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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

CPT volta à ativa com debate sobre o legado de Antunes Filho

Nesta terça (1), o dramaturgo Samir Yazbek e os diretores Gabriel Villela e Bia Lessa falam sobre as ideias e o método teatral do diretor


01/09/2020 04:00 - atualizado 31/08/2020 23:26

As ideias e o método teatral de Antunes Filho serão discutidos hoje pelo dramaturgo Samir Yazbek e os diretores Gabriel Villela e Bia Lessa (foto: Emídio Luís/Divulgação)
As ideias e o método teatral de Antunes Filho serão discutidos hoje pelo dramaturgo Samir Yazbek e os diretores Gabriel Villela e Bia Lessa  (foto: Emídio Luís/Divulgação)

Quando fundou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), em 1982, no Sesc Consolação, em São Paulo, o diretor Antunes Filho almejava a difusão do conhecimento cênico para a formação de novos profissionais e montagem de espetáculos. 

Em 2019, aos 89 anos, Antunes não sobreviveu a um câncer, mas seu objetivo segue em curso, mesmo com as adversidades colocadas pela pandemia do novo coronavírus, especialmente duras com a produção teatral. 

Depois do período de inatividade imposto pela chegada da epidemia da COVID-19 ao Brasil, o espaço paulistano retoma sua programação (ainda sem público), com a realização do seminário on-line CPT 2020. Pensadores e criadores irão conversar sobre as perspectivas das artes cênicas em nosso país. 

Nesta terça-feira (1º), o dramaturgo Samir Yazbek e os diretores Gabriel Villela e Bia Lessa abrem a programação, com um debate sobre o legado de Antunes Filho. Cada um deles falará sobre a importância do diretor em suas carreiras. 

Yazbek tem uma peça criada com Antunes ainda por estrear. “Ele foi um grande incentivador da minha carreira, se não o principal.  Acompanhava tudo, opinava, elogiava, criticava. Sempre conversava. Uma relação que começou desde quando eu entrei no CPT e se estendeu até o fim da vida dele. Passou de mestre para mentor, de mentor para conselheiro e de conselheiro para amigo. Uma relação muito rica dos pontos de vista artístico e pessoal”, descreve.  

Vencedor do prêmio Shell em 1999 pelo texto O fingidor, Yazbek diz que “o grande legado coletivo é o amor imensurável ao teatro. A paixão que ele tinha pela atividade, pelo trabalho do intérprete, pela perspectiva da cena, por fazer do teatro um fator de contribuição social, elemento agregador de comunidade, um catalisador de questões sociais pungentes. Tudo isso é muito consequente no repertório dele. São trabalhos que dialogam muito proximamente com a sociedade brasileira, sempre com uma preocupação muito grande com o autor nacional, levando Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa e Lima Barreto, entre outros, para a cena”.  

BORGES

Nos anos 1980, Antunes teve a ideia de montar um espetáculo que unisse a obra do escritor argentino  Jorge Luis Borges (1899-1986) e as histórias de As mil e uma noites, clássico da literatura árabe. 

Ele chegou a escrever o argumento e convidou Samir Yazbek, que ainda iniciava a carreira, para a conclusão. O projeto acabou não sendo concluído. Após a morte de Antunes, Yazbek retomou a ideia e pretende estrear O outro Borges quando houver condição favorável à presença de público, possivelmente no ano que vem. 

“Fiquei 10 anos no CPT e, desde quando entrei, meu desejo, minha vontade, já estavam voltados para a dramaturgia. Procurei o Antunes querendo desenvolver projetos nessa área. Logo de cara, lembro-me de que ele lançou esse desafio grande para a época, que só estou concluindo agora. Ele fez o argumento, e eu fui escrevendo versões, sempre retomando, reescrevendo. Depois da morte dele, resolvi abraçar essa causa, essa missão para terminar a peça.”

Atriz e diretora, Bia Lessa fez parte da histórica encenação de Macunaíma (1978), uma das principais peças dirigidas por Antunes Filho, de alcance internacional. No ano passado, dirigiu sua própria versão do texto de Mário de Andrade. 

Bia destaca a longevidade da proposta do CPT, criada há quase 40 anos, sobretudo em tempos complicados para a atividade cultural no país. “Acho que o Sesc proporcionou ao Antunes uma coisa extraordinária, que acontece muito fora, na Europa e nos EUA, mas que não é corriqueira aqui. O Sesc deu estrutura ao Antunes para que ele pudesse, de fato, fazer um trabalho de educação e de criação. É algo que deveria acontecer com mais frequência, para todos os encenadores terem condições de fazer investigações sobre a arte. Isso é o que acontece onde a cultura é valorizada”, afirma. 

A diretora diz que dar continuidade do projeto, após a morte de Antunes, é “uma afirmação da vocação do Sesc paulista no decorrer dos anos, pois o legado de Antunes Filho é infinito”. Sobre o seminário on-line que se inicia hoje, ela diz: “É uma dádiva, apesar de distante, falar com o mundo numa frequência diferente. Isso é um ganho. Poderemos assistir a entrevistas e espetáculos, a começar por essa conversa, na qual as diferentes vertentes do legado do Antunes serão trabalhadas”.

Bia Lessa observa, no entanto, que será “emoção redobrada” quando os artistas do teatro voltarem a estar diante do público. “É como se ele voltasse a ser o centro das atenções, porque nada substitui a potência do encontro, de falar presencialmente com o outro. É transformadora a relação palco-plateia. O teatro voltará ainda mais sagrado.”

O mineiro Gabriel Villela, que completa a trinca de convidados desta noite, diz que sua vida “está rodeada de Antunes Filho por todos os lados”. 

Diretor, cenógrafo e figurinista, ele destaca que o trabalho excepcional de Antunes circulava com os artistas que trabalhavam com ele. “Dos três presentes hoje, o único que não participou efetivamente do CPT fui eu. Estive muito no entorno do CPT, principalmente no momento áureo. Aquilo tudo ali posto em cena pelo Antunes gerou uma onda nacional e internacional de curiosidade, porque criou um tempo singular de fazer teatro com poesia, saindo da esfera realista.”
 

METODOLOGIA

Gabriel cita ainda que, quando iniciou sua carreira no teatro, na segunda metade dos anos 1980, passou a “incorporar atores que estiveram com Antunes”. “E isso me aproximou da metodologia do CPT. Ele sempre foi um diretor pedagogo e desenvolveu proximidade grande com os atores, dando a eles instrumentos necessários para a vida toda, incluindo disciplina e rigor, deixava o ator apto para fazer qualquer texto”. 

Depois da noite de hoje, especialmente dedicada ao legado de Antunes Filho, o seminário passará a ter outros temas relacionados ao contexto atual do teatro. Na quarta (2), os convidados são o diretor Marcio Abreu, da Cia Brasileira de Teatro, a diretora Christiane Jatahy e a atriz, diretora e dramaturga Grace Passô. 

Na quinta (3), a ideia é promover um intercâmbio entre diretores de coletivos ibero-americanos. No próximo dia 9, deverá entrar no ar, na plataforma do Sesc Digital, Antunes Filho em primeira pessoa, depoimento em vídeo que o diretor concedeu, em 2014, ao Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. 

O CPT pretende oferecer, até dezembro, ateliês, oficinas, outros seminários, exposições gráficas e exibição de filmes, entre outros materiais voltados para o teatro, sempre no formato on-line.

“Teatro depende da relação entre público e palco. É sua principal condição há milênios. Em virtude da pandemia, estamos num momento de reinvenção. Não é teatro puro, é uma nova maneira de sobreviver artisticamente”, diz Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

Essa nova maneira inclui “revitalizar o CPT, uma herança do Antunes Filho”, afirma Miranda. “O CPT é um lugar para valorizar a linguagem teatral, que é uma das linguagens artísticas mais profundas e de alcance mais concreto que conhecemos.”

Reabertura do Centro de Pesquisa Teatral (CPT)
A partir desta terça-feira (1º), em www.sescsp.org.br/cpt, às 11h, e nas redes sociais: instagram/cptsesc, facebook.com/cptsesc, twitter.com/cptsesc, youtube.com/cptsesc.


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