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Estado de Minas entrevista/ Carlos Augusto Campos de Assis e Carlos Alberto Alencar

#a gente gosta dos bichos

A mais antiga clínica veterinária em funcionamento na cidade completa 47 anos, é referência em medicina veterinária, oferecendo todas as especialidades médicas e exames avançados


22/11/2020 04:00 - atualizado 20/11/2020 14:34

 Os sócios Carlos Alberto Alencar e Carlos Augusto Campos de Assis, proprietários do Hospital e Clínica Veterinária São Francisco de Assis(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press.)
Os sócios Carlos Alberto Alencar e Carlos Augusto Campos de Assis, proprietários do Hospital e Clínica Veterinária São Francisco de Assis (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press.)


Referência em bom atendimento de cães, gatos e animais silvestres, a Clínica Ve- terinária São Francisco de Assis tem hoje cinco sócios, e uma estrutura de deixar qualquer um de boca aberta. Fundada em 5 de dezembro de 1973 por Homem Israel Ferreira, Quintilião Francisco Lemos, Carlos Augusto Campos de Assis e Manfredo Werkhauser, passou por uma dança de cadeiras. Dos fundadores, o único que conti- nua é Carlos Augusto, ao lado de Carlos Alberto Alencar – os mais antigos – e em 1999 entraram mais três colegas: Alexandre Najem, Ana Letícia Bicalho e Arilda Moreira Faria. Além de consultórios, sala de fisioterapia, UTI, salas cirúrgicas, espaço para cães doadores de sangue, área acústica, espaço para gatos, tem uma área para animais com doenças contagiosas, totalmente isolado. O investimento mais recente foi a criação do Visiovet, um centro avançado de diagnóstico, com maquinário de última geração, em parceria com a Clínica Santo Agostinho.
 
Como surgiu o desejo de ser
veterinário?
Carlos Augusto – Nasci em Belo Horizonte, e aos 5 anos ganhei um balaio com uma galinha e oito pintinhos, e nessa hora eu disse que seria veterinário. Morava em uma casa de 360 metros quadrados com meus pais, seis irmãos e empregada, mas não abri mão de meus animais. Fui o único filho apaixonado por bichos. Criei galinha, marreco, pato, papagaio e cheguei a ter 300 pombos. Levava para Nova Lima para fazer intercâmbio com outros pombos.

Carlos Alberto – Minha origem é de família de fazendeiro, da região de Montes Claros. Vim fazer faculdade de veterinária para voltar para a fazenda. A fazenda do meu pai produzia tudo, só comprávamos sal e querosene, porque não tinha luz. Estudei lá, em escola pública.
 

"Tenho milhares de clientes que se tornaram meus amigos. Mudamos o conceito. Hoje, cachorro virou gente, e o proprietário quer que ele seja tratado como gente"

 

E como foi na faculdade?
C. Augusto – Quando chegou a época de entrar para a faculdade, as pessoas tentaram me tirar da cabeça de fazer veterinária. Naquela época, o curso não era socialmente aceito, principalmente para veterinário de cidade. Quando fiz vestibular, 50% das vagas eram separadas para filhos de fazendeiros, e 50% para o pessoal da cidade. A faculdade, antigamente, e ainda hoje perdura isso um pouco, tinha o foco de formar fazendeiros. Mas estava determinado, e tinha o apoio dos meus pais, mas minhas tias falavam que eu ia morrer de fome.

C. Alberto – Só tinha veterinária em BH e em Uberaba. Passei na UFMG e vim morar em uma república. Foi difícil.

Como era o curso?
C. Augusto – Voltado para grandes animais. A parte de pequenos animais, mal, mal tinha algum ensinamento mais profundo. Se quisesse aprender tinha que pegar livros e estudar por conta própria, e a literatura era toda em inglês, não tinha nem apostila em português. Para mim não tinha problema, porque estudava inglês desde 1961. Sempre gostei muito de estudar, e estudo até hoje.
Qual o interesse de vocês? Grandes ou pequenos animais?
C. Augusto – Sempre quis tratar de pequenos animais. Nem assistia às aulas de grandes animais direito, não sabia nada de grandes animais. Jogava futebol muito bem, então ia jogar com os professores, e eles não ligavam de eu faltar às aulas dessas disciplinas. Plantas tóxicas, piscicultura, suinocultura, eu não estava nem aí. Meu negócio era cachorro. Cirurgia e toque em vaca? Não nasci para isso, nem eu e nem o Manfredo, que era meu colega. Em 1972, eu e Manfredo começamos a trabalhar na clínica do Quintilião. Eu não sabia nada de clínica ainda, e foi quando criei o retorno. Olhava para o cachorro, examinava, anotava tudo e pedia para voltar em dois dias. Estudava e pesquisava nos livros. E aprendi clínica assim, sozinho, fui um autodidata. E o Manfredo na cirurgia. Quintilião viajava e nós dois praticamente tocávamos a clínica sozinhos. Nesse período começamos a ter aula de cirurgia com o Israel.

C. Alberto – Meu negócio 
eram grandes animais, queria 
voltar para a fazenda.

Como nasceu a clínica? 
C. Augusto – O Israel queria abrir uma clínica em sociedade com um grupo de professores da escola, mas antes mesmo de começar já se desentenderam. Como ele queria de fato montar uma clínica, e precisava de um âncora porque ele só era conhecido dentro da UFMG, como professor de clínica cirúrgica de grandes animais, procurou o Quintilião, que já tinha a clínica. Era médico do Jardim Zoológico e diretor da Sociedade Mineira de Pastor Alemão, olhava tudo de exposição, era bem conhecido. Depois de muita conversa, resolveram montar a clínica

E chamaram vocês para 
entrar de sócios?
C. Augusto – Manfredo e eu. Eles eram muito ocupados e perceberam que não dariam conta de tocar a clínica sozinhos. Cada uma pagou sua cota de participação e fizemos a sociedade. Começamos a procurar uma casa e encontramos esta. Quem achou foi o Manfredo, em 1973, justiça seja feita, ele foi o grande entusiasta da clínica, e temos que fazer esta homenagem a ele, porque sem ele provavelmente a clínica não sairia. Naquela época, ninguém vacinava seus cães, não existiam muitos prédios na cidade, a maioria eram casas e os animais tinham uma vida mais saudável, porque corriam no quintal e vivam na rua, tomavam sol, a comida era natural, carne moída, bofe, angu, resto de comida. Ninguém dava ração. Os donos, ou tutores, como chamamos, não se preocupavam com essas coisas. Manfredo colocou faixas no entorno da clínica e praticamente fez um corpo a corpo com os vizinhos. Foi realmente um grande empenho. Tenho que dar esse crédito a ele. Ele foi o primeiro a sair da sociedade, mas somos amigos até hoje.

Quando você começou na clínica? 
C. Alberto – Entrei para o D.A. Na escola, apesar de ser um movimento de esquerda, eu era mais ou menos de centro, e fiquei amigo dos professores. Virei representante dos alunos no colegiado, e o professor Israel pediu para eu arrumar um estudante para morar na clínica. Como eu precisava de um lugar melhor para morar, eu fui. Muito melhor morar em Lourdes, sem pagar nada e ainda ganhar uns trocados, porque eu atendia. A clínica já era nesta casa, onde foi fundada. Vim em agosto de 1976, eu e mais dois colegas, e éramos os veterinários de plantão, e cuidávamos dos animais e da limpeza à noite. Mas continuava querendo me formar e voltar para fazenda para cuidar de grandes animais. Naquela época, era pejorativo mexer com cachorro. Os colegas nos apelidaram de cachorreiros. Sempre tive um princípio, fazer bem-feito aquilo que estou fazendo no momento. Se vou fazer o resto da vida, não interessa, mas enquanto estou fazendo tem que ser da melhor forma. Comecei a me dedicar, acompanhava as cirurgias do Israel para aprender o máximo que pudesse, sem saber se iria um dia ser veterinário de pequenos animais. Quando me formei, tive várias oportunidades de emprego, mas o Israel e o Manfredo me chamaram para trabalhar aqui, acharam que eram a maioria e decidiram. Carlos Augusto ficou desconfortável, porque não foi consultado. Até brinco que ele não gostou em um primeiro momento. Fui contratado em janeiro de 1978. Em meados de 1979, o Quintilião queria colocar um filho de um amigo e cismou que queria me mandar embora, mas o Israel e o Carlos Augusto não deixaram. O Quintilião saiu e eles me propuseram sociedade. Meu pai pegou um dinheiro emprestado na Caixa Econômica, e entrei de sócio em igualdade, em setembro de 1979. Assumi a gestão da clínica. Em 1999, Israel saiu para abrir uma clínica com o filho, e convidamos o Alexandre, a Letícia e a Arilda para entrar na sociedade.
Como foi vencer o preconceito da 
sociedade e conquistar clientes?
C. Augusto – O cliente antigamente trazia o cachorro por obrigação, poucos traziam por gostar mesmo do animal. A maioria eram cães grandes, como pastor- alemão, dog alemão, são-bernardo, afghan hound. A cidade foi crescendo, e começaram a surgir os cães de pequeno porte. A maioria era pequinês, e dava muito lucro para o veterinário, porque o olho era muito grande e saía muito para fora. Sempre gostei muito de conversar com o cliente, então com isso fui mudando esse “preconceito” e vencendo essa barreira. Tenho milhares de clientes que se tornaram meus amigos. Mudamos o conceito. Hoje, cachorro virou gente, e o proprietário quer que ele seja tratado como gente.

O tutor hoje demanda mais atenção?
C. Alberto – Você precisa ter preparo e sabedoria para atender o tutor hoje. O animal agora faz parte da família, então a preocupação é maior. Temos que acolher o tutor, para dar conforto e suporte, explicar tudo. As pessoas, quando deparam com uma situação grave, costumam fazer a pergunta: “Se fosse seu, doutor, o que você faria?”. Não adianta eu dar minha opinião, eu não estou vivenciando o lado emocional do problema. Posso ajudar, mas a decisão de fazer eutanásia é estritamente do proprietário, porque é ele quem vai sentir o peso dessa decisão. Hoje, fazem luto, velório, cremam o animal, jogam as cinzas onde passeava com o cachorro. Isso tudo existe hoje em dia.

Você acha que isso é por causa da
solidão humana?
C. Augusto – Acho. Essa falta de entendimento dentro da própria espécie, as pessoas procuram outros caminhos para sobreviver. O cachorro é um ser fiel, não importa se você é um mendigo ou se mora em um palacete. Ele não quer saber. Pode estar com o cara passando fome, mas está abanando o rabinho. Essa relação com o animal muda muito o temperamento das pessoas, elas ficam mais amáveis e receptivas.

Tem aumentado o número de pessoas que têm optado por gatos como animais de estimação?
C. Augusto – A tendência mundial é gato suplantar o número de cachorros como animais de estimação. Vários países já têm mais gatos. É mais independente, mas interage bem, e algumas raças desenvolveram pelos hipoalergênicos. A medicina é completamente diferente. Eu não atendo felinos há mais de 20 anos. Aqui na clínica tem a Letícia, a Lívia e a Mariane. Gato é uma especialidade.

C. Alberto – Temos uma área especifica para internação de gatos, isolada, com total segurança. E atendemos animais silvestres também, como passarinhos, coelhos, tartarugas. Temos aqui colegas especializados nesses animais. Temos também animais cadastrados como doadores de sangue. Sempre cachorros de grande porte, saudáveis, que nós mesmos entramos em contato com o tutor e perguntamos se querem cadastrá-lo como doador. Nossos doadores não pagam nada na clínica, são clientes VIPs.

O retorno continua sendo praticado?
C. Augusto – Eu criei este conceito na clínica, o retorno é obrigatório. Porque tem coisas que passam batido, não adianta. Tem uma coisa que se chama miopia científica, está na sua frente e você não enxerga da primeira vez, e quando você fica com aquilo na cabeça, você vai mais ou menos elaborando, pensando, pesquisando, e no retorno você fecha o diagnóstico. Não pode fugir do protocolo clínico. Clínica é genérica, absoluta, soberana. Tem que olhar o animal do focinho à pontinha do rabo. Você pode errar, mas tem que reduzir ao máximo a chance de erro.

Quantas especialidades vocês
oferecem?
C. Alberto – Praticamente todas. Elas foram surgindo por necessidade e demanda do mercado. Temos oncologia, oftalmologia, neurologia, dermatologia, medicina de felinos, acupuntura, fisioterapia, clínica geral, nutricionista, ortopedia, cardiologia, odontologia, gastroenterologia, etc. É o caminho natural, já que a veterinária é um espelho da medicina humana.

Como é ter os filhos seguindo 
o caminho?
C. Alberto – É uma satisfação, é deixar um legado, é uma perspectiva de futuro. Meu filho Guilherme Brant já trabalha aqui na clínica desde 2011, cuida da gestão clínica, é responsável pela escolha de todos os veterinários. Ele faz clínica veterinária geral e se especializou em oncologia.

C. Augusto – Meu filho Dimitri Bassalo de Assis é veterinário, já ficou um tempo aqui na clínica, mas saiu para completar doutorado. Estudou no Canadá, na Nova Zelândia, nos Estados Unidos e está fazendo doutorado em São Paulo. É especializado em ortopedia e neurologia.

Os animais de antes eram mais 
saudáveis que os de hoje?
C. Augusto – Teoricamente, tinham uma vida mais saudável. Tanto que tem uma discussão, e eu que já sou mais vivido nessa área tenho certeza de que os cães antigamente tinham mais longevidade que os cães de hoje. Sei que muita gente vai questionar isso. Os cães de hoje, com 10, 12 anos já apresentam uma série de doenças que não apresentavam antes. Ou não diagnosticávamos, ou de fato essas doenças não existiam, mas o fato é que eles não morriam tão cedo.

A longevidade daquela época passa pela alimentação e exercícios?
C. Augusto – Exatamente. Comida caseira, natural. Basicamente, era angu e sobras de carne, era o que chamávamos de retalho. Tem uma linha que é contra essa alimentação. O Carlos Alberto tem outra opinião, e é bom termos duas linhas aqui na clínica.

C.Alberto – Eu não sou contra a alimentação natural, mas não sou adepto. Hoje, temos rações extremamente qualificadas e balanceadas, as fábricas têm ótimas estruturas, com matérias-primas selecionadas e alto controle de qualidade. É impossível ter isso em alimentação natural. Temos nutricionista aqui que prescreve esta dieta, mas eu particularmente sou adepto das rações de qualidade.

Diante de tanto avanço na medicina animal, o que é o ideal?
C.Alberto – Hoje, como rotina, oferecemos para nosso cliente um programa de saúde com um check up anual. É a medicina veterinária preventiva. Nos animais de grande porte, a partir dos 6 anos fazer o check up anual com todos os exames. Nos de pequeno porte, a partir dos 8 anos. Para identificar problemas mais cedo. Isso traz retorno positivo e gera longevidade. Alguns têm vivido 16, às vezes até 20 anos.

Quando começaram, eram sete
pessoas. Quantos profissionais 
a clínica tem hoje?
C.Alberto – Só veterinários, somos cerca de 30 profissionais, e mais uns 50 profissionais de outras áreas. Temos cerca de 60 leitos para internação. Chegamos a fazer cerca de 400 cirurgias por mês.

Vocês vão fazer 50 anos de clínica. O que você sente quando vê toda essa trajetória e quais os planos?
C. Augusto – Passou tão rápido que nem senti. Tem 47 anos que olho por essa janela diariamente, e nunca me cansei. É gratificante. Fiz veterinária por amor. Graças a Deus, foi a melhor escolha para minha vida. Sou 100% realizado. O pessoal mais novo está querendo abrir filial da clínica em outros bairros. Acho complicado dar atenção a duas clínicas, pelo menos do jeito que eu gosto. Na minha opinião faria subdivisão por especialidades. 
 
 


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