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Estado de Minas FOTOGRAFIA

Cliques mostram paisagens de Minas indiferentes ao caos

Fotógrafos especializados em registro de paisagens naturais flagram no quintal de casa a beleza e a força da natureza, indiferente à pandemia do novo coronavírus


02/08/2020 04:00 - atualizado 01/08/2020 22:04

João Marcos Rosa está passando a quarentena em Macacos e adotou a rotina de registrar a fauna e a flora locais(foto: João Marcos Rosa/Divulgação )
João Marcos Rosa está passando a quarentena em Macacos e adotou a rotina de registrar a fauna e a flora locais (foto: João Marcos Rosa/Divulgação )
Nos tempos que chamávamos de normais, antes da pandemia do novo coronavírus, o trabalho de quem se dedica a registrar a natureza por meio da fotografia já costumava impressionar os que vivem nas cidades. O poder dessas imagens, que funcionam como janelas para um mundo invisível aos habitantes dos grandes centros urbanos, ganha um significado ainda mais potente quando a experiência da metrópole passa a ser de reclusão, de acordo com as recomendações para evitar a propagação da epidemia de COVID-19.

Além de cores e cenários deslumbrantes, as imagens captadas por esses fotógrafos revelam também sinais que o meio ambiente nos transmite neste momento tão complexo.
O fotógrafo lança na próxima quinta-feira Diários de um outono particular, coletânea de imagens que fez durante o isolamento social(foto: João Marcos Rosa/Divulgação)
O fotógrafo lança na próxima quinta-feira Diários de um outono particular, coletânea de imagens que fez durante o isolamento social (foto: João Marcos Rosa/Divulgação)

Patagônia 
Na última década, a câmera guiou o mineiro Tom Alves por várias partes do Brasil e do mundo. Seus cliques já registraram fauna, flora e paisagens do sertão nordestino à Patagônia, da África à Nova Zelândia, a ponto de ele se especializar em expedições fotográficas, que se transformaram em sua principal atividade, interrompida momentaneamente pela pandemia. 

O distanciamento social não significou para ele, entretanto, um afastamento da natureza. Isso graças ao privilégio, como ele mesmo define, de viver há cinco anos em uma casa na Serra do Cipó, onde ainda é possível fazer alguns registros. 

“Aqui, abro a janela e vejo um tucano. Na cidade, a natureza para muita gente é zero, uma planta na sala, no máximo. Aqui temos esse contato, que ainda existe, mesmo com o parque (Nacional da Serra do Cipó) fechado e outras restrições que respeitamos”, comenta o fotógrafo.

Os registros possíveis no período incluíram até a “natureza espacial”, com a passagem do Cometa Neowise, na última semana. “Ele foi mais visível no Hemisfério Norte, por aqui não havia como enxergar a olho nu. A câmera, diferentemente do olho humano, capta luz por vários segundos, então foi possível fotografá-lo. É um cometa pequeno, mas foi uma ótima experiência”, relata Alves, que compartilhou seus registros em sua página no Instagram (@tomalvesfotografia).

No momento de maior introspecção, em que a natureza observável é apenas essa ao seu redor, e não mais aquela acessada nas várias expedições, ele aproveita para refletir sobre o que o meio ambiente tem a nos dizer no contexto da pandemia. 

“As imagens têm um poder de contagiar as pessoas e ressaltam como é rica essa experiência de ter contato com a natureza, como isso é vital para nós. São imagens que podem nos incentivar, nos dar esperança de que o mundo lá fora ainda está igual. A pandemia só afeta a raça humana, e nós sempre tivemos a presunção de achar que somos o centro do universo, sendo que somos uma minúscula parte dentro de um contexto muito maior. Para os animais, a pandemia não afeta nada, pelo contrário. Conversando com guardas florestais na Serra do Cipó, eles contam que os bichos estão aparecendo mais do que antes, sei que houve a mesma coisa no Pantanal. A natureza vai tendo um respiro”, afirma.

Para o fotógrafo, “a natureza joga na nossa cara quão ignorantes e irresponsáveis somos com ela há tanto tempo. Quando destruímos o meio ambiente, estamos afetando a nossa própria sobrevivência aqui. Quando diminuímos a biodiversidade, retiramos habitat natural das espécies, facilitamos proliferação de doenças, pois muitas delas são originadas de animais. Não nos damos conta de que a humanidade cria essa situação. Ao destruir o planeta, descuidamos de nós mesmos, e a Terra passa essa mensagem: 'Vejam o que vocês estão fazendo com vocês mesmos’, porque a natureza vai continuar. Falamos em fim do mundo, mas seria o fim da raça humana, porque a natureza sempre continua, mesmo com terremoto, maremoto, meteoro”.

Concentrar na natureza próxima e buscar novos entendimentos nela também foi o caminho de João Marcos Rosa, outro fotógrafo mineiro acostumado a colocar imagens do mundo todo em revistas, livros e outras publicações profissionais. 

Seus trabalhos já figuraram em publicações como National geographic Brasil, GEO e BBC wildlife. O período de quarentena não o afastou da profissão, mas o fez retornar para sua verdejante vizinhança, em Macacos, na região de Nova Lima, onde passa a quarentena com a família.
 
Especializado em expedições fotográficas, Tom Alves está confinado na região da Serra do Cipó, que ele vem registrando, como nessa imagem de maio passado, com sempre-vivas e a via láctea (foto: Tom Alves/Divulgação)
Especializado em expedições fotográficas, Tom Alves está confinado na região da Serra do Cipó, que ele vem registrando, como nessa imagem de maio passado, com sempre-vivas e a via láctea (foto: Tom Alves/Divulgação)
(foto: Tom Alves/Divulgação)
(foto: Tom Alves/Divulgação)
Angústia 
A mata e os animais locais se tornaram parte da rotina, que, de tão inspiradora, deu origem a um livro a ser lançado na próxima quinta-feira (6). “O projeto nasceu dessa angústia de tentar compartilhar um pouco de beleza, de natureza e de leveza com pessoas que estão ao meu redor nas redes sociais. Inicialmente, não seria um livro. Era um projeto sobre amenidades. Tenho o privilégio de viver muito próximo da floresta e, como fotógrafo e documentarista da natureza, aproveitei esse tempo para me colocar nesse exercício, da prática diária de registrar coisas que estava vendo e vivendo, compartilhando essas imagens com pessoas que não têm a possibilidade de ver isso, por estarem isoladas em apartamentos”, diz João Marcos. 

O diário on-line chamou a atenção da editora Vento Leste e assim surgiu Diário de um outono particular, que reúne fotografias feitas por ele nesse período e textos com reflexões sobre elas. As imagens incluem animais locais, como coruja, lagarto e um beija-flor, que virou “amigo” da família, por visitar a residência costumeiramente. 

A vegetação também é contemplada e, em alguns cliques, Benjamin, de 6 anos, filho de João Marcos também é personagem, interagindo com esse cenário tão diverso. O costume de registrar a natureza em suas muitas formas, seja em pontos longínquos do globo, ou no quintal de casa, faz João Marcos Rosa atribuir uma característica especial a essas imagens, diante de tempos tão angustiantes para a humanidade. 

“Acho que a principal palavra é resiliência. A força de resistir. Por mais que apedrejemos, dinamitemos, devastemos, com mineração, desmatamento, a natureza sempre mostra isso. Em qualquer momento que dermos um respiro para ela, ela cresce novamente. Na quarentena, vimos imagens do retorno dos bichos em lugares onde não eram vistos há muito tempo, então a resiliência é o ponto mais forte da resposta da natureza”, argumenta o fotógrafo, que ainda percebe outra simbologia especial em se olhar para os ambientes naturais.

“Percebemos que o que temos, o que damos valor em nosso cotidiano urbano, é muito pouco e muito frágil. Todo mundo tem uma origem na terra, todo mundo tem uma referência dos antepassados fora da cidade, e muita gente tenta buscar isso agora. Temos uma conexão muito forte com o urbano, que não é a nossa raiz, que é anterior a isso. É preciso olhar para a terra e para natureza. Tento falar sobre isso no livro.”

Diários de um outono particular
João Marcos Rosa
Editora Vento Leste (184 págs.)
R$ 80
À venda em www./ventolestelivraria.com, a partir de quinta-feira (6), quando haverá live de lançamento, às 18h, em @joaomarcosrosa.

Para conferir as galerias dos fotógrafos e acompanhá-los

Tom Alves
Instagram: www.instagram.com/tomalvesfotografia
Site: www.tomalves.com.br

João Marcos Rosa
Instagram: www.instagram.com/joaomarcosrosa
Site: www.linktr.ee/joaomarcosrosa


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