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Estado de Minas

Pessoas que conviveram com Chico Xavier guardam lembranças de paz e humildade

Filho fala de sua relação com o médium e lembra passagens emocionantes envolvendo pessoas que procuravam, alguma depois e longas viagens, uma mensagem de paz


postado em 31/03/2010 20:14 / atualizado em 01/04/2010 13:23

A convivência com o pai marcou a vida de Eurípedes Humberto, que hoje guarda o legado, de grande valor espiritual, em Uberaba(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
A convivência com o pai marcou a vida de Eurípedes Humberto, que hoje guarda o legado, de grande valor espiritual, em Uberaba (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)

O privilégio de conviver com Chico Xavier e a maneira como dele se aproximaram marcou a vida de muitas pessoas, tanto em Pedro Leopoldo quanto em Uberaba. O filho adotivo Eurípedes Humberto Higino dos Reis foi escolhido quando a mãe dele procurou o médium, viúva, saindo de Ituiutaba para aconselhar-se. Chico disse: “A nossa irmã de Ituiutaba, dona Carmem, faz o favor de se aproximar”. E continuou: “Eu vim para Uberaba, a senhora virá trabalhar conosco, nós temos uma história muito grande juntos”.

Depois, perguntou a ela sobre os filhos e, quando ela se referiu a Eurípedes, o mais novo, ele afirmou: “Esse, eu estava procurando há muitos anos porque nós já tivemos muitas vidas juntos.” Desde então, Eurípedes esteve sempre ao lado de Chico e tornou-se o responsável pelo seu legado. “Chico não foi uma ficção, é uma realidade”, testemunha Eurípedes.

O economista Geraldo Lemos Neto, de 48, o Geraldinho, curador da Casa de Chico Xavier, em Pedro Leopoldo, conta que ouvia histórias de família sobre o parente, até que foi ao seu encontro em Uberaba, na década de 80. “Ele recebia um por um. Quando fui me apresentar, ele falou meu nome – ‘Geraldinho’- e disse: ‘Não entendi porque você me envia cartas tão lindas, mas não assina e não coloca o endereço para eu responder’”. A partir daí, Geraldinho se aproximou de Chico. Criou a Editora Vinha da Luz e já publicou 20 livros com as mensagens inéditas que recolheu.

O comerciante Sérgio Luiz Ferreira, de 58, foi escolhido pelo tio avô como guardião de manuscritos. “Ele foi me dando o material em pastas, para futuras publicações”. Sérgio conta que muitos dos primeiros escritos do médium se perderam. “Ele escrevia de madrugada e o pai dele (João Cândido) se irritava e queimava”, revela.

O barbeiro Belmiro Chagas Neto, o Netinho, de 62, fez a barba de Chico, diariamente, nos inícios de tarde, durante 32 anos. “Ele tinha muita disciplina, era rígido com horários”, diz Netinho, que atesta também a docilidade do cliente. “Nunca vi um mau humor, um xingamento. Todas as pessoas deveriam ter conhecido esse homem”.

Netinho revela que Chico, com uma calvície precoce, usava peruca, hábito que só abandonou nos últimos anos de vida. Privar da intimidade do médium tinha gosto de privilégio para Netinho, que coleciona fatos que testemunhou, incluindo episódios do mais puro humor. “Vínhamos saindo da Casa da Prece, chegou uma senhora e perguntou: ‘Me contaram que criar gatos faz mal’. Ele respondeu: ‘Faz sim, minha filha, para os ratos’”.

E Chico tinha uma especial relação com os animais. Além de vários gatos, tinha dois cãezinhos, Fofa e Brinquinho. O primeiro a morrer e a ser enterrado num jardim nos fundos da casa foi Brinquinho. Um cão parecido foi trazido para Chico, mas Fofa não aceitou, passando o agredir o companheiro, que precisou ser afastado. Um outro, também parecido, foi localizado e, dessa vez, Fofa aceitou de bom grado a companhia. Chico comemorou. “Ele dizia: ‘o Brinquinho voltou’. Ele entendia que os animais têm espírito que também evolui”, lembra o filho Eurípedes.

Sabedoria

Para conhecer as histórias de Chico ou, simplesmente, ver os lugares em que ele viveu ou tem o descanso eterno, muita gente desafia a distância, como o casal Mara Zipf, de 31, e Antônio Carlos da Luz, de 42. Ele são de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina e, em viagem a Brasília, deram uma volta de 400 quilômetros para conhecer a casa de Chico, em Uberaba. Deixaram outras pessoas ansiosas na cidade natal. “Falei com amigas que ia passar aqui e elas me pediram para levar um pouco de luz”, conta Mara.

Outro que ficou emocionado ao visitar o “Recanto do Chico” foi o produtor cultural Ranulfo Homem, de Caxias do Sul (RS). “Precisei fazer um contato em Uberaba e seria um sacrilégio não passar na casa do Chico”, revela, dizendo-se impressionado com o que via. “É muita luz”, exclamou.

O empresário Eurípedes César de Oliveira, de 52, é de Uberaba, mas mora em Uberlândia. Em viagem a Curitiba, passou pelo museu para comprar livros com que presentearia amigos e rever o lugar. Também emocionado, Eurípedes conta que acompanhava o médium quando ele se permitia tomar um café no extinto Bar 2001, mal conseguindo se movimentar na rua, tamanho o assédio dos fieis.

Eurípedes Oliveira carrega na lembrança uma frase que ouviu mais de uma vez de Chico Xavier: “Na vida tudo passa”. Mandou esculpir a frase em peças de madeira e dá a pessoas que considera especiais em momentos difíceis. A mesma frase marcou o barbeiro Netinho que, na longa convivência do Chico Xavier, não se surpreendia em ver seus pensamentos revelados sem que nada dissesse.

“Um dia eu cheguei nervoso, ele me olhou e disse: ‘Na vida tudo passa’. Respondeu o que queria perguntar para ele e não precisei”. Netinho guarda com especial carinho a dedicatória que Chico escreveu para ele, com a assinatura de Cornélio Pires, no livro Encontro Marcado: “Amigo Belmiro, a dor não age na vida em vão. É sempre encontro do amor, nas fontes do coração.” O barbeiro entende que o encontro dele com Chico Xavier estava marcado.

A florista Isolina Silva também tem orgulho de ter merecido do médium uma dedicatória que tornou-se um lema em sua vida: “Isolina, transforme suas mãos em trabalho, suas palavras em luz, seu suor em pão.”

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