ana Clara Mattar(foto: Caxapreta/Divulgação)
Ana Clara Mattar (foto: Caxapreta/Divulgação)

A coleção tem o nome de Sprezzatura, termo do século 16 que significa elegância sem esforço, tudo o que ela pensava em mostrar com o trabalho. “Quis trazer uma modelagem confortável, que o homem moderno prioriza, mas com a elegância que falta na moda masculina vista nas ruas do Brasil.” Como ela define, é uma moda masculina inspirada na alfaiataria italiana, mas de forma atualizada, misturando-se ao street style.

A peça-chave da coleção é o costume. À primeira vista ele pode parecer totalmente tradicional, mas logo você percebe que se trata de um conjunto bem ousado. Para começar, o paletó tem duas cores (de um lado preto, do outro verde petróleo). “Transferi aquele bolso no peito para a manga esquerda, onde coloquei um lenço vermelho. Já tinha visto isso em casaco de esportes de neve, como esqui.” Já a calça, que tem barra com pontas, é verde petróleo com detalhes em preto.
Conceição Teixeira(foto: Conceição Teixeira)
Conceição Teixeira (foto: Conceição Teixeira)

Tanto o paletó quanto o sobretudo contam com um acessório inusitado, também vindo de roupas de esporte: alças internas, que aparecem em momentos específicos. “Aqui sempre faz calor, então, se a pessoa precisar tirar o blazer ou o casaco, não precisa carregar na mão ou amarrar na cintura, o que ficaria deselegante. É só vestir as alças, como se fosse uma mochila nas costas”, descreve.
Ana Laura Ribeiro(foto: Diox Photo Filmes/Divulgação)
Ana Laura Ribeiro (foto: Diox Photo Filmes/Divulgação)

Outra peça que representa bem a proposta é a calça duas em uma. “Misturei a alfaiataria e o street style em uma peça só, dando a impressão de ser uma em cima da outra”, aponta. A de dentro tem elásticos na cintura e na barra, que ficam à vista, enquanto a de fora tem pregas e bolsos clássicos da alfaiataria. De comum, a camisa de tricoline escolhida para compor o look só tem as cores, que são preto e branco. O design dela é completamente diferente, com mangas mais soltas e abertura nas costas.

Carolina reaprendeu a tecer com a avó para fazer a peça de tricô que colore a coleção. Segundo a designer, os vários recortes são para demonstrar a dinâmica das ruas. A bermuda segue a mesma linguagem, só que é feita em linho e tricoline. “Pensei em um homem que não tem medo de inovar, que não quer se limitar aos padrões que sociedade impõe, priorizando conforto e elegância.”
Aline Silva(foto: Caxapreta/Divulgação)
Aline Silva (foto: Caxapreta/Divulgação)

Desde o início do curso, Conceição Teixeira sabia que sua apresentação de formatura seria sobre a Segunda Guerra Mundial. “Sempre gostei de roupas militares”, justifica a designer, que há oito anos trabalha no ateliê de costura da Fumec. À flor da pele é uma coleção de três looks que apresenta um guarda-roupa cápsula, com tons terrosos e modelagem ampla.
Ana Lídia Gonçalves(foto: Ana Lídia Gonçalves/Divulgação)
Ana Lídia Gonçalves (foto: Ana Lídia Gonçalves/Divulgação)

O conceito de sustentabilidade está muito presente no trabalho. “Fiz poucos recortes nos tecidos, o que mais tem nas peças são nervuras. Se você desmanchá-las, vai ter o tecido quase inteiro e pode fazer outra roupa”, explica. Conceição também acredita no aproveitamento máximo da matéria-prima, por isso usou pedacinhos de tecido para fazer o acabamento das peças, todo em viés.

A camisa branca de voal de algodão é uma peça coringa, cheia de detalhes inesperados. Gola e abotoamento são assimétricos, há 
pequenas nervuras nas mangas e, nas costas, pregas macho sobrepostas dão volume e movimento. Ela forma um dos looks com uma saia-calça de tecido colmeia com pregas macho bem amplas. O mesmo efeito se observa no macacão, com pregas macho na cintura: dependendo da posição, pode parecer um vestido. “Pensei em uma mulher contemporânea e elegante”, comenta.

MANGAS
 A coleção ainda traz um vestido comprido de linho que chama a atenção pelas mangas, com nervuras em viés e abertura no estilo flare. “Peguei linha de bordar e cobri de miçangas para fazer os botões”, detalha. As fotos foram tiradas em uma fábrica de tecidos abandonada em BH.

Com a coleção Lux, Ana Clara Mattar revela um novo olhar para o luxo. “Criei peças icônicas, mas comerciais. As roupas não são só para admirar, são para usar também, e de várias formas”, informa. O bordado (assim como a cor preta) é um elemento que conecta os três looks, de forma nada óbvia. A começar pela escolha do material, um mix de miçangas douradas e vidrilhos prateados, que normalmente não são associados ao luxo. A posição e os desenhos dos bordados também chamam a atenção.

Destaque para o vestido-blazer todo bordado (demorou mais de um mês para ficar pronto), que Ana Clara define como uma joia. A inspiração vem do barroco e seus arabescos. Se estiver fechado, ele funciona como peça única. Quando está aberto, pode ser usado com calça ou saia.

O outro look da coleção combina um top corselet de veludo de seda e alças removíveis com uma calça pantalona. “A pessoa tem uma calca básica de alfaiataria e, num dia em que quiser incrementá-la, pode colocar o cinto. Ele é bordado na cintura e por dentro da dobra”, detalha a designer, que já se forma com uma marca própria, a Atemp. O macacão tem decote tomara que caia estruturado e assimétrico, além de um bordado na cintura em forma de raios.

Perla Hanna, aluna síria que chegou ao Brasil há seis anos, sem falar uma palavra em português, assina a coleção Shaghaf, que aproxima a moda daqui com a do seu país. A fusão fica evidente em um look composto por um vestido bem justo e um quimono com bordados dourados em fundo preto e franjas. O shape próximo ao corpo, que faz referência à mulher brasileira, também está presente em outro vestido da coleção, com um poema em árabe bordado em suas mangas bufantes.

Para comemorar as 30 edições, o evento apresentou uma retrospectiva, reunindo os melhores momentos desde o primeiro desfile, no segundo semestre de 2005. O documentário destaca cenas marcantes, como o show da cantora Elza Soares, na segunda edição, que entrou na passarela cantando a música O meu guri. “O trabalho desta aluna é um dos momentos importantes da nossa história e continua superatual. Ela convidou uma mulher negra grávida para desfilar com a barriga de fora”, relembra o coordenador, Antônio Fernando, que está desde o início.


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