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Luz e sombra

Arquiteta explora esse contraste em exposição que marca a sua estreia como escultora


postado em 19/05/2019 04:09

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)



Sabe aquelas pessoas que são verdadeiramente apaixonadas pelo que fazem? Sônia M. S. Mendes é uma delas. Primeiro, ela se apaixonou pela arquitetura. Depois veio a paixão pela iluminação, que a impulsionou a investir em uma área nova e se tornar referência no mercado. Para a arquiteta de Belo Horizonte, que já assinou importantes projetos de iluminação, entre eles o do Mineirão e da Sala Minas Gerais, luz instiga e surpreende. Mais recentemente, Sônia descobriu uma nova paixão: as esculturas. A habilidade para desenhar evoluiu e a arquiteta entra de vez no mundo das artes com o entusiasmo de um recomeço. Até agosto, ela apresenta no Museu de Congonhas o seu trabalho inédito na exposição “Luz e Sombra”. Em uma sala escura, 10 esculturas de formatos variados, feitas de aço com acabamento enferrujado, despertam a curiosidade dos visitantes.

 

Como você escolheu a sua profissão?
Demorei para descobrir a arquitetura, mas, quando descobri, foi uma paixão. Lembro que um dia me apaixonei pela palavra arquitetura. Comecei a pesquisar, vi que o curso tinha a ver comigo e me empenhei em passar no vestibular na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nunca tive dúvida de que era isso que queria. Depois de formada, fui para a França para ficar dois meses e morei lá por dois anos. Acabei fazendo um curso em Toulouse, no Sul do país, e, quando voltei, me engajei na área da iluminação. Era uma área muito nova no mercado e surgiu para mim como uma oportunidade, porque a demanda por iluminação só crescia. Achei que seria temporário, mas me apaixonei por isso. Trabalhei por 11 anos numa loja de iluminação e depois abri o meu escritório, Arquitetura e Luz.

O que mais encanta você na área de iluminação?
Luz é misteriosa, ela traz surpresas e muita curiosidade, é instigante. Além disso, o mercado de iluminação está sempre em movimento, com muita tecnologia nova, e acho sempre muito gratificante ver o resultado de um projeto.

Como você desbravou esse mercado?
Até então, iluminação era só colocar um ponto de luz, mas o próprio mercado foi dando mais importância para isso. Luz muda tudo: ou valoriza ou acaba com um projeto. Então, não existe mais só o projeto elétrico, tem também o projeto de iluminação e você precisa entender o que quer valorizar como elemento de arquitetura. Os estudos evoluíram e hoje encontramos uma quantidade muito grande de lâmpadas e de novas tecnologias. No momento, a proposta é fazer tudo em LED (as outras lâmpadas estão praticamente saindo do mercado) e nós temos que nos adaptar.

Por que a demanda por iluminação aumentou?
Entrei com a minha empresa numa hora certa. As pessoas começaram a sentir necessidade de investir em iluminação. Até certo tempo, fazia os projetos dentro da loja, mas ela direciona a escolha dos materiais para o que ela vende. No meu escritório, tenho liberdade para especificar o que é mais conveniente para cada cliente, não fico presa a um só fornecedor.

Na sua opinião, qual é a importância da luz?
São várias. Primeiro o conforto e depois a estética. Trabalhamos em parceria com os arquitetos e eles nos direcionam para o efeito que querem.

Fale sobre alguns projetos marcantes do seu escritório.
Depois que montei a minha empresa, em 2007, comecei a trabalhar com projetos maiores. Assumi o projeto do Mineirão na época da Copa do Mundo de 2014, na primeira etapa com Gustavo Penna e na segunda com o escritório BCMF Arquitetos. Quis chamar a atenção para os pórticos, colocando luz colorida, de forma que pudessem ser trocadas, dependendo do evento. Dessa forma, valorizamos toda a estrutura do estádio, que é tombado e muito lindo. Para a esplanada, instalamos um modelo de poste desenhado por mim e pelos arquitetos, que abrigou todos os projetores. A luz não poderia “explodir” por causa do meio ambiente, dos bichos, então ela é mais suave. Ficou mais agradável. Depois comecei o projeto da sede da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais com Jô Vasconcellos e Rafael Yanni, que é a Sala Minas Gerais. Foi um desafio, porque lá tem um volume vermelho todo irregular. Dentro da sala, trabalhamos com tudo em LED para atender às necessidades da própria orquestra e do lado de fora iluminamos toda a estrutura metálica com luz colorida. Há pouco tempo, trabalhei com o Gustavo Penna no Mercado da Boca. Os arquitetos me pediram um céu estrelado e usamos pequenas lâmpadas de LED, numa temperatura de cor mais âmbar, distribuídas no teto. É uma proposta bem arrojada. Agora estou com o projeto do P7 Criativo, o antigo prédio do Bemge na Praça Sete, de 25 andares, que vai ter coworking, restaurante, biblioteca etc.

Como começou o seu envolvimento com a cidade de Congonhas?
No ano passado, recebi o convite do Sérgio Rodrigo Reis, diretor-presidente da Fundação Municipal de Cultura Lazer e Turismo (Fumcult), para fazer o projeto de iluminação da Estação Ferroviária de Congonhas. A área estava praticamente abandonada, não tinha nem um ponto de luz, e a ideia era atrair as pessoas e valorizar o patrimônio da cidade. Só isso já deu outra visibilidade para a estação. O local ficou agradável para passear à noite, namorar, tocar violão, ficou muito romântico. A iluminação levou vida de novo para um espaço praticamente morto. Também estou participando, com o arquiteto Sylvio de Podestá, do projeto de restauração do Centro Cultural da Romaria, um prédio redondo lindo, bem antigo, que abrigava os romeiros. Agora ele vai ser reformado e vai ter sala de cinema e várias outras atrações para os visitantes usufruírem.

Você sempre se interessou por arte?
Sempre tive um olhar para isso. Gosto muito de desenhar, o que fazia descompromissadamente, até que comecei a ver que os desenhos me agradavam. Peguei esses desenhos e comecei a deixá-los mais profissionais usando nanquim, escala. Em seguida, passei a fazer pequenas maquetes com eles, o que me levou a outro estudo, entender qual elemento colocar na frente. Depois de um tempo, comecei a perceber que os desenhos poderiam se transformar em esculturas. Sérgio, da Fumcult de Congonhas, foi quem me propôs uma exposição. Tem um ano que as esculturas começaram a tomar forma.

Como se deu o processo de criação das peças?
A partir de um certo momento, surgiu o desejo de fazer esculturas, mas não podia atropelar as coisas, isso foi evoluindo aos poucos. O escultor Giovani Fantauzzi me ajudou muito. Ele bateu o olho no meu projeto e falou para usar metalon, porque eu precisava de um material oco, por onde pudesse passar luz. O meu desejo era inserir pequenos pontos de luz nas esculturas para mostrá-las de forma instigante e misteriosa. Giovani também me indicou o serralheiro, que tem sensibilidade e experiência com esculturas. As peças são de aço enferrujado, acabamento que gosto porque faz referência a outros escultores que admiro, como Amilcar de Castro e Julio Le Parc, e porque tem a ver com o nosso estado, rico em minério. Utilizei fios metálicos dourados, prateados e cobreados com pequenos pontos de luz de LED. Queria que as sombras pudessem ser algo a mais, então, quando as esculturas se acendem, elas tomam proporção de outro elemento projetado. No total, são 10 esculturas, que dialogam entre si. Vejo algo musical, de dança, leveza, arquitetura. Quis trazer para Congonhas algo de barroco, mistério, luz e sombra.

Quando você olha para as esculturas, o que sente?
Sinto que sou eu, que estou conseguindo expor o que sou. Isso me deixa muito feliz. Quando tudo ficou pronto, percebi que estava colocando neste trabalho todas as minhas paixões: a dança (que me acompanha muito), a música (os desenhos têm algo de partitura), a arquitetura (de onde tirei formas bem geométricas) e a luz. Encontro tudo isso neste novo trabalho, onde estou me arriscando. As esculturas são a minha nova paixão.

Por que levar iluminação para as esculturas?
Queria juntar as duas coisas para criar algo diferente, e isso é sempre uma surpresa. Dependendo da posição em que coloco os pontos de luz, chego a um efeito completamente diferente do outro. A vida é mesmo muito surpreendente. Então, para cada escultura, tive que estudar a luz de um jeito diferente. É um trabalho instigante. Aqui no museu a sala fica toda escura e só as esculturas ficam acesas, então isso gera uma curiosidade muito grande. Acho que essa exposição instiga a imaginação das pessoas, traz algo meio lúdico, que deixa em aberto.

O que você já ouviu do público?
Cada um vê uma coisa diferente, e essa é a ideia. As esculturas são abertas para um sentir livre. O meu desejo é que elas instiguem, façam as pessoas pensarem, desejarem alguma coisa, que alertem para algum detalhe, que façam o olho brilhar. Que isso traga vida para as pessoas. Para eu montar tudo isso, tive que sair da minha zona de conforto. Ver que as coisas ficaram bonitas é muito prazeroso, saber que dou conta, que tem mais coisa que posso fazer. A vida é muito curta. Quero passar uma mensagem para as pessoas de que devem se arriscar, e disso pode sair algo legal. Experimente arriscar em algo que não conhece, porque tudo muito surpresa. Também não sabia no que ia dar e gostei do resultado.


E agora, o que você leva das esculturas para os seus projetos de iluminação?
Quero muito que essa nova etapa, com as esculturas, possa abrir outra porta para o meu trabalho de luminotécnica. Gostaria de juntar as coisas, de levar as esculturas para o meu trabalho de iluminação como elemento estético, para compor em alguma situação. Mas não sei ainda, é tudo muito novo. Tenho ideia de fazer outras exposições e penso, sim, em vender as esculturas.

Então, quer continuar fazendo esculturas?
Tenho muitas coisas para fazer de desenho, agora com um olhar diferenciado. A cada passo vou conquistando experiência. Não sabia o que ia dar com essas primeiras esculturas, não tinha total domínio de tudo, mas tudo foi construído, isso que é legal. Continuo desenhando, isso está dentro de mim.


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