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Estado de Minas

Mesmo no poder, Alencar foi o principal crítico da política de juros altos


postado em 30/03/2011 07:12

José Alencar Gomes da Silva fez a sua primeira incursão na política em 1994, quando mirou o Palácio da Liberdade. Aos 63 anos, candidato pelo PMDB, obteve 641.887 votos, 10,71% dos válidos no primeiro turno, disputado com Hélio Costa, então no PP, Eduardo Azeredo (PSDB), Carlão (PT) e outros quatro candidatos de legendas nanicas. A derrota não o fez desistir. Alencar estava decidido a abraçar a vida pública.

Na segunda tentativa, em 1998, conquistou a cadeira no Senado pelo PMDB. Ao mesmo tempo que seu partido levou Itamar Franco ao governo de Minas, Alencar elegeu-se com 2.902.158 votos, 48,19% dos válidos. Além de derrotar a favorita Júnia Marise (PDT), deixou pelo caminho o ex-governador Hélio Garcia (PTB), que desistiu da candidatura em setembro, quando ainda liderava as pesquisas.

A aproximação com o PT viria anos mais tarde. Até então, nunca havia votado em candidatos da legenda. Em 1989, no segundo turno das eleições presidenciais, diante do dilema de votar em Fernando Collor de Mello ou no petista Lula, Alencar anulou o voto. O então empresário, cujo domicílio eleitoral na ocasião era ainda em Ubá, Zona da Mata de Minas, relatou que esteve tentado a votar em Lula naquele pleito. “No dia da eleição, Mariza e eu trocamos ideias sobre o assunto e eu falei: ‘Acho que temos de votar no Lula’. Ela votou no Lula, eu cheguei a marcar a cédula. Mas numa fração de segundo eu, que tinha ido à União Soviética, nunca fui marxista, não podia também apoiar ideias radicais de economia de Estado. Naquela fração de segundo fiz um grande xis na cédula e anulei o voto.”

Treze anos depois do embate entre Lula e Collor, o empresário tornou-se o vice-presidente da República, pelo extinto PL. Aborrecido em 2001 com a legenda, que não o apoiou em sua pretensão de concorrer à presidência do Senado – a indicação do PMDB recaiu sobre Ramez Tébet (MS) –, José Alencar deixou o partido e filiou-se ao PL. A chapa trabalho-capital, que em 2002 derrotou José Serra (PSDB) e Rita Camata (PMDB), tomou posse em janeiro de 2003. Lula havia se convertido em “paz e amor” e Antonio Palocci conduzia a economia de forma tão ortodoxa quanto os antecessores tucanos.

Nesse contexto, José Alencar começou a pregar a revolução. Não ao molde bolchevique. Mas a revolução que, segundo ele, romperia de forma definitiva com o que considerava o “grande entrave” para o crescimento econômico: os altos juros. Estes, garantiu ele em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, em 18 de março de 2005, chegaram a consumir no Orçamento da União de 2004 uma rubrica de R$ 280 bilhões, 28 vezes maior do que a capacidade de investimento do país. “Chama o FMI, chama o Joseph Stiglitz, chama o Milton Friedman, chama o professor Delfim Netto, desperta do túmulo o professor Mário Henrique Simonsen, o professor Roberto Campos. Traz todos os nomes e denuncia. O Brasil está liquidado com essa taxa de juros. Não pode continuar assim”, declarou. Tinha ainda mais a dizer: “O nosso discurso de campanha ainda não assumiu o poder. A revolução a que me refiro é aquela que começa nesta política econômica com a qual não estou de acordo. Por quê? Porque ela mata, em minha opinião”, afirmou em autocrítica, capacidade que manteve pela vida empresarial e política.

As declarações de José Alencar, que na ocasião também dirigia o Ministério da Defesa, ganharam as páginas de todos os jornais e revistas do país. Em sua batalha sem trégua aos juros, a oratória do vice-presidente da República cumpria a função, nos termos de seu filósofo predileto, do mosquito que morde os flancos da preguiçosa égua da política econômica para provar-lhe que está viva. José Alencar pregava, sem trégua: “As causas dos altos juros vêm do governo FHC. Um dos itens importantes do Plano Real foi o fim da indexação. Mas foi cometido um erro que se seguiu às privatizações, especialmente na área de serviços públicos. Há cláusula de indexação nos contratos, com adoção do IGP-M, que é o dobro do IPCA, índice que mede o custo de vida”. O problema que daí decorre, dizia ele, é que o governo – do qual fazia parte – “adota uma política monetária de taxa de juros elevada para combater a inflação, quando grande parte dela é inflação administrada”.

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